Sábado, 20 de Outubro de 2007

Memórias de Vento

- Há quanto tempo não moras aqui?

-...não me lembro...mas volto sempre depois da chuva...

- Como uma formiga de asa?

- Sim!!! Isso mesmo, como uma formiga de asa, atrás de nesgas de sol.

- Antes eras diferente.

- Quando?

- Sei lá! Antes. Trazias as mãos e a boca carregadas de pólen , e por onde passavas nasciam flores amarelas, daquelas pequeninas que há no campo.

- Malmequeres do campo.

- Talvez.

- Não sei... só guardo o sabor do vento a uivar nas canas da ribeira. Trazia um torpor tão leve, que adormecia a sonhar com libelinhas de cores garridas em dias de sol.

- Ainda falas como quem diz poesia...pelo menos isso não perdeste.

- Nunca me compreendeste... são só palavras, percebes?

- Cortaram-nas.

- Desculpa!?

- As canas. As canas que ladeavam a ribeira. Vi lá os homens. Ceifaram todo o canavial.

- Que pena...o vento vai estranhar tanto!

- Disparate! O vento é um sopro, não é gente! quem te ouve falar....

- É um sopro, eu sei. Mas se não é gente, porque é que vive comigo na mesma casa, debaixo do mesmo tecto?

- Lá vens tu com as tuas coisas....

- Não sabes a resposta, não é? ... eu também não sei. às vezes enxoto-o com o silêncio, mas ele não se rende, volta com mais força ainda, e esconde-se dentro do meu peito.

- Desconcertas-me...

- Não sei porquê? Basta olhar para ti! Vê-se a léguas!

- Ora....o quê? Diz lá...

- O inverno.

- ....

- Sim. Está nos teus olhos. Olhas para mim com tal frieza, que me faz arrepender...

- Mentes! Não há frio, nem chuva, nem neve no meu olhar! , mas...arrepender de quê?

- De voltar  depois da chuva...

-...como as formigas... para te encostares ao sol e aquecer as asas.

- Não ... vinha para me aquecer em ti, e enxotar o vento.

- Não percas tempo. Também eu já não moro aqui. Tu sabes...

- Sim, eu sei. A força nunca foi o teu forte.

- E agora o que queres dizer com isso!!!

- Deixa lá...agora já não vale a pena...

- Sabes que detesto meias palavras! Explica-te!

- Está a arrefecer. Deve ser de ti. Vou-me embora. Adeus.

- Não! Espera! Fica mais um bocadinho...tens razão, tens sempre razão...mas o que queres,  sou fraco.

- E eu sou leve. Por isso vivo com o vento. Tenho dias de ser brisa, tenho dias de ser ventania.

- Mas fomos felizes, não fomos?

- Fomos?

- Acho que sim...eu era feliz..

- Vivias a fazer bonecos de neve com algodão doce...por isso eras feliz. Mas sabes? Para fazer bonecos de neve, é preciso neve...

- Isso nem parece teu! Tanta seriedade! Tu que dormias de olhos abertos numa cama de flores amarelas, que cresciam só para ti! Tu que derramavas  pólen, por onde passavas...

- Se dormia de olhos abertos, era só para não te perder de vista...e não eram flores, eram os teus olhos, e não era pólen, era amor...

- Não sei que te diga.

- Não digas nada...vou agora.

- Voltas?

- Não sei...

- Talvez depois da chuva?

-...como a formiga de asa.

 

Fotografia de João Palmela

 

sinto-me:
tags: , ,
Original Zumbido por meldevespas às 22:08
link do post | zumbir | favorito
|
7 comentários:
De A VER NAVIOS a 20 de Outubro de 2007 às 22:28
Isto é que é primar. Assim, consegue-se fazer bem.
Que belo texto, que bela foto.
Chamam-se parcerias, não é?
Segundo as novas linguagens, trata-se de unir cinergias para criar massa crítica.
Agora a sério. Gostei muito.
Bom fim de semana.

J. Lopes
De telmy a 21 de Outubro de 2007 às 18:18
adoro a tua escrita. adoro o sentimento que nela fazes passar.

beijihnos, *

ah, e quanto a timidez, de charme nao tem nada.. qd se tentam esconder alguns sentimenos xD *
De Lua de Sol a 22 de Outubro de 2007 às 15:22
Sabes que gosto sempre do jogo das metáforas, dos sentimentos humanos, da Natureza... Brincaste muito bem com tudo isso, uma verdadeira formiga de asas! Que nome tão delicioso...
Beijos

P. S. - Pois, lá seguimos o "conselho" do amigo João Palmela, não foi?! Eheh!
De Paulo a 22 de Outubro de 2007 às 17:04
Adoro este tipo de diálogos :)
Muito fixolas.
De astuto a 23 de Outubro de 2007 às 00:36
Continuas em grande!! Não me canso de te ler! Tudo é passageiro como uma formiga de asas.

Cumprimentos e boa semana.
De weee a 23 de Outubro de 2007 às 15:25
Oh God...
Maravilhoso o diálogo!

A despedida... ai...
De joão palmela a 23 de Outubro de 2007 às 17:05
Olá Amiga Carmo!
Desta vez parece que cheguei de véspera. Bonitas memorias de vento e com uma ruralidade invejável, com pormenores como a formiga de assa voltar depois da chuva, ou o vento estranhar a falta das canas, elas que são utilizadas precisamente como corta-vento, demonstram um profundo conhecimento das vivencias desse mesmo Mundo e que no fundo trazem o tal valor acrescentado aos seus Contos.
Mais uma Vez e sem qualquer favor lhe digo que Adorei.
Adeus, Beijinhos
João Palmela

zumbir

mais sobre mim

pesquisar

 

Abril 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

posts recentes

Constelaçoes

O Sorriso do Parvo

Porque sim

O Cheiro da Chuva

Estória para adormecer .....

Na lama

Memórias de Vento

A solo

Sem fim

Estória para adormecer......

arquivos

Abril 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Janeiro 2007

Julho 2006

tags

todas as tags

online

links

Bee Weather

Click for Evora, Portugal Forecast Get your own free Blogoversary button!
Photobucket


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

Vizzzzzzitas

Horazzzzzz

Tente adivinhar palavras relacionadas com a Matemática no Jogo da Forca:


Clique aqui


Custom T-Shirt Generator
blogs SAPO

subscrever feeds