Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

(IN)FUSÃO

 

A hora do chá era um ritual repetido dia após dia, no mesmo horário.

Sentavam-se frente a frente, os olhos baixos, postos nas chávenas de porcelana. Há muito tempo que não de olhavam.

Estava tudo dito entre as duas. Tudo havia já sido vasculhado, remexido. Não havia um centímetro da vida de uma, que a outra não tivesse já violado.

Chá preto, bem forte, às Segundas e Quintas, chá de Tília às Terças  e Sextas; de Camomila às Quartas, e de Rosas aos fins de semana. O mesmo calendário há mais de 50 anos, num recital de tilintares e cheiros, que tinham impregnado paredes e vestidos, pele e sentidos, de uma forma opaca e irreversivel.

Não sabiam ao certo como tinham ido ali parar.

Não eram nada uma à outra. Não havia laços de sangue a uni-las, aliás, não havia laços nenhuns a uni-las.

Cinco décadas, meio século de fios de seda que as mantinham presas naquela mesma casa, numa cohabitação de silêncios partilhados, em que cada vez mais, apenas suportavam a presença da outra, como um mantra que se repetia e ecoava no bater das horas.

Tinham sido amigas de infância, mas não tinham memórias desse tempo.

Caminhos de angustias e solidão, aos poucos tinham aproximado as duas, e como as fases de uma lua qualquer, esvaziaram almas anos a fio.

Fizeram companhia uma à outra, falaram de tudo, esgotaram segredos, trocaram dores, levaram mágoas da outra para a cama, e devolviam-nas pela manhã já apaziguadas.

A primeira enviuvara cedo. tão cedo que nem tivera tempo de parir um filho. O homem dela morrera na guerra. Mas já não se lembrava qual, nem quando, nem onde, nem sequer se fora na guerra. Morrera.

A outra não. A outra cansara o corpo de homens. Como alguém que debaixo de uma amoreira, colhe frutos até não poder mais, porque são doces e quentes, e depois já são doces e quentes demais, até não mais poder ver uma amora diante dos olhos...

Os anos correram, e quase sem se darem conta, a indiferença insinuou-se pelas frestas dos caixilhos de madeira velha das janelas, e, mais calada que um rato, instalou-se, e apossou-se do olhar delas.

Já  não se falavam, não se olhavam, também não se ouviam.

Viviam de pressentir a outra. Acordavam, dormiam e voltavam a acordar, na certeza da outra. uma certeza constante e vazia, cada vez mais impossivel de suportar.

A primeira pensava muitas vezes na libertação da morte. Finalmente o júbilo da solidão almejada, uma solidão real.

A outra não. A outra pensava nos biscoitos para o chá de amanhã. Biscoitos de manteiga, com raspas de limão e amendoas torradas, os preferidos da primeira.

A morte. A morte era pouca coisa. A morte era quase nada.

 

Imagem: deviantART

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Original Zumbido por meldevespas às 12:28
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5 comentários:
De Lua de Sol a 24 de Outubro de 2007 às 14:05
Muito bonito. A solidão de duas senhoras idosas e tão diferentes e tão iguais... Fundidas pela vida, que deu voltas tão diferentes para cada uma mas que as levou ao mesmo lugar, aos mesmos chás e biscoitos, embora com pensamentos distintos... Muito nostálgico. Será a velhice sempre tão nostálgica? quero acreditar que não... Que a nossa será diferente da que registamos nas nossas histórias.

Beijinhos
De João Cordeiro a 24 de Outubro de 2007 às 14:19
Querida amiga,
fico silenciosamente fascinado quando lei-o os teus textos.
Arrepiou-me a in-fusão. Magnificamente escrito e com uma invejavel imaginação.

Já pensaste em publicar?


Beijo sonhador
De João Cordeiro a 24 de Outubro de 2007 às 15:02
Peço desculpa se invado de novo este teu harmonioso cantinho de escrita.
Quero agradecer os teus comentários ao meu conto. Obrigada igualmente por gostares do que escrevo.
Real, ou irreal? Apenas digo que faz parte de um livro que escrevi com a alma em "ferida". É um livro (Ano Louco) em que é um misto de biografia e experiências de um homem que não viveu tudo aquilo que devia.

Quanto ao publicares... não esqueças que o sonho comanda a vida.
Eu também vi realizado um sonho... em ponto pequenino, mas não deixou de ser um sonho.

Um beijo... e já agora não me trates por você... sei que sou cota, mas um cota fixe ;-)))


De joão palmela a 24 de Outubro de 2007 às 16:00
Amiga Carmo!
mais um Lindo Conto, para não variar, você não sabe fazer doutra forma, e que tão bem caracteriza o saldo de duas vidas, deixando-nos a meditar sobre o que no fim sobra de uma infusão de 50 Anos de vida. Pouco, muito pouco, e no fundo toda uma Longa Vida.
Mais uma vez Gostei, porque aborda de forma simples mas directa e sem facilitismos, as coisas concretas da vida, mantendo-nos despertos para os problemas.
Adeus, Beijinhos,
João Palmela
PS
Fico Feliz por não ser só eu a achar que a publicação é possível
De weee a 26 de Outubro de 2007 às 11:45
Já tomei dois chás e agora deixaste-me com vontade de tomar outro!!!

estou contigo...

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