Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Dias de Sol, Tardes de Pó

-Já viste?! O vento faz nas nuvens o mesmo que faz na areia! Desenha as mesmas ondas!

 - Se calhar não sabe desenhar mais nada...

Caminhavam lado a lado, agora já longe da aldeia e dos olhos duros de pais, professores ou vizinhos.

Olhavam para o céu como se fosse seu, e, levantando nuvens de pó áspero,  arrastavam os pés na terra seca, com o descaso de quem tem o mundo à sua mercê.

Era uma tarde igual às outras de um dia que se repetia nos gestos de dois miúdos, guiados apenas pelo rodar do astro rei, e pelo apelo do vento na cara.

- A Pata Choca, já me avisou, "Mais uma falta e vou direitinha para a porta da tua casa!!" - ladainhava o Chico em falsete,  imitando os trejeitos da professora Joana - Tá-se a habilitar a uma partida jeitosa! Ai está, está!!! - rasgava em tom de ameaça.

- Tenho aqui a Radiante! - ripostou o Toninho, puxando ao mesmo tempo, de uma navalha de bolso de folha brilhante e cabo de massa encarnada; e de um sorriso que deixava a nú uma fileira de dentes amarelecidos pelo tabaco barato de enrolar - furamos-lhe os quatro pneus da carripana, sempre quero ver como é q'ela se amanha!

As gargalhadas espalhavam-se pelos campos vazios de gente, num eco de liberdade com os dias contados.

Lá continuaram a fazer caminhos de descoberta, por fora da vida que espreitava na berma funda do carreiro de terra batida.

- Quando for grande, vou ser aventureiro! - abria Toninho, para o amigo, os sonhos que tinha, escondido dos grandes, que lhe exigiam realidades e cadernos limpos - vou descobrir coisas que inda ninguém descobriu! Terras, pedras, lugares! - abrandou o passo, embalado pela antevisão de cheiros distantes e terras pintadas em telas brancas - E tu? Já pensaste o que queres fazer da tua vida? - perguntou, voltando ao pó da estrada, enquanto enrolava desajeitadamente um cigarro com um bocado de papel pardo que trouxera à sucapa da mercearia do Sr. Viriato.

- A minha mãe, tá sempre a dizer, que por este andar vou ser um grande desgraçado!... - o Chico, pela primeira vez, nessa tarde, escureceu o olhar com a pouca fé da mãe, e aqueceu as mãos no desejo secreto de um dia ser alguém. Um homem, não um desgraçado...que um desgraçado é só um homem pela metade, e o Chico ía ser um homem inteiro!

O silêncio caiu sobre os dois como um castigo, e só ficou o canto dos pássaros por cima deles, e o restolhar das ervas dentro dos peitos pequenos de idade e gigantes de sonhos vãos.

O dia correu com pressa de acabar, tal era a sede de sentir o sol nas veias. Pularam cercas, subiram árvores, derrubaram pássaros com as fisgas de elásticos largos, comeram macãs e uvas surripiadas em pomares e vinhas que se atravessaram na sua correria, e regressaram a casa, por fim, como todos os dias, cansados, esgotados por tanta liberdade, vivida ao limite.

O Chico e o Toninho, haviam de lembrar estas tardes de fuga pelos anos dentro.

A vida encarregou-se de esvaziar sonhos como balões velhos, e os sonhos encarregaram-se de calar a liberdade num canto escuro, e o silêncio amordaçou para sempre sorrisos abertos, corações cheios de tudo e mãos cheias de nada.

 

Fofografia de (Amazing) Weee  

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Original Zumbido por meldevespas às 17:35
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5 comentários:
De weee a 29 de Outubro de 2007 às 17:46
Tivesse eu lido este texto depois de almoço e a minha produtividade teria aumentado!

Esse amazing mais parece de ilusionista... :p
De Sandra a 29 de Outubro de 2007 às 18:13
Que saudades da infância, dos sonhos gigantes, das correrias, dos "o que é que vais ser quando fores grande?"...
De Lua de Sol a 30 de Outubro de 2007 às 00:19
Essa infância cheira a campo, a liberdade, a sonho e a um destino que em parte parece alinhavado... Não sei porquê mas fez-me lembrar o Tom Sawyer!
Gostei muito, para não variar:)

Beijinhos
De A. Caeiro a 31 de Outubro de 2007 às 13:55
Obrigado pela visita ao blog -Monsaraz-
Retribuo e gostei!
De João Cordeiro a 31 de Outubro de 2007 às 14:43
Lindissímo. Adorei o texto.
"A vida encarregou-se de esvaziar sonhos como balões velhos..."

Também abordo o tema num livro que está para publicação. Este tem o nome de Asas de Borboleta.

"... Nos primórdios da sua estadia em Lisboa, não era raro vê-la submergir nas ruas do Bairro Alto, meter conversa com os estrangeiros a quem calorosamente surripiava um par de notas a troco de calor humano.
Talvez o fizesse por prazer ou talvez fosse uma forma de compensar o amor que nunca encontrara, a paixão que tardava.
Gostava da relação sem compromisso. Desde cedo percebera que não tinha um lar dito “normal”.
Tinha cerca de dez anos quando pela primeira vez soube o que era estar menstruada.
Assustada recorreu à mãe que enigmaticamente lhe explicara que passara a ser uma mulher e que havia coisas que deveria aprender sobre homens e mulheres.
Uma semana depois de acordar com o sangue a escorrer-lhe pelas pernas, estranhou quando o pai a chamou à sala.
As crianças nunca entravam lá quando os adultos se reuniam depois do jantar. Iam dormir, não faziam perguntas e pronto… quanto muito, dava para ouvirem os gemidos, as respirações alteradas, riam-se no silêncio do quarto e perguntavam umas às outras; “o que estariam a fazer os crescidos?”
Nesse dia, o tio sentou-a no colo e cada um dos presentes dedicou-lhe uma atenção especial. Sem compreender porquê, explicaram-lhe os significados das alterações que o seu corpo tinha sofrido e que deveria preparar-se para descobrir um prazer diferente daquele que sentia quando brincava com as bonecas, ouvia música ou lia um livro de banda desenhada.
Depois disso, tudo tinha acontecido de forma surrealista.
Avaliaram o seu corpo como um pedaço de carne pendurado no talho, tocaram-lhe o peito pequeno e roliço e esfregaram os dedos grossos no seu sexo até ficar empolado.
Só pareceram satisfeitos quando a ouviram soltar um pequeno gemido.
Ao contrário do que pensaram, não era de prazer mas de dor… uma dor que ia além do físico que atingiu o clímax quando o tio a penetrou lentamente, diante dos risos e olhares irónicos de cada um deles. Sentira vergonha dela, do seu corpo e de pertencer àquela família.
Com o tempo habituara-se àqueles rituais e aprendera a ter e dar prazer, mas perdera completamente a esperança de descobrir um amor como o dos livros que lia sofregamente e dos filmes românticos que lhe enchiam a inócua mente de sonhos.
Cresceu e pronto!
Viciou-se em prazeres carnais, apurou a imagem e passou a viver uma vida dupla e excitante, onde os valores morais não existiam.
A vida que levava na aldeia nunca a tinha seduzido. Sentia que poderia ir mais além.
Odiava o cheiro das cabras e o branco leite generoso que tinha de ordenhar e abominava igualmente o ancinho com que “enterrava” com abatidos gestos inofensivos as couves e alfaces sob um sol abrasador.
Todas as noites no seu humilde leito de ferro forjado, sonhava, com a quimera que lhe agitava a alma..."

Beijo sonhador

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