Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Constelaçoes

I

 

António era pastor. Rapaz alto e seco como o sol de Agosto, mas robusto como as rochas onde descansava das noites perdidas. António era pastor, mas conhecia de cor, todos os carreiros de estrelas que o céu brandia, e todas as constelações de insectos que com ele partilhavam espaços. As noites eram de descoberta para ele, a escuridão da planície era uma aventura renovada a cada pôr-do-sol. Colava os olhos no infinito dos céus, e baptizava pontinhos que só ele via, com nomes que só ele sabia, que tinham estórias que só ele podia contar. E contava. Contava estrelas e contava estórias todas as noites. Discursava para um público de cornos e olhos vazios, que ruminava de mansinho o pasto sem fim. E sonhava com alguém que o ouvisse, e questionasse, com alguém que o pusesse à prova, que olhasse embevecido para as suas estrelas, como ele olhava... Mas a Tidinha não era assim.


II

 

Matilde, Tidinha pelo amor de uma mãe solteira de muitos homens, era bordadeira. Rapariga bonita, vaidosa. Corava ao sentir queimar nela o olhar dum macho, mas deixava sempre uma réstia de sorriso no caminho, como uma promessa que fica à espera de ser paga. Tidinha era bordadeira. Os dedos picados denunciavam a falta de virtuosismo para o assunto, e o olhar sempre preso entre o sonho e a vida, não se detinha no bastidor por mais que um ponto de cada vez. Sonhava com o António, os braços do António, o peito do António, as noites fugidas pelo meio, quando o povo todo respirava mais devagar, as noites salgadas do suor do corpo do António a cobrir o seu... As vontades que lhe subiam pelas pernas acima, quando o via, quando o ouvia falar de coisas que ela nem fazia ideia. não fazia ideia, nem queria fazer. Ela queria o António, ali, no pasto, deitado com ela, a dizer-lhe segredos que a espicaçavam ainda mais.... A Tidinha amava o António. O Manel também.


III

 

O Manel era caixeiro. Trabalhava na loja da Praça. Fazia embrulhos como quem borda quimeras. Vendia bons dias, e sorrisos francos a troco de escárnio e desconfiança. O Manel era delicado como as primeiras chuvas de Outono, andava no mundo ao avesso dos outros, e lia nos livros sobre as estrelas do António. Lia sobre a estrelas e chegava assim, pertinho do calor do outro. Esperava com o peito em ventanias, os dias que o António vinha à vila e deixava as cabras aos olhos do pai. Nesses dias até o Manel enchia a coragem e bebia uma ou duas cerveja com os homens na tasca. E no meio deles, era certo ganhar um toque furtivo. Uma palmada nas costas, um aperto de mão... às vezes até uma palavra que agarrava com as duas mão e guardava dentro para ouvir à noite. E depois, já cheio do amargo do álcool e dos risos, ficava lá fora, encostado à esquina, a ver o António e a Tidinha fugirem para o pasto, a brincar com o fogo dos corpos. O Manel ficava só. A olhar as estrelas do António, a decorar-lhe a voz, o corpo a soluçar por perder o que nunca teve. O Manel vivia como quem morre, e numa dessas noites cheias do vazio que a partida do António deixava nele, desejou ser uma estrela.

 

Originalmente publicado neste blog em 31 Agosto 2007

 


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Quarta-feira, 19 de Janeiro de 2011

O Sorriso do Parvo

  

  

 

Era feliz, o parvo.

Ria-se dos outros, porque os outros lhe davam graça, só por isso.

E não entendia, as carrancas de alguns, quando ele desatava uma gargalhada de gosto, só porque sim.

Os outros davam-lhe vontade de rir.

O queixo espetado do Dr. Vinagre, sempre muito azedo. O avô fizera-lhe justiça com o nome, e a senhora sua mãe, feia como uma barata, oferecera-lhe de bandeja o queixinho de rebeca arrebitado, e os olhos de morcego cegos! O Dr. Vinagre era um regalo para os olhos!

Também havia o Teodoro do Talho,  com aquela cabeça de porco rosada e redonda, as mãos de vaca, e as unhas de águia cheias de caca até ao sabugo.

A madrinha que o criou desde os cueiros,  dizia-lhe - ai rapaz, és mais burro que uma parede, mas tens um olho que nem um repolho! É que não te escapa nada!

Vagueava dia e noite pelas ruas da vila. Encontrava sempre alguma alma esquecida que lhe dava uma moeda pra cigarros, ou para um poejo, na venda da esquina, e depois, na volta a casa, enchia folhas e folhas de um caderno pautado, de rabiscos, que cheio de orgulho mostrava à madrinha Aurora.

- Este rapaz! Chamam-lhe parvo! Mais parvos são eles filho! Olha, o queixo do Dr. Vinagre! Ahahah! Se ele te apanha estes desenhos interna-te na casinha dos malucos! Põe-te a pau, e não saias com o caderno prá rua!

Ria-se da madrinha, enfiando o dedo sujo de carvão pelo nariz acima, e com o caderno todo dobrado e escondido debaixo da camisola interior, fugia para o quartinho, olhando para todo o lado, e soltando guinchos de gozo.

Não dizia uma palavra. Nunca dissera. Nem em pequeno, muito menos agora.

Tinha ouvidos de tísico e olhos de lince, tinha-lhe diagnosticado o Dr. Queixo Esticado à Madrinha Aurora, há muitos invernos -  é como lhe digo! não é surdo, nem é cego, é parvo!Parvinho de todo. - as últimas palavras saíram-lhe com um azedume cozinhado pelo riso do rapaz.

A Madrinha saiu do consultório de éter, com a alma entorpecida pelo cheiro e pela tristeza, ele vinha pela mão, feliz, rindo a bom rir - aquele queixo...

Gostava de ver as raparigas. Gostava tanto!. Eram tão bonitas e cheiravam a leite quente com lírios. Sabia que não se podia aproximar muito. Já o tinha sentido na pele uma boa meia dúzia de vezes.

Elas não compreendiam que ele só queria tocar, cheirar, desvendar os segredos por debaixo das saias rodadas, ver por onde desabavam montanhas e vales, de onde floresciam as rosas carnudas na boca de cada uma.

Uma vez, no dia do seu aniversário, uma quadrilha de rapazes lá do bairro, e mais pelo gosto da tropelia, do que pelo prazer da oferta, levaram-no à vivenda das meninas.

Ficava já fora da vila, num descampado abandonado pelas artes de Deus, e farejado pelo desejo dos homens.

Era plena luz do dia, para a Madrinha não desconfiar. Se ela soubesse, era capaz de o desancar com porrada e quando ela queria tinha a mão pesada de um mineiro.

Entrou no antro de veludo vermelho, e perante o escárnio dos companheiros, demorou-se nas palpações às cortinas, almofadas, sofás e chaise-longues que por ali abundavam. Era tudo macio, como pêssegos na árvore

Uma mulher sabida e bem disposta, puxou-o para um cadeirão, e escarranchou-se de pernas abertas em cima dele.

A um gesto os outros saíram, e a maestrina,  foi-lhe ensinando com destreza a arte de atiçar animais selvagens, e no meio de risinhos e suspiros arrancados do fundo de um poço, abriu-lhe janelas nas nuvens e trouxe-o de volta ao sofá acetinado, com carícias de mel nos olhos e uma chibata de pelo de cavalo na mão.

Andou duas semanas de olhos esbugalhados, a sonhar acordado com a cor vermelha, e a ter despertares alagados de sumos de pêssegos.

Nunca mais lá voltou. Tinha medo de subir às nuvens. Tinha medo que as vertigens e tonturas se pegassem à sua pele.

 Não guardava mágoas de ninguém...a não ser talvez de dois rapazes, que um dia espalharam pela vila um boato feio sobre ele.

Ele tratava dos porcos dos vizinhos, que estavam numa pocilga comum por detrás dos quintais. E os miúdos trataram de entreter os homens que se juntavam nas vendas ao fim da tarde, para o vinho do trabalho, com estórias floreadas de cenas escabrosas de relações carnais entre o parvo e os porcos da pocilga.

Foram dias tristes. A primeira vez que sabia que os seus olhos choviam água do mar, que só vira uma vez em pequeno.

A madrinha sovara-o até ter a pele das costas empoladas, e ainda assim, se ele pudesse falar, perguntaria porquê? Não percebia as estórias dos rapazes, mas sabia que o que eles contavam era muito feio e não se fazia. Não com porcos....

Mas o tempo, como o vento,  encarrega-se de levar as coisas para longe, e a não ser os dois rapazes, que agora eram homens, e um deles cornudo de cartilha, nunca mais ninguém tocara em tal assunto.

O parvo era feliz, na sua forma despegada de o ser.

Caminhava na berma do passeio, sorria de braços abertos, para a indiferença dos outros e abraçava o nada deles, que era ao mesmo tempo o seu tudo.

 

originalmente postado neste blog em 28 de Julho 2008 

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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Porque sim

 

 

 

 

Ficava aqui a falar dela, horas a fio. Dela ou do que me lembro dela.

O tempo encarrega-se de retocar as memórias, editar as imagens que fazemos das coisas e das pessoas. Agora, assim, ao longe, tudo me parece mais belo. Notam-se os remendos aqui e ali, numa ou outra passagem, ou em algum momento que se revela na escuridão das noites mal dormidas. A verdade, é que já não há noites mal dormidas, agora que penso nisso, atinge-me em cheio, a seco até, atrevo-me a dizer, a certeza do sono profundo e conciliador que me vem acontecendo.

Horas a fio, se quiser. Fora parte isso da cor, e dos retoques, está tudo claro como o dia de hoje, aqui, e aqui – apontou para a cabeça com o dedo indicador, e depois, pausando as palavras, com a mão aberta tocou o peito.

Era cheia de vidas. Assim, mesmo, no plural! Vidas. Ela era muitas. Ria-se do nada, brandia gargalhadas alto e bom som, escoando nela toda a alegria da terra. - Descansou as palavras num meio sorriso – Parece que estou a vê-la... ria alto, a boca perfeita abria-se sem pudores, e jogava a cabeça para trás num espicaçar constante. Os cabelos negros tomavam conta de toda a moldura da terra, e rasavam os sentidos de perfumes. - Falava entre silêncios e cambiantes poéticos – Ria-se de tudo, e de todos... se era bonita? Era bonita sim. Não que fosse uma estampa, dessas das revistas e do cinema, não, nada disso. Tinha lá os seus trunfos, se calhar era um bocadito...original. É a palavra que melhor a define. Os olhos deveriam ser menos afastados, os lábios mais finos, a silhueta mais delgada... – soltou uma gargalhada – era o que ela carregava dentro dela, ou sei lá onde, era isso que era bonito. Era esse não sei o quê, que ela transportada num esconderijo só dela, que provocava aquela vertigem à sua passagem. Também há quem diga que era...única... não gosto desse epíteto, Única! - Escarneceu - Estaria a condenar as pedras do caminho a nunca mais serem pisadas daquela forma. Não era única, não tinha esse direito.

Eu avisei, horas a fio a desfiá-la, a tecê-la...sem me cansar – atirava um olhar atulhado de vigor de outras épocas – mas antes que perca o fio à meada, sim porque a minha boca e o meu cérebro, andam cada vez mais por estradas desavindas. E isto...isto é a foz e a nascente, o derradeiro lugar. Talvez, não ainda, mas ela é o meu derradeiro lugar.

Dizia eu que ela era muitas a um tempo só. Quando chorava, e se ela chorava Santo Deus.... - As mãos impacientavam-se de sal. Estancou. Mudo – chorava a cântaros, e nos dias de chuva, aqueles dias cinzentos em que a tristeza é um estado de alma, nesses dias vidrados pelas janelas embaciadas, ela deixava de ser e escorria pelas paredes numa humidade de dar dó – uma sombra tombou em ameaça nos olhos fundos – era assim quando chovia, ou quando ouvia outros prantos que não o seu. O contágio era súbito e fatal.

Justiça lhe seja feita, tão depressa desaguava na dor, como renascia em fogos. Ela era também o fogo...como diz? Se ela era tudo? Tudo...mais que tudo.

Punha rubores onde pousava os olhos, e deixava rastos de labaredas por onde passava as mãos. Aquela mulher tinha o corpo em ferida aberta, do lume que o queimava, ardia devagarinho em lugares onde o recato aconselhava esquecimento. Se soubessem – podia quase ver-se o caramelo aquecido pelo desejo, escorregar-lhe pelos cantos da boca, num torpor de lava – se ao menos pudessem ter visto, como ela se entregava, mansa como uma cadela de colo, submissa e terna como um carneiro na Páscoa,.. cavalgava-a por montes e vales, banhados os dois em albufeiras de suor. Cada galope no dorso dela, era um passo para o abismo...ela tinha o abismo nos olhos e na ponta dos dedos com que me tocava inteiro... – as mãos branqueavam, apertadas uma na outra, e os olhos, esses perdiam-se na luz sépia da lembrança.

Porquê? Tardava a pergunta...porquê...Cheguei a perguntar a mim próprio. Nunca tive uma resposta. Melhor, nunca houve uma resposta. O sítio dela era em mim, percebe? Agora pergunto eu, percebe? Em mim...mas não fui compreendido, os abraços desatavam-se, ela deslizava pelo meu amor, fugia-me... não havia saída. Podia existir sem ela, mas nunca fora dela. Entende?

Então lamento...não sei dizer de outra maneira.

Como? Estava a dormir. Ela estava a dormir. Parecia uma criança ainda com a alma transparente. Sentei-me na beira da cama, toquei-lhe o peito destemido, subi pelo colo, até ao pescoço de garça, de graça... - Sorriu triste – detive-me por ali, senti a macieza daquela pele adamascada, apertei um pouco, só um pouco, mas firme. Os seios por fim calaram, ainda altaneiros, no entanto ausentes. Respirei fundo, inspirei as réstias de desafios e por fim, já com ela a correr-me nas veias, levantei-me e sai, em paz, completamente em paz.

 

 

originalmente postado neste blog em 12 de Agosto de 2009

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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2010

O Cheiro da Chuva

                                                                                                                             

                                                                                                                

A noite apanhou-a trancada num medo antigo.

O vento falava com as madeiras cansadas das janelas da casa, e as respostas  eram lamentos sentidos.

O Outono andava a rondar-lhe a cama, e os clarões dos relâmpagos que fotografavam as sombras dentro do quarto, eram mais que um presságio.

Trovões inundaram-lhe os ouvidos e encheram-lhe as mãos de um suor inquieto.

Havia muito tempo que não se sentia tão sozinha. As noites assim, de fim de Verão, tinham tido nela sempre esse mesmo efeito, o sentimento de ausência...dos outros e dela mesma.

Permitia-se sempre ter medo nessas noites. Podia meter-se debaixo dos lençóis, rezar fervorosamente, fechar portas e janelas, trancar-se por fora, e ver-se assim, como todos os seres vivos à face da terra, com aquela  ânsia que lhe acelerava o sangue, e,  que por aqueles dias, era a única sensação que lhe dizia que ainda estava viva.

Vivia numa solidão de cinema mudo, tudo o que via, eram lembranças que desfilavam para ela, sempre que as evocava. Desfilavam acenos e sorrisos de despedida, sem palavras, só acenos e sorrisos.

Habituara-se a viver assim. Não poderia viver com outro alguém que não fosse o vazio das paredes da sua casa, e os figurantes que acenavam nas suas memórias.

Lembrava-se sempre da sua 1ª Comunhão...não sabia bem porquê, mas essa sequência passava vezes sem conta à sua frente. Via uma e outra vez, aquela menina pequena e séria demais para os 9 anos, o cabelo preso num rabo-de-cavalo sisudo; a fatiota branca até aos pés atada na cintura por um cordão de seda amarelada pelos dias; e as mãos postas em oração, com um rosário de prata pendurado...

Um enorme altar de crianças risonhas, acenava-lhe um até breve, mas aquela menina, nunca!

Ficava ali, quieta, a olhá-la, e olhava-a com a mesma impavidez e desinteresse de sempre.

Ás vezes reconhecia-se naquela criatura ridícula e infeliz, e chorava com pena dela.

Outras vezes, via-se ainda mais pequena, sentada ao colo da avó, apertada num ramo de cheiros de hortelã e erva Luísa, que vinha do cabelo cinzento entrançado num poupo.

A avó era sempre uma memória que a deixava feliz. Acenava-lhe e sorria-lhe, segurando nos braços aquela criança amedrontada.  Nessas alturas, quase podia ainda sentir as mãos dela nos seus cabelos, e ouvir as suas palavras sábias, dizendo-lhe que "não era bom, falar no cheiro da terra depois de uma trovoada".

Porquê? Nunca tinha tido a resposta, mas apesar disso, e apesar de os pulmões se encheram daquele cheiro estonteante a terra molhada depois de uma trovoada, e apesar de o seu peito quase explodir de êxtase, ela nunca o disse, nunca falou desse cheiro. Com medo de quê, não sabia, nunca soube.

Os relâmpagos apagaram-se por fim,  e a noite pode cair abraçada àquela chuva, até de manhã.

O vento agora só já sussurrava, e as janelas rendiam-se.

 

Havia já muito tempo que não se sentia tão sozinha.

 

Originalmente postado neste blog em 12/09/2007             

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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

Estória para adormecer ...(VI)

Era uma vez...ou duas, agora também já não sei

uma história por contar, acho que era de um rei

 

Ou então era dum cão, um cão pelintra e esganado

um rei que ia prá guerra, ou um cão mal amanhado?

 

Ou seria uma princesa, linda doce e encantada

bêbeda, trôpega, vesga, de melena desgrenhada?

 

É isto que me confunde, era uma vez outra vez

a princesa beija o cão, e o rei o que é que fez?

 

O rei tinha uma espada, a princesa um gato pardo

o reino tinha piolhos, o cão tinha um carrapato

 

era assim o argumento, ou será pouco espedito...

será melhor um doutor, um mestre muito erudito? 

 

e depois o que faço ao gato, e onde vou deixar o cão

mato o rei, esfolo a princesa, tudo pla minha mão?

 

era uma vez.. ou duas, agora também já não sei...

comecemos outra vez: Era uma vez um rei...

(I)

(II)

(III)

(IV)

(V)

 

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Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Na lama

 

A trovoada estava já longe, mas o troar enchia ainda a tarde. Um rosnar cavo em direcção à noite. A terra toda exalava calor e humidade. Ali à beira rio derramava a angustia de um dia difícil. Sentia a camisa colada às costas numa mistura de água e suor. Estava sentado no lamaçal que a chuva grossa deixara pra trás. Enterrou os dedos na terra molhada e cerrou os olhos num gemido. Perdera a conta às horas. Há quanto tempo estarei aqui. Deixou os dedos semeados na lama. Como se estivesse entre as pernas de uma mulher. Sentiu-a trémula entre os dedos. Quente e saciada.

Pensou na mulher, e uma agulha afiada bordou-lhe no peito uma dor imensa. Pensou nela preparada para o receber, deitada na cama desalinhada, intensa e sem pudores, de olhos vermelhos e boca aguada. Doeu tanto que se abraçou pra segurar a vida nele.

Não podia voltar. Também não queria voltar. Mais um pouco e seria noite cerrada. Sem estrelas, sem luz que não fosse a trovoada a debandar em clarões fugazes, e o fogo que lhe consumia os dedos.

Não ia chorar. Isso nem pensar. Ainda tinha nos tímpanos o estrondear dos batentes da porta da rua, a madrugar o dia. Levantara-se de um salto. A mulher ficara na cama. Sentada, de olhos esbugalhados, pela expectativa de uma qualquer desgraça, o lençol puxado até ao queixo perfeito.

Correu até à porta abriu-a e lá fora só encontrou o vazio. Saiu, andou até ao meio da rua, olhou para cima, depois para baixo, esperou um pouco e voltou para dentro. Foi então que viu. Pendurado no postigo de ferro forjado, estava um valente par de chifres a rir-se dele. Um par de chifres ousados, em pontas, a desafiá-lo. Encurtou o passo, mirou os intrusos, sem lhe tocar nunca. Foi primeiro um formigueiro, subiu-lhe pelas pernas e em menos de um segundo já era uma fogueira ateada. Agora era só dor.

Ela tinha ficado à espera que ele voltasse. Ele não voltou. Os cornos engalanavam a porta da rua, e o sol já alto dava rastilho aos risos dos passantes. Ela tinha fechado a porta com raiva, e tinha vomitado o medo em tremores convulsivos. 

Ele deitou-se na lama e decidiu ficar. Os cornos pesam a um homem,  pensou. Depois começou a rir, de si, da lua acanhada, riu-se em gargalhadas fortes e sonoras, e só por uma noite espantou o bicho que lhe nascia dentro.

 

 

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Terça-feira, 3 de Agosto de 2010

Memórias de Vento

 

- Há quanto tempo não moras aqui?

-...não me lembro...mas volto sempre depois da chuva...

- Como uma formiga de asa?

- Sim!!! Isso mesmo, como uma formiga de asa, atrás de nesgas de sol.

- Antes eras diferente.

- Quando?

- Sei lá! Antes. Trazias as mãos e a boca carregadas de pólen, e por onde passavas nasciam flores amarelas, daquelas pequeninas que há no campo.

- Malmequeres do campo.

- Talvez.

- Não sei... só guardo o sabor do vento a uivar nas canas da ribeira. Trazia um torpor tão leve, que adormecia a sonhar com libelinhas de cores garridas em dias de sol.

- Ainda falas como quem diz poesia...pelo menos isso não perdeste.

- Nunca me compreendeste... são só palavras, percebes?

- Cortaram-nas.

- Desculpa!?

- As canas. As canas que ladeavam a ribeira. Vi lá os homens. Ceifaram todo o canavial.

- Que pena...o vento vai estranhar tanto!

- Disparate! O vento é um sopro, não é gente! Quem te ouve falar....

- É um sopro, eu sei. Mas se não é gente, porque é que vive comigo na mesma casa, debaixo do mesmo tecto?

- Lá vens tu com as tuas coisas....

- Não sabes a resposta, não é? ... Eu também não sei. Às vezes enxoto-o com o silêncio, mas ele não se rende, volta com mais força ainda, e esconde-se dentro do meu peito.

- Desconcertas-me...

- Não sei porquê? Basta olhar para ti! Vê-se a léguas!

- Ora....o quê? Diz lá...

- O inverno.

- ....

- Sim. Está nos teus olhos. Olhas para mim com tal frieza, que me faz arrepender...

- Mentes! Não há frio, nem chuva, nem neve no meu olhar!, mas...arrepender de quê?

- De voltar  depois da chuva...

-...como as formigas... para te encostares ao sol e aquecer as asas.

- Não ... Vinha para me aquecer em ti, e enxotar o vento.

- Não percas tempo. Também eu já não moro aqui. Tu sabes...

- Sim, eu sei. A força nunca foi o teu forte.

- E agora o que queres dizer com isso!!!

- Deixa lá...agora já não vale a pena...

- Sabes que detesto meias palavras! Explica-te!

- Está a arrefecer. Deve ser de ti. Vou-me embora. Adeus.

- Não! Espera! Fica mais um bocadinho...tens razão, tens sempre razão...mas o que queres,  sou fraco.

- E eu sou leve. Por isso vivo com o vento. Tenho dias de ser brisa, tenho dias de ser ventania.

- Mas fomos felizes, não fomos?

- Fomos?

- Acho que sim...eu era feliz..

- Vivias a fazer bonecos de neve com algodão doce...por isso eras feliz. Mas sabes? Para fazer bonecos de neve, é preciso neve...

- Isso nem parece teu! Tanta seriedade! Tu que dormias de olhos abertos numa cama de flores amarelas, que cresciam só para ti! Tu que derramavas  pólen, por onde passavas...

- Se dormia de olhos abertos, era só para não te perder de vista...e não eram flores, eram os teus olhos, e não era pólen, era amor...

- Não sei que te diga.

- Não digas nada...vou agora.

- Voltas?

- Não sei...

- Talvez depois da chuva?

-...como a formiga de asa.

 

 

Fotografia de João Palmela

 

 

Texto originalmente postado neste blog em 20 de Outubro de 2007

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Quinta-feira, 22 de Julho de 2010

A solo

A

A rapariguinha olhava a margem da baia. Despreocupada, as mãos bem enterradas na areia molhada abriam e fechavam como que a tomar o pulso á calmaria da manhã. Apesar de Setembro já bem entrado, o mar estava quieto, acomodado na cacimba que a madrugada destilara no sono.

Havia pouca gente na praia. Os veraneantes escolhiam preferencialmente o mês de Agosto, mais quente. Eles iam sempre no final do Verão. Era mais económico. Família grande, cinco filhos. Virou-se para trás por um momento. Os outros continuavam na conversa em frente do toldo riscado, que alugavam à quinzena. A mãe lia uma revista dessas que falam da vida das pessoas da televisão, alheada do grupo. Os dois irmãos mais novos, iam alimentando as quezílias do costume, enquanto os mais velhos faziam planos com o pai para uma caminhada até à foz do rio que desaguava na baia.

Eram quase 10 da manhã, e a ansiedade tomava conta dela. Levantou-se e desceu um pouco, até à rebentação. As ondas vinham suaves, sem pressas. Recuou quando sentiu a água gelada. Ali a água era sempre tão fria. Abraçou-se num arrepio. Ajeitou a alça do fato de banho branco de algodão turco, com pequenas ancoras bordadas em azul marinho. A julgar pelos elásticos lassos, podia ver-se que  tinha pulado gerações até chegar ao corpo seco e bronzeado da rapariga.

Finalmente avistou a mulher dos bolos. Esta era diferente de outras que faziam ali a praia da Vila. Caminhava calada. Uma trouxa de pano no cimo da cabeça, e apoiada nela a caixa de metal polido com três gavetas.

Fez sinal com o braço no ar. Correu até ao toldo e voltou com uma moeda na mão. A mulher ajoelhou na areia, tirou a caixa e pousou-a em frente da rapariga. Abriu as gavetas, uma a uma, diante dos olhos esbugalhados. Sentiu a língua explodir em milhares de gotas de água. Era todas as manhãs a mesma coisa. A indecisão. O cheiro era uma coisa do outro mundo. Aquele contentor de alumínio, era o portador de toda a felicidade do mundo. As bolas de Berlim, roliças, envoltas em dulcíssimo granulado e cheias de creme de ovos, os pasteis de nata, de massa crocante e creme tostadinho com um toque de canela. hummm, cerrou os olhos. Optou por uma almofada de pão doce recheada de chantilly, polvilhada de pó de açúcar e fios de ovos.

Se tudo fosse tão simples como aqueles momentos. A mãe dizia que ela era estranha, o pai achava que ela era apenas diferente dos outros filhos. Os irmãos passavam a vida a chamar-lhe anormal. Se ao menos a deixassem em paz, como agora. Se pudesse, comia daqueles bolos o dia inteiro, e depois nadava até lhe doer o corpo todo, e os lábios ficarem roxos. E depois dormia. E não precisava de dizer nada. Afinal as pessoas falam porquê? Lambeu o último bocadinho de chantilly do canto da boca, e chupou os dedos um por um. Os irmãos por exemplo, só diziam parvoíces. Correu até ao toldo, agarrou um balde plástico encarnado, e foi apanhar conchas.

 

Verificou a casa de banho. Nada. Tinha guardado tudo. Apanhou os pequenos sabonetes, os frasquinhos redondos com shampoo e gel de banho. Abriu o necessaire e deitou tudo lá pra dentro.

Verificou só mais uma vez o roupeiro, e espreitou pra baixo da cama. Parece que não tinha esquecido mesmo nada. Riu-se de si mesma. Que estupidez. Tinha alugado o quarto só por essa tarde. Nem sequer tinha trazido mais nada além da pequena mala com os produtos de higiene. O recepcionista tinha levantado a sobrancelha ligeiramente, quando ouviu que era só para a tarde. Deve ter pensado em encontros escaldantes, estórias de amantes e traições. Redondo engano. Era apenas um rendez-vous com ela mesma. Tinha poucas oportunidades para o fazer. Estar sozinha. Crescer e viver numa casa cheia de gente tinha facilitado o recato do seu ser. Andava sempre toda a gente ocupada com alguma coisa, era portanto mais fácil estar só. No meio da confusão do entra e sai de gente, sentia-se muitas vezes felizmente invisível. Depois mudou tudo. O pai saiu de casa a salivar atrás de uma rapariga esperta com metade da idade dele, que o fez comer o pão que o diabo amassou e depois lhe pôs um valente par de cornos com outro qualquer parvalhão de meia idade e bom emprego. Não voltou mais pra casa, até porque a altivez da mãe jamais o permitiria. Os irmãos mais novos foram estudar pra fora, num desses intercâmbios universitários. A irmã, a mais velha dos cinco, ía insistentemente no terceiro casamento. Além de estúpida era uma romântica desconcertante, e o drama era a vida dela. O irmão mais velho seguira rumos errantes. Um aventureiro, sem casa, sem laços, e ao que parece sem raízes. Havia já mais de quatro anos que não havia notícias dele. A ausência de vida na casa de família foi o gatilho que disparou e lhe encheu a existência de ruídos impossíveis. A mãe estava mais que morta naquele deambular oco de sala em sala. Arrumava os quartos para os filhos que nunca vinham. Limpava o que estava limpo, dia após dia. Tinha-se tornado penoso viver aquela vida em que era agora visivel. Todos os movimentos detectados pelo radar da mãe, todos os passos contados. Não sabia conviver com a visibilidade da sua pessoa. Depois da casa se esvaziar ela procurou refugio nestas escapadas Hotéis, residenciais, pensões. Umas horas de silêncio a soldo. Estendia-se na cama, fechava os olhos. Normalmente não era difícil encontrar-se. Sorria no reencontro. Mesmo depois dos trinta, mesmo depois do curso, depois de um namorado, um estranho que se dava ares de intelectual, e a achava esquisita. Mesmo agora, não se sentia muito diferente de quando era miúda. Sem compromissos, horários, pessoas, conversas. Cada vez achava as palavras mais dispensáveis. Uma vez, não muito longe, tinha chegado a ponderar silenciar para sempre este seu ser insatisfeito, incompleto. Mas teve medo. E se no momento exacto chamar por companhia. E se me apetecer falar. E se a dor, aquele momento de dor que antecede o fim, não me deixar partir sozinha. Desistiu. Fechou a porta atrás de si e voltou pra casa.

 

 

C

Apertou as mãos uma contra a outra. A igreja estava quase vazia. Era a hora da sesta, e Agosto tinha chegado numa baforada de calor africano. Ali dentro estava fresco. E havia um silêncio redentor. Não queria rezar. Uma mulher velha e curvada varria o acesso à sacristia. Um lenço negro na cabeça, atado por baixo do queixo num nó firme. Não conseguiu evitar uma pontada de pena. A velha tinha umas mãos tristes, cheias de nós. Conhecia-a de vista. De toda a vida. Tinha chegado há muitos anos, já enlutada, o lenço, o nó firme. Ninguém sabia de onde tinha vindo, quem tinha perdido. Era uma mulher soturna. Sempre metida consigo mesma. Calada. Quando passava na rua, deixava um rasto de prantos no coração das pessoas. Olhou as suas próprias mãos. Seriam também mãos tristes? Estavam cheias de nós. A idade tinha avançado sem clemência. Tinha-a povoado de recordações. Estava cheia de gente, de gente que falava. Há uns anos começara a entrar naquela igreja, todos os dias, logo depois do almoço. Não rezava. Não era companhia que procurava. Era o silêncio. Em sinal de respeito, à entrada do templo, todo aquele burburinho de gente cessava. Nunca fora amante de palavras, e pra falar verdade, nunca gostara muito de pessoas. Parecia-lhe um pouco ridículo, mas aquela velha amortalhada de negro, curvada, de mão tristes inquietava-a. Seria assim o silêncio perfeito? Não queria rezar, eram palavras e as palavras eram supérfluas.

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Quarta-feira, 2 de Junho de 2010

Sem fim

 

 

Acordou com o estrondo da garrafa de cerveja vazia a cair no chão. Não sabia há quanto tempo ali estava. Agora não restava mais ninguém, só ele, ali aventado numa cadeira de madeira surrada e manca. A boca sabia-lhe a tinta da china e o estômago pulsava nervoso. Cerrou os dentes e fechou os olhos enquanto passava a mão pela testa. Onde estaria toda a gente. Porque não lhe tinham dado ordem de saída? A cabeça doía-lhe, parecia que todos os ossos estalavam. Fechou os olhos com mais força e deixou cair a cabeça nas duas mãos. Os cotovelos apoiados nos joelhos, o vómito a ameaçar a sua existência embaciada. Vou ficar aqui só mais um momento, o suficiente para esta indisposição passar. Que merda, quem me mandou beber assim. O mundo não acabou! Aposto que a cerveja também não, acabei-me eu.

A garrafa vazia jazia a seus pés. O troféu de uma noite de promessas amarrotadas nas mãos de outrem. O ar estava saturado de cheiros de fim de festa, pontas de cigarros, cerveja derramada em baforadas de espuma, gargalos ocos. As pranchas de madeira encerada no chão do salão, amanheceram ainda atapetadas de serpentinas e papelinhos coloridos, uma inundação de sonhos a cores acabados debaixo dos pés. O vazio da sala tomou conta dele, sentiu-se dominado, diminuto. Se a mãe o visse naquele estado havia de dizer-lhe que ele era um reles, um estafermo, havia de apontar-lhe o dedo indicador ao nariz, atirar-lhe à cara o pai bêbedo que se esforçava por igualar, até ao fim, até à cova funda, onde o amortalharam muito antes do tempo dele. E ele não poderia negar nada. Nem a vulgaridade, nem a bebedeira, muito menos a vontade que tinha de morrer agora. A morte era mais morna que aquele fogo que tinha no estômago. O fim era mais clemente que a lamina de aço encostada à sua garganta.

Levantou-se devagar. O salão de baile dançou à sua volta. Um odor a suor toldou-lhe a lembrança da noite passada. Ela estava tão bonita. Cheia de si. Nem reparou nele. Nem reparou no buraco vertiginoso no peito dele, cheio de quase nada. Como foi capaz de ser tão cruel? Nem um olhar de soslaio. Nada. Só risos e as mãos daquele outro a marcar território nos seus quadris.

Ensaiou um passo. Tentou equilibrar-se, tinha os pés dormentes, as pernas pesadas. Ao que tu chegaste, pensou com uma pontada de pena. Os últimos tempos tinham sido cruciais para levedar o sentimento de auto-comiseração. Tinha chegado ao ponto que não sabia dizer, nem no recato da sua intimidade, onde terminava a culpa e começava a pena, e qual das duas o esvaziava mais.

Os olhos raiados de vermelho, doíam-lhe ao insuportável, e o sol matinal a insinuar-se pelas janelas altas do salão era uma arma letal para o seu equilíbrio. Levantou a cabeça e passou uma vista à grande sala, ainda engalanada. Os candelabros antiquissimos com pequenos vidrinhos lapidados, as paredes forradas a meia altura de tecido adamascado púrpura e vermelho sangue, com altos rodapés de madeira envernizada. Balões de papel frisado pendiam do tecto de estuque floreado, pendurados em longas varas de aço fino. Estava vazio. Não o salão. Ele. O salão estava imerso na letargia do depois. Lânguido, altivo, sujo ainda. Ele não tinha nada. O antes o depois, o agora. Fundia-se tudo no nada.

Caiu de joelhos e vomitou. Uma espécie de remorso tomou conta dele, mas só um instante. Podia ser tudo diferente. Deslizou para o lado e deixou-se ficar ali, caido no chão. O frescor da madeira aliviava-lhe as dores no corpo. Por cima dele o tecto de estuque imaculado. Ela estava tão bonita. Tão cheia de si. Nem reparou nele. Fechou os olhos. Daqui a pouco viriam varrer o salão.

 

 

 

 

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Sábado, 1 de Maio de 2010

Estória para adormecer...(V)

 

 

 

Era uma vez uma donzela, de peitinho espartilhado

Folhos rendas, rebicoques, coração endiabrado

Nutria tamanha afeição, por um alguém Zé ninguém

O rapaz da estrebaria, mas então que mal tem?

Num acesso de falta de ar, soluçou seu nome em vão

A culpa era do espartilho, mas pagou o coração

Oh Manel da estrebaria!, sufocava a bela e pura

Esta paixão tão veemente ainda me leva à clausura

Em coros de ahs e ohs! A plebe inteira pasmou

"Uma donzela tão casta, e num moço se fitou!!!"

Farto de éguas de pasto, o Manel da Estrebaria

Desatou-lhe o espartilho, tal não foi a ousadia

Porém logo de seguida, o moçoilo recuou

O olhar esbugalhado, incrédulo do que mirou

Então uma dama tão fina, maviosa e delicada

Em vez dos seios altaneiros, tinha uma teta mirrada!

Acaba-se aqui a paixão, decretou ali o Manel

Acaba-se a montaria, vou voltar pró meu corcel!

Ficou a donzela chorosa, e agora ai ai ai

pobre de mim coitada que puxei ao Senhor meu Pai!

 

I, II, III, IV 

 

 

 

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