Domingo, 15 de Novembro de 2009
Da ausência

 

 

 

O menino sentado numa pequena rocha, olhava encantado os movimentos soltos do lápis de carvão sobre a tela. A mulher de costas diante dele, fazia magia com as mãos e um lápis, pensou. O menino estava quieto. Os gestos da mulher exerciam nele quase um estado de hipnose. Era pequeno demais para perceber a raiva contida no bico do lápis de carvão, para entender as mágoas caladas nos riscos negros pesados que iam ganhando forma na aridez da tela em branco. Encolheu-se um pouco. Era quase inverno, e àquela hora da manhã, apesar do sol se agigantar no céu, soprava uma brisa fininha, que entrava sem pedir licença pelas costas acima. Esfregou as mãos uma na outra, e meteu-as entre as pernas para as aquecer. Uma árvore de contornos fantasmagóricos, um homem solitário encostado a ela, uma chuva grossa e certa... Os riscos ansiosos ouviam-se com clareza a arranhar o papel sem contemplações. A mulher parou por um momento. Desviou-se um pouco, o suficiente para ter uma visão total e completa da sua obra. Franziu o sobrolho, arqueou o canto dos lábios. A expressão era tão fria como o desenho. Fechada. podia mesmo dizer-se triste. Depois, logo a seguir, outra vez de lápis em riste, atirou-se para o silêncio do desenho, para a tarde encoberta que aos poucos ia transbordando para fora da tela, tisnando o dia de preto e branco. O menino inquietou-se. Estava a ficar frio. Agora, já rendido, o sol  envergonhava-se por detrás de umas nuvens escuras, e ainda não era nem meio dia. Olhou o céu, e temeu pelo desenho. Se chover, o homem a árvore e a chuva grossa, vão ficar ensopados, pensou aflito.

Foi então que um sopro quente encheu o vale. O menino cobriu os olhos com as mãos em concha, e caiu de joelhos na terra húmida. Sentiu o mundo parar um segundo, e depois retomar o entardecer. Baixou as mãos, outra vez geladas. A tela jazia à sua frente. Branca. Quase imaculada, não fosse uma chuva miudinha insistente, em pequenos e delicados riscos de carvão. A árvore sombreava cá fora, arrefecendo ainda mais o meio dia, e por entre os ramos o menino pode ainda vislumbrar a mulher. Planava de mãos dadas com o homem de traços negros. O vestido branco com uma bainha de lama fresca, amparava a brisa como a vela de um barco. O menino teve medo. Levantou-se. Apanhou o lápis do chão, o xaile preto esquecido ao lado do desenho. Esqueceu-se do luto daquele voo. Deixou o frio sentado na rocha. Parou a chuva com um gesto e tornou-se tela em branco.

 

 

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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
On the radio

 

 

 

Então parece que no Domingo, da uma da tarde até às três, vão ler, a qualquer altura (ehehe) uma estória cá do tasco, na rádio!!! A coisa vai dar-se no programa a História Devida da Antena 1, que vai contar com a presença da escritora Ana Nobre de Gusmão. Curioso, ou não, é que o programa vai passear-se pelo meu Alentejo, logo a minha pequena estorieta até faz todo o sentido.

O conto de que falo é este, e é completamente real :DD:

 

  Lost In Translation. 

 

Se quiserem saber mais, vão aqui, está lá tudo!

 

Desde já obrigada e bom fim de semana.

 


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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
A força de um hábito

 

Naquele momento, apenas a falta de um espelho, pequeno que fosse, a entristecia. Gostava de ver no espelho o poder daquilo que sentia. Era madrugada, o vento fininho dos primeiros dias de Novembro, aventurava-se por debaixo de portas e janelas, e enregelava o quarto atarracado.

Rodopiou, uma e outra vez, descalça. O frio das lajes do chão faziam com que se sentisse ainda mais viva ... Mal conseguira pregar olho. Fora duro chegar até ali. Anos a fio de penas e martírios. Noites desfiadas em rosários de lágrimas, tantas vezes de arrependimento. Dias calados em febres de saudade.

Sentou-se na cama estreita, tonta de tantas voltas. Se alguém a visse, antes do nascer do dia, a dançar daquele forma, na certa temeria pelo seu equilíbrio emocional. Abafou uma gargalhada com a mão em concha. Uii - doíam-lhe os dedos dos pés! Massajou-os devagar, tinha tempo ainda. Ninguém lhe mandara andar em pontas no chão de pedra! Deixou-se cair para trás, os pés ainda no chão, os braços debaixo da cabeça, o corpo todo ao abandono feliz daquele momento. A vida estava a ser boa pra ela...pensou.

Fechou os olhos por um momento, via a outra vida dela. Os cabelos cor de palha compridos, a franja sempre a cair para os olhos, a saída da escola às 5 da tarde, os lanches na pastelaria do Amadeu com os amigos. Acendia um cigarro assim que caía numa das cadeiras à roda da mesa - Ufa! Esta época de exames está a dar comigo em doida! Estou mais que morta!  - Puxava uma e outra baforada do cigarro e expelia o fumo com gosto. Depois chegava ele, vinha pelas costas dela e como sempre dava-lhe um beijo no pescoço - Olá linda! Então como foi o dia? - ficavam ali, no meio de toda a gente, apenas um com o outro, sem intromissões, falavam do dia, trocavam novidades e beijos, e depois do lanche saiam abraçados. Faziam amor no banco de trás do Renault 5, e despediam-se com a boca ainda cheia de promessas.

Ele entrou em Medicina, no Porto, ela adiou a Universidade. Era muito nova, sedenta de dar. Propôs-se para uma missão em África. Tomou-lhe o gosto e voltou. Não sabe bem como, mas as cartas começaram a rarear, telefone em muitos lugares era apenas uma miragem, e sem dar por isso a ânsia da paixão, deu lugar à saudade, que deu lugar à recordação doce de um lugar longe.

Não houve choros, nem culpas. Soube que ele casou. Mandou-lhe um cartão de felicitações, e recebeu outro a agradecer.

Numa das missões, conheceu o Toti, missionário como ela, enfermeiro de profissão. Casado. A distância de casa acabou por os juntar na cama. Espantaram o medo, as diferenças e diluíram a cor da pele de um e de outro num alambique de suor aquecido na sofreguidão das noites quentes.

Desta vez não foram feitas promessas, nem juras de amor para sempre. Ali naquele lugar o Sempre era o dia de hoje e cumpria-se em cada criança que faziam sorrir.

Suspirou fundo. Desde muito cedo na vida vivia as relações com fervor, entregava-se sem reservas quantas vezes não foi mal interpretada, incompreendida até, quantas vezes ainda o era. Este pensamento provocou-lhe nova risada.

Passou a mão pelo cabelo. As dificuldades logísticas durante os anos de missões, não lhe deixaram outra saída que não fosse cortá-lo, bem curto. Claro que tantos anos depois já estava habituada. Gostava de se ver. Dava-lhe em ar mais jovem, irreverente. Agora achava que já não conseguiria ver-se de outra maneira.

Os tempos em África tinham-lhe dado sabedoria. Não uma sabedoria aprendida nos livros, levada ao colo por bicas curtas e cigarros em fio, não, era antes uma sabedoria das coisas. De como o sol se põe todos os dias com tonalidades diferentes, de como a terra se agarra à pele e enche os pulmões de um querer cantado em dialectos à tardinha. De como se cai com os joelhos no chão com a certeza de uma mão firme para nos erguer.

Agarrou a mão, e esqueceu a dor. Edificou-se por sobre o pó que às vezes foi.

Olhou para a janela pequena. O sol estava a nascer. Tinha tanto que fazer. O coração batia cada vez mais depressa, tão descompassado que parecia ir saltar-lhe do peito. Podia viver com muito pouco, com quase nada, mas o coração tinha que estar cheio, cheio ao ponto de derramar para fora e sobrar para quem estivesse por perto. Já se tinha apaixonado antes. Mas assim...nunca.

Levantou-se da cama. Calçou as sapatilhas de lona, retirou o fio com o crucifixo de cima da mesinha de cabeceira e passou-o pela cabeça. Ajeitou a cruz por cima da veste branca, à altura do coração. Depois fixou a cadeira ao canto do quarto, deu um passo até lá e pegou no véu branco. Colocou-o num gesto repetido, o cabelo por dentro, imaculado. Era o último dia que o usaria. Nessa mesma tarde, na frente de todos, receberia outro, negro, definitivo. O enlace preparado nos últimos três anos ia ter lugar. Ia poder finalmente apenas amar. 

 

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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
Escrever à toa

 

Faltavam-lhe as palavras. Em tantos anos nunca tal lhe acontecera. Eras de palavras em catadupa, despejadas em páginas e páginas ordeiramente arrumadas nos escaparates. Romances frustrados, desventuras e mágoas, lágrimas e traições, paixões fervorosas e abraços arrebatados, fins trágicos e corações destroçados.

E agora? Agora chegada a hora da verdade, o momento supremo do discurso inflamado, a chuva de meteoros brilhantes, a ovação pungente repetida em encores a uma só voz....Agora...agora....nada!

A Meisterstück monogramada na mão, a folha verde clara, perfumada de colónia Vétiver, em frente...vazia...flores pastel, esbatidas em jeito de moldura escarneciam diluídas em sorrisos verde água.

Costumava sentir-se impelida a escrever pelo desejo secreto de semear penas e escombros nos corações frágeis que devoravam os seus contos. Aquelas pessoas reviam toda uma existência de promessas vãs e sentimentos violentados nas páginas de um daqueles folhetins debitados por ela. Alimentara-se séculos a fio daquela pontada doce de sadismo. A dor provocada nos peitos maltratados pelo desamor. As palavras aventadas sem pudor, frases inteiras de solidão, parágrafos de abandono e despedidas prematuras.

Ah! - pensava ainda agora, vazia - como tinha sido feliz enquanto paria livros como coelhos, uns atrás dos outros! E agora nada. Lembrava-se, já de uma forma desfocada, é certo, de como o coração batia mais apressado a cada nova capa, homens fortes e másculos, tomavam nos braços donzelas indefesas que os olhavam em prece, caladas. Títulos sugestivos " O amor de toda uma vida", " Adeus meu amor!", "Não me esqueças!", " A mulher misteriosa", um rol de banalidades, uma receita certificada e eficaz de gestos teatrais e desfechos melodramáticos...

Rodou a caneta por entre os dedos. Sentiu o peso frio do aço. O peso pluma do vazio de palavras que a tomava de assalto.

Fechou os olhos rendida num suspiro fundo.

A Meisterstück deslizou até ao chão alcatifado a Arraiolos. Em cima dos joelhos, o genérico final, uma folha verde água, perfumada de Vétiver, marginada de flores pastel, nua de palavras.


Para Vou de Colectivo - "Hábitos de leitura" - Outubro/09


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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Os noivos ( relato de uma visita ao alfaiate )

 

 

 

Olhou para um lado, depois para o outro, certificou-se que a rua estava desimpedida, e preparou-se para atravessar pela passadeira de peões.

- Anda lá, quero ver se ainda lá o apanhamos antes da hora do almoço!

Ana Maria era uma rapariga possante, um metro e setenta de altura, ombros de estivador, e um tronco corpulento. Naquele exacto momento, vinha de braço dado com o noivo. O Bento não via mais nada à sua frente a não ser a sua querida e amada Ana Maria, era perdido por ela. A bem da verdade, ele pouco mais conseguia ver com um muro daqueles à sua frente, e o amor profundo, todos sabiam era um misto de temor mansinho e medo de morte, consoante a ocasião. O Bento era um rapaz bem posto, um rosto miúdo de gaiato, num corpo talhado pelo trabalho no campo, sarado e bem proporcionado. Era também um rapaz acanhado, com alma de pardal espantado, e um coração de manteiga sem sal e sem coragem.

Passaram a rua, ele a reboque dela.

- Falta menos de um mês, e se não sou eu a pensar em tudo, tu não te mexes! - Ana Maria conferia às palavras um certo tom de mágoa - tu não vês que eu não chego pra tudo!

- Tens razão amor, desculpa-me...sabes que eu sou um descuidado...

- ....mas não pode ser! - a conversa continuou no mesmo compasso de culpas e desculpas.

Ao fim da rua, mesmo na esquina que desembocava na praça principal da Vila, podia ler-se num placard em letras manuscritas: Casa Valverde - Alfaiate Masculino; por baixo, em letras mais pequenas mas ainda assim bem sublinhadas: a última moda à sua medida.

Ana Maria sorriu. - Chegámos!

Amândio Tito Valverde, mantinha o negócio da alfaiataria que herdara do avô paterno, com um regozijo extremo. Aquele era o prazer máximo da sua vidinha pequena. Era ali, dentro da lojinha humilde mas bem arranjada que vivia todas as suas fantasias goradas de grande desenhador de moda, estilista conceituado nas melhores capitais europeias, desfilies e brilho, e palmas e agradecimentos. Era ali no meio dos rolos de tecidos de cores espartanas, e um mobiliário sisudo que se imaginava envolto em sedas e veludos.

- Bons dias jovens, em que posso ser útil - perguntou Amândio Tito, esfregando as mãos uma na outra, o tronco ligeiramente inclinado na direcção dos entrantes.

- Sr. Valverde - adiantou-se Ana Maria - este é o meu noivo, Bento Joaquim. Ele precisa de um fato, uma coisa fina, está a ver? É que...vamos casar, daqui a um mês. Acha que pode atender-nos? Ainda haverá tempo? - pergunta ansiosa.

- Casar.....um mês.....hummm...bem, é um tudo nada apertado, já vê....tenho muito trabalho entre mãos, não tenho ajudantes especializados - um assomo de vaidade espreitou-lhe o olhar - mas a bem do amor, o que não faz um artista! - rodou os olhos para o céu e abriu os braços, todo ele drama.

O alfaiate, tinha umas mãos finas de dedos longos, e unhas bem tratadas. Umas mãos de fazer inveja a qualquer mulher. Era um homenzinho pequeno, magro, pensar-se-ia que teria padecido de raquitismo em criança, tal a fragilidade que aparentava. Era no entanto de personalidade vincada e forte, tantas vezes abafada em metros e metros de tecido.

Não era segredo para ninguém da Vila, Amândio Tito movia-se numa singular redoma. Era um homem peculiar. Afeminado, de voz excessivamente estridente e gestos delicados, fazia da custura uma arte, e acima de tudo um escape para os pensamentos que lhe atormentavam os dias longos. O pai, homem rude de má maneira e parca educação, sempre recusara o ofício paterno, mexer com fazendas finas era negócio de mulher, e a sua macheza mantivera-o afastado da alfaiataria durante toda a vida. Amândio Tito filho único de Avelino Valverde, touro cobridor e putanheiro inveterado, nasceu de sete meses, manso como um gato castrado, e melindroso como ponto de açucar.

Cedo sentiu as diferenças medrarem dentro de si, e cedo aprendeu, muitas vezes por acção da força bruta do seu progenitor, a calar anseios e suspiros. Cresceu debaixo das saias protectoras da mãe, e dos "piropos" do pai. - Paneleiro! Larga os panos e vai-te às raparigas. Larilas! Maricon de merda!

Aos 20 anos, com a tropa feita, depois de uma recruta bravia, que incluiu um passar de cama em cama no escuro da caserna, Amândio Tito, já com os desejos moldados, e as vontades domesticadas, cortejou uma rapariga de uma aldeia vizinha, e poucos meses depois uma boda cheia de pompa e circunstância engalanou a Vila.

Maria Rita, tinha 17 anos no dia do casamento. Gostava de Amândio Tito. ele compreendia-a, era vontadeiro, estava sempre a dizer-lhe como se devia ataviar, era um bom rapaz, de boas familias, os Valverde, toda a gente sabia nos arredores eram uma familia de recursos, o velho lidava a custura, e o filho labutava nas terras de sol a sol. Tinham amealhado uns tostões, e Maria Rita, ao casar com o neto Valverde, tinha a certeza de estar a trilhar um bom caminho. Claro que o casamento se revelara muito diferente de tudo o que sonhara, de tudo o que as amigas mais velhas lhe tinham segredado entre gemidos e respirações aceleradas. O marido não tinha o minimo interesse nela, pelo menos a esse nivel carnal, que tanto tinha imaginado. A principio ficou magoada, não negava, depois aos poucos já era um amargo de boca, um quase ódio que germinava devagarinho mas robusto. Gritou, rebelou-se, ofendeu-o, também ela lhe chamou paneleiro e todos os outros epitetos que ela já ouvira vezes sem conta; rasgou as roupas na frente dele, ordenou-lhe que pelo menos a livrasse da virgindade! -  Caramba homem! Será que hei-de morrer virgem e casada!?

Por fim, concedeu-se a si própria uma trégua, arranjou um amante, caixeiro viajante. Passava uma vez de quinze em quinze dias a vender botões e fechos de correr, e deixava-a exausta e viçosa despois de cada visita.

- Vamos então tirar as medidas, meu jovem. - revirou os olhos direito a Bento Joaquim, e segurando-lhe pelo braço encaminhou-o para a salinha de provas. - a menina, venha também - mediu-a de alto a baixo, sem esconder o espanto de ver aquele belo exemplar de homem com uma rapariga tão vulgar. - sempre ajuda a escolher o tecido, e o modelo.

Ana Maria seguiu os dois homens de perto.

- Estamos no Verão, o Sr. Valverde não acha que um linho claro era o ideal? O Bento é moreno, ficava-lhe bem um fato claro, não acha? O que diz Sr. Valverde?

- Oh minha menina, o linho é muito bom, sim senhora, mas para férias, ou até para o escritório, agora...para um noivo - e juntou as mãos junto ao peito - para um noivo é pouco elegante, entende, amarrota-se, enruga-se - franzia a boca e o nariz enquanto falava - para um noivo precisamos de um tecido mais nobre, uma boa lã de seda por exemplo, que cai completamente a direito - deslizou a mão pela perna de Bento num movimento descendente.

O rapaz retesou-se constrangido, mas continuou calado como era seu hábito. Ana Maria olhou para Amândio. Havia uma ponta de desconfiança naquele olhar. Aquele homem era mexido demais para homem. Falava demais.

O alfaiate puxou um rolo de fazenda azul marinho. - Está ver meu jovem? - dirigia-se a Bento, que não sabia o que fazer ou dizer: - errr...bem..... - balbuciou a medo, virando a cabeça para a namorada.  Ana Maria tocou o tecido, apalpou, torceu o nariz, passou o tecido pela face e depois de um silêncio de expectativa - parece-me bem Bentinho, é macio. Não quero saber do preço. Faça o melhor que sabe, Sr. Valverde!

- Ora essa menina! Amândio Tito Valverde faz sempre o melhor que pode! Em especial para um noivo tão jeitoso... - havia mel na voz.

Foram tiradas as medidas, o comprimento de pernas e braços, o peito, ombros, anca, cintura, nada foi deixado ao acaso. A cada numero lido na fita métrica, Amândio Tito elogiava as proporções perfeitas do noivo.

Um cheiro forte a cozinhados intrometeu-se no cenário.  - Ana Maria sentiu uma tontura, procurou o apoio da mesa e fechou os olhos um momento. O cheiro a refogado puxado, estava a deixá-la enjoada. Desde que descobrira a gravidez, há mais de um mês, que se lhe águava a boca de repugnância e vómito, na presença de odores fortes. Só ela e Bento sabiam. Ele de olhos baixos e voz sumida, concordou de imediato com a antecipação da data do casamento. Diriam que era a urgência do amor, que não podiam estar um sem o outro.

- Por hoje estamos terminados! - sorriu Amândio Tito de mãos postas e olhos cravados na camisa de Bento Joaquim, aberta no peito...

Combinaram voltar daí a três dias, para a primeira prova - é coisa rápida, a menina se preferir, nem precisa vir!

Sairam porta fora às pressas, Ana Maria precisava de ar desesperadamente.

Amândio Valverde fechou a porta à sua saída. Encostou-se na ombreira e suspirou fundo.

Por detrás das cortinas da porta que dava para a casa de habitação, Maria Rita assistia, mais uma vez vencida. Aquela guerra sabia-o bem, já não era sua.

Rua abaixo, a reboque de Ana Maria, Bento Joaquim não conseguia parar de pensar no fato novo, na lã de seda azul marinho, nas mãos do alfaiate.

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Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
Encurtar distâncias

 

Ajeitou o colarinho da camisa, pela segunda vez em menos de dois minutos. Dois toques à campainha da porta. Dois toques breves. Tirou o lenço de cambraia da algibeira das calças, e limpou a testa, estava um calor dos diabos. O Outono não tardava, o sol de Verão, implacável, mas já doente, teimava em não se dar por vencido. Duas horas da tarde. Em ponto. Soavam agora no relógio da torre da Igreja Matriz. Ninguém de bons miolos saía à rua àquelas horas. O som dos tacões no chão de mosaicos, anunciou a presença de alguém. Suspirou de alívio. A porta, pesada e alta abriu-se sem ruído. Um rosto esculpido em indiferença, avançou : - Entre. A senhora espera-o. Aguardou que a mulher de mármore lhe desse passagem e entrou, pedindo licença Sentia os dedos dormentes da força com que apertava o lenço nas mãos. Não se tinha dado conta. O lenço parecia agora um pedaço do jornal de ontem amachucado. Às pressas, voltou a meter o lenço na algibeira, alisou as calças, assim, ao mesmo tempo que ajeitava a sua aparência, enxugava o suor frio que lhe alagava as palmas das mãos.

Caminhou alguns passos atrás do ser granítico à sua frente. O passo dela era decidido, intimidador. Ele balbuciava um andar constrangido. Todo o hall de entrada estava envolto por uma luz que tinha alguma coisa de sagrado. Os vitrais das janelas altas, conferiam à divisão ampla uma atmosfera de oração e retiro. Acalmou. Sentiu o bater do coração ceder, no seio da calma daquele lugar. De novo respirou fundo. Fechou os olhos só por um segundo, e depois ergueu o olhar e a coragem. Saíram para um corredor estreito, e pouco iluminado, ladeado de portas de ambos os lados. Era bastante audível o zumbido de ventoinhas, vozes, e segredos. Algumas das portas entreabriam-se à sua passagem, e quase se podiam sentir as carícias daqueles olhos sôfregos, por detrás da vida da casa grande.

O corredor desaguava numa sala pouco mobilada para o espaço disponível, impessoal, triste. - Aguarde aqui.

Era uma ordem, tinha a certeza. Num dos cantos da sala havia uma salamandra de ferro, grande, a acautelar os longos invernos, ali bem maiores que lá fora. Em frente uns sofás de napa bordeaux. Na parede contígua, um quadro de gosto duvidoso, com cores garridas, uma queda de água, e uma rapariga de outros tempos acocorada a apanhar flores.

Em frente à porta, para o jardim, umas janelas enormes que deixavam entrar sem pudores o calor e a luz do exterior. Quiçá o elo de ligação a um mundo que não deixara de existir apesar de tudo.

No centro 4 mesinhas de madeira de pinho, com quatro cadeiras cada uma. Alguns jogos de tabuleiro, revistas de bordados, livros fechados.

Não havia ninguém ali, além dele. Ouviu um estalido e virou-se. O aparelho de ar condicionado, fazia os possíveis por refrescar a sala.

Puxou uma cadeira para perto das vidraças, e deixou-se ficar ali, a olhar para o imenso jardim. O pavimento todo cimentado, as escadas de granito davam agora lugar a rampas, e todo o verde deslumbrante de antes, tinha sido substituído por canteiros de flores de outras paragens geometricamente pousados no cimento. O pombal, o galinheiro, o forno, a horta. Tudo traduzido de forma grosseira em cubículos de argamassa e reboco. Lavandaria, casa de máquinas, tudo imaculadamente branco e asséptico.

- Passa aí! Não queiras fumar tudo tu!

- Mas é só uma ponta! Não dá mais que duas passas a cada um.

- Então está na minha vez, certo? Esta gente com a mania das doenças...o avô deixou de fumar, o pai - a voz esganiçada, os gestos exagerados - reduziu para metade! - caíram no meio das ervas numa gargalhada franca e despreocupada.

Eram assim aqueles dias. Francos e despreocupados.

- Agora só mesmo a mãe, que a gaja não vai em conversas, ela fuma-os às escondidas dele, às vezes até fuma daqueles que fazem rir! Fica um pivete no terraço, que nem te digo!

É vê-la com olhos de peixe - dramatizava a conversa da mãe - "Queridoooo, o que queres para o jantarrrrr , diz lá que eu peço à Mariiaaaaa pra fazerrrrr"

Outra vez o riso livre, abafou a terra e o cimento frio.

- Xiça!!!! Já queimei a ponta dos dedos!! Vamos ficar com os dedos todos amarelos como eles, e ter cancro nos pulmões, e as doenças cardíacas todas, e um hálto mal cheiroso, e catarro matinal, e escarros verdes e nojentos, e dentes enferrujados.

- Não digas tantos disparates....- nunca gostou de falar no fim, podia até rir por fora, mas dentro de si, borboletas assustadas, batiam asas ao som de profecias - dá isso! Apagou a beata com força na terra húmida

Lá ao fundo, foram em tempos as cavalariças. Agora, no seu lugar estava uma pequena capela, de traço limpo e minimalista, reservada para a extrema função de velar as almas que partiam.

- Queres.....vamos até ao pombal?.... - perguntou num misto de vergonha e ansiedade. 

- Se o pai soubesse o uso que temos dado ao pombal, depois que ele se desfez dos bichos - tapou a boca com a mão para abafar o riso nervoso e corado. - Vamos - levantou-se de um pulo e puxou-o.

- Não brinques com coisas sérias! - um calafrio subiu-lhe pelas costas - punha-nos a todos no olho da rua, a mim a minha mãe, ao meu pai....há coisas que apenas se pensam, não se dizem nem a nós mesmos - depois tocou-lhe no queixo, já mais morno - sabes porque tens dois ouvidos e uma boca? Para ouvires o dobro do que falas! - apertou-lhe o nariz e fugiu.

- Não fujas! - Empurrou-o de novo para o chão - És mesmo velho tu! Isso são mesmo ditados de velhos....Eu vou à frente.

Deixou-o sentado nas ervas, os cotovelos apoiados, a olhá-la....o andar lascivo e inocente a um tempo, os pés descalços, os calções curtinhos a desafiar a vertigem do desejo dele.

Esperou. O coração aos saltos, quase a rebentar-lhe as têmporas, a boca seca, e as palmas das mãos, ontem como hoje, alagadas em suores frios.

Olhou em volta. A lida da casa grande soava distante, na cadência monótona de todos os dias. Limpo. De um pulo alcançou a porta do pombal, entrou, subiu o lance de escadas para o piso superior, e encontrou-a à sua espera. Nua. Não havia sombra de culpa naquele rosto perfeito, antes uma atitude provocadora de quem não sabe ainda o que é o medo. Os braços abertos - Anda, vem cá! - os seios pequenos iluminavam a tarde que caía em paz, e encandeavam-lhe a vontade. Como um animal, cego, ele entregava-se inteiro.

 Olhou o relógio. Duas e meia. Tardava. Dava-lhe tempo para pensar, e ele havia tempo que tinha deixado de pensar, pelo menos pensar nesses dias distantes.

Arrependia-se de não ter sido mais, de não ter sido maior. Mas, afinal, ele era era apenas do tamanho dos homens.

Se calhar não devia ter vindo. Não era bom falar dos mortos. Aquilo fora a vida de outro. Ele podia ver agora claramente todos os pontos da história, classificados, legendados, editados, como numa tela de cinema. Nada era seu, nem as memórias. Era mais que certo. Era uma redonda estupidez ter vindo. Ainda funcionava a voz do dono, pensou desconsolado.

Levantou-se devagar. Levantou a cadeira e voltou a pô-la no lugar. Não esperava mais, nem mais um minuto. Pousou a cadeira, olhou mais uma vez lá para fora, só mais esta última vez.

- Quem pensas tu que és, um bocado de merda! Desaparece daqui e assegura-te de que nunca mais apareces a mijar aqui à porta.

Foi pacífico. Foi-se dali. Ela ficou. Despediu-se num aceno camuflado pelas cortinas pesadas do quarto dos pais. Um aceno dissimulado e um sorriso. Uma promessa.

As promessas, soube-o sempre não foram feitas pra se cumprir, são feitas de esperas e perseguições quiméricas. Tinha as mãos trémulas, apertou-as uma na outra - acorda! - pensou alto. Arrumou a cadeira e dirigiu-se para a porta. A meio do caminho, a porta abriu-se, a mulher sem expressão apareceu, abriu as duas portadas, voltou um pouco atrás e entrou empurrando uma cadeira de rodas. - Está mesmo à sua frente Senhora.

A mulher sentada na cadeira, devia rondar os setenta anos, tinha um ar distinto e altivo, uma figura magra, e uma postura que mesmo naquela condição era firme e vincada. Tinha o cabelo prateado apanhado numa banana. Perfeito.

- Jorge...és tu? - Perguntou enquanto descerrava um sorriso ainda provocador. Ficou imóvel, perante a força daquela presença. A frescura daquela voz. - "és mesmo um velho tonto!"- Ainda ouvia o eco desses dias felizes.

- Sim - foi tudo o que conseguiu dizer.

- Ainda bem que vieste. Pena que não te posso ver. Chega-te aqui. Dá-me as tuas mãos.

Estendeu-lhe as mãos. Tocaram-se. Dois pares de mãos cheias da vida de outrora. Juntas, a encurtar distâncias.

- És mesmo tu Jorge...puxa uma cadeira, queres um cigarro?

 

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Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009
Texturas

 

  

O dia chegou destemido. Entrou em jorros de luz pelos vidros da janela sem se fazer anunciar, como uma visita inesperada.

Os meus olhos cegaram de tanto sol. Senti a noite escorregar pelos lençóis de linho até se diluir no rasto de pó dourado.

 

 

 

Uma profusão de claridade, encheu o ar de partículas brilhantes que te tocavam a pele, e te lambiam as costas nuas.

Foi nesse instante, nesse momento em que o toque se sublima, que duvidei da tua presença.

Serias tu corpo, e carne e sangue? Ou apenas restos de um qualquer cometa espalhados em mim...

 

 

Acho que sorri. Eras tu. Corpo, carne, sangue. Meu.

Cheia de certezas, e ainda ébria de tanta luz, levantei-me.

Senti os pés queimarem. O amor usado na noite, fervia em borbotões derramado pelo soalho.

Apanhei-o com cuidado, e antes que o dia o invejasse, guardei-o a sete chaves, num sítio que só eu sei.

 

 

 

 

Com as mãos em labaredas, enxotei a luz com as cortinas, e deitei-me outra vez.

A penumbra embalou a manhã, e eu abracei-te iluminada.

 

 

 

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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009
Porque sim

 

 

Ficava aqui a falar dela, horas a fio. Dela ou do que me lembro dela.

O tempo encarrega-se de retocar as memórias, editar as imagens que fazemos das coisas e das pessoas. Agora, assim, ao longe, tudo me parece mais belo. Notam-se os remendos aqui e ali, numa ou outra passagem, ou em algum momento que se revela na escuridão das noites mal dormidas. A verdade, é que já não há noites mal dormidas, agora que penso nisso, atinge-me em cheio, a seco até, atrevo-me a dizer, a certeza do sono profundo e conciliador que me vem acontecendo.

Horas a fio, se quiser. Fora parte isso da cor, e dos retoques, está tudo claro como o dia de hoje, aqui, e aqui - apontou para a cabeça com o dedo indicador, e depois, pausando as palavras, com a mão aberta tocou o peito.

Era cheia de vidas. Assim, mesmo, no plural! Vidas. Ela era muitas. Ria-se do nada, brandia gargalhadas alto e bom som, escoando nela toda a alegria da terra. - descansou as palavras num meio sorriso - Parece que estou a vê-la... ria alto, a boca perfeita abria-se sem pudores, e jogava a cabeça para trás num espicaçar constante. Os cabelos negros tomavam conta de toda a moldura da terra, e rasavam os sentidos de perfumes. - falava entre silêncios e cambiantes poéticos - Ria-se de tudo, e de todos... se era bonita? Era bonita sim. Não que fosse uma estampa, dessas das revistas e do cinema, não, nada disso. Tinha lá os seus trunfos, se calhar era um bocadito...original. É a palavra que melhor a define. Os olhos deveriam ser menos afastados, os lábios mais finos, a silhueta mais delgada... - soltou uma gargalhada - era o que ela carregava dentro dela, ou sei lá onde, era isso que era bonito. Era esse não sei o quê, que ela transportada num esconderijo só dela, que provocava aquela vertigem à sua passagem.

 Também há quem diga que era...única... não gosto desse epíteto, Única! - escarneceuEstaria a condenar as pedras do caminho a nunca mais serem pisadas daquela forma. Não era única, não tinha esse direito.

Eu avisei, horas a fio a desfiá-la, a tecê-la...sem me cansar - atirava um olhar atulhado de vigor de outras épocas - mas antes que perca o fio à meada, sim porque a minha boca e o meu cérebro, andam cada vez mais por estradas desavindas. E isto...isto é a foz e a nascente, o derradeiro lugar. Talvez, não ainda, mas ela é o meu derradeiro lugar.

Dizia eu que ela era muitas a um tempo só. Quando chorava, e se ela chorava Santo Deus.... - as mãos impacientavam-se de sal. Estancou. Mudo -... chorava a cântaros, e nos dias de chuva, aqueles dias cinzentos em que a tristeza é um estado de alma, nesses dias vidrados pelas janelas embaciadas, ela deixava de ser e escorria pelas paredes numa humidade de dar dó - uma sombra tombou em ameaça nos olhos fundos - era assim quando chovia, ou quando ouvia outros prantos que não o seu. O contágio era súbito e fatal.

Justiça lhe seja feita, tão depressa desaguava na dor, como renascia em fogos. Ela era também o fogo...como diz? Se ela era tudo? Tudo...mais que tudo.

Punha rubores onde pousava os olhos, e deixava rastos de labaredas por onde passava as mãos. Aquela mulher tinha o corpo em ferida aberta,  do lume que o queimava, ardia devagarinho em lugares onde o recato aconselhava esquecimento. Se soubessem - podia quase ver-se o caramelo aquecido pelo desejo, escorregar-lhe pelos cantos da boca, num torpor de lava - se ao menos pudessem ter visto, como ela se entregava, mansa como uma cadela de colo, submissa e terna como um carneiro na Páscoa,.. cavalgava-a por montes e vales, banhados os dois em albufeiras de suor. Cada galope no dorso dela, era um passo para o abismo...ela tinha o abismo nos olhos e na ponta dos dedos com que me tocava inteiro... - as mãos branqueavam, apertadas uma na outra, e os olhos, esses perdiam-se na luz sépia da lembrança.

Porquê? Tardava a pergunta...porquê...Cheguei a perguntar a mim próprio. Nunca tive uma resposta, melhor, nunca houve uma resposta.

O sitio dela era em mim, percebe? Agora pergunto eu, percebe? Em mim...mas não fui compreendido, os abraços desatavam-se, ela deslizava pelo meu amor, fugia-me... não havia saída. Podia existir sem ela, mas nunca fora dela. Entende?

Então lamento...não sei dizer de outra maneira.

Como? Estava a dormir. Ela estava a dormir. Parecia uma criança ainda com a alma transparente. Sentei-me na beira da cama, toquei-lhe o peito destemido, subi pelo colo, até ao pescoço de garça, de graça... - sorriu triste - detive-me por ali, senti a macieza daquela pele adamascada, apertei um pouco, só um pouco, mas firme.  Os seios por fim calaram, ainda altaneiros, no entanto ausentes.

Respirei fundo, inspirei as réstias de desafios e por fim, já com ela a correr-me nas veias, levantei-me e saí, em paz, completamente em paz.

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Terça-feira, 4 de Agosto de 2009
O Homem e o Cão

 

O sentido da vida confundia-se com as curvas da estrada. A vida ela própria, fundia-se no macadame em delírio com o sol a pino. Limpou a testa com a manga da camisa desbotada, e com a mão em pala sobre os olhos, levantou a cabeça em direcção ao astro rei, "hoje morre-nos a alma, queimada viva!" murmurou entre dentes enquanto baixava a cabeça e encetava nova etapa.

O cão seguia-o, preso por pouco mais de um metro de sisal grosso, atado à laia de coleira. Uma existência dedicada e servil posta à prova a cada anoitecer no meio das moitas.

O homem vivia de sombras, bebia penumbras com sofreguidão, e alimentava-se de cada noite que caia sobre aquelas paragens, mas era no cume do dia, naquele momento em que o sol é só orgasmos e sabedoria, que ganhava forças e altura.

Pela berma da estrada, mesmo na rebentação das ondas de calor, seguiam a par, o homem e o cão. O homem. Livre, os cabelos e vermelharem o passo, uma juba farta e sem grilhões, o corpo curado em fumeiros de vento, seco e esguio, os olhos cheios de caminhos por fazer, a boca rasa de silêncios, os braços carregados de vozes e rumores. O cão, pisava ao de leve, quase pairava, para não entrar de rompante no espaço fecundado pelo homem. Um olhar medroso, insignificante naquela berma de estrada esmagadora e cruel ao mesmo tempo.

O sol descrevia um arco, esfumando-se em pós de incenso.

As duas criaturas, lado a lado, imolavam o dia, envoltas em gazes de lusco-fusco, e como a luz, extiguiram-se em estrelas e sopros de assombro. 

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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2009
Um dia pouco vulgar

 

Destaque! Ahhh poizé!

 

 

Não sei como se processa esta escolha do Sapo,  (confesso que me acende a curiosidade), mas todos os anos, me tem sido dada esta honra, nem que seja por uma vez.

Cá "o je", claro está, fica babada, com tudo isto.

Ter a casa assim, cheia até à porta, dá-me vontade de desatar  a fazer bolos e a servir chás e refrescos pra toda a gente!

Sejam bem vindos, façam de conta que estão em casa, demorem-se o tempo que quiserem.

Obrigada pela visita e voltem sempre.

Sapo, mais uma vez, és um querido!

 

Edit: Pááá tive mesmo que fazer edit!!! Ainda não tinha percebido que a escolha de hoje, para os destaques do Sapo, esteve a cargo do Amigo João Palmela! Este homem estraga-me com mimos. Muito muito obrigada pelas emoções fortes amigo João!!!

 


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