Domingo, 11 de Novembro de 2007

O S. Martinho e os "bêbados"

Hoje vou falar um bocadinho da minha terra.

Não propriamente para exaltar as suas conhecidas belezas, mas porque me lembrei de dias que ficaram pra trás, e que nestas datas nos trazem alguma  saudável nostalgia.

Hoje é dia de S. Martinho, é dia de, conforme manda a proverbial tradição "ir à adega e provar o vinho". As uvas colhidas em Setembro, maceraram o suficiente para nesta altura se poder provar um ainda áspero mas já temperamental vinho, mais o branco, que matura mais rapidamente , mas para os corajosos, também o tinto.

No entanto, é razão para se dizer que também para o Santinho que elogia o Outono e a riqueza dos campos, a tradição já não  é o que era. A minha antiga e vistosa vila cheia de pequenas adegas com vinificação própria, cheia de cantares ao fim da tarde, quando o vinho novo já gozava nas tascas, deu agora lugar a uma bonita mas envergonhada cidade, onde o esforço da modernidade tem aos poucos decepado anos e anos de estórias  que já só podemos ver nas memórias faladas de alguns poucos.

Ainda me lembro bem, do cheiro das adegas...

Apesar do acesso a estes círculos não estar vedado às mulheres, não era hábito ver alguma por lá.

Mas no dia de provar o vinho, lá na escola, enchíamos o peito, grupos de rapazes e raparigas e aventurávamo-nos de taberna em taberna, às vezes, como era o meu caso, só pra entrar e molhar os lábios no azedo do liquido.

Havia cacholeira assada, e castanhas, e batata doce, e nacos de pão e queijo de ovelha curado e a saber a cardos.  Havia tilintar de copos de vidro, e homens rudes de mãos grossas e voz moura e quente.

Cheirava ainda a mosto, e a humidade, um daqueles cheiros que chega pra dar vida a um morto. Os balcões eram negros, de madeiras puídas e velhas que estavam gastas de tanto beber. A música de odores,  paladares e sons entrava-nos mal passávamos a porta da entrada e permanecia muito pra lá da despedida.

Havia o Julião, o Cagão , o Zé de Sousa, o Chico Brites, e tantas outras tabernas que se enchiam de cantares e rimas de improviso neste meado de Novembro.

Nas portas onde antes moravam os generosos jorros de vinho novo, estão agora lojas de artigos orientais, e outras quinquilharias que vão apagando do mapa de Reguengos todos os vestígios de antes.

Nem sei se alguma taberna digna desse nome existe ainda nas ruas da cidade. Existem Adegas /Restaurantes, aos montes, rústicos qb , decorados de artefactos alentejanos, com ementas cheias de porco preto e migas e açordas, porque é fino, mas não têm, não podem ter a aureola de autenticidade entranhada nelas.

Há poucos dias, o meu filho, veio perguntar-me se eu conhecia lendas Alentejanas. Eu lá lhe falei de umas quantas que ouvia contar desde sempre, umas que estão nos livros, outras que só estão nas velhas e nas ruas.

Hoje, neste S. Martinho, estou aqui sentada, a escrever sobre a vivência desta data aqui, e vieram-me à lembrança alguns bêbedos, que já não estão entre nós, e hoje até parecem lendas, o Papa Cachola, homem rude e grosseiro, que em novo manteve uma paixão assolapada por uma jovem, que a dias de consumar o casamento renunciou ao amor terreno e se entregou nos braços de Deus, entrando para um convento, o Papa Cachola, lá foi afogando as mágoas com muito vinho ao longo de toda a sua vida, até que um dia, decidiu fazer as pazes com O lá de Cima, e resolveu ir a pé a Fátima com um grupo de peregrinos cá da terra, por ocasião do 13 de Maio. Rezam os que assistiram, que o bom do homem, quase no termo da caminhada, quis pôr também termo à sua vida, saltando de uma ponte. Mas ao ver que o rio estava seco, e que lá abaixo o que havia era um monte de pedras e pedregulhos, resolveu que seria demasiado doloroso, e lá prosseguiu até ao fim da jornada, sempre acompanhado pelo seu fiel companheiro de todas as lutas: o tinto.

Outro era o Salinhas, se não me engano era pintor de profissão, e versejador de todos os dias e copos. Apesar das rimas pouco felizes, era um homem sempre bem disposto, fruto especialmente das suas "rezas" em todas as muitas "capelinhas" da vila.

Conta-se que uma noite em plena praça do Papança , gritava de peito aberto: "Esta noite, nã me dêto !!" no mesmo instante aparece uma patrulha da GNR local, ao que ele continua dizendo "mesm'agora me vô dêtari !"

Bem, agora pra afogar a nostalgia destas lembranças, vou comer castanhas assadas, e beber um copito de tinto.

Boas Noites

 

Imagem: Fotos Sapo

sinto-me:
música: Fui colher uma româ (tradicional)
Original Zumbido por meldevespas às 20:04
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16 comentários:
De weee a 11 de Novembro de 2007 às 21:18
Que bonita história para ler depois de devorar umas quantas castanhas :)

Beijinho grande
De canochinha a 12 de Novembro de 2007 às 10:26
Pensar nas velhas tradições traz normalmente alguma nostalgia, mais que não seja por percebermos que muito dificilmente as coisas voltarão ao que eram. Gostei da história do Papa Cacholas, coitado. Já agora, que alcunha engraçada. Na aldeia dos meus pais, lá para o Baixo Alentejo, quase toda a gente tem uma alcunha :)
De Paulo a 12 de Novembro de 2007 às 12:13
"mesm'agora me vô dêtari" LOL

Devia ser giro noutros tempos... agora tudo mudou não é?

Delicioso de ler este post :)
De Leonor The Carpz a 12 de Novembro de 2007 às 18:38
wawawawawa :D
Eu lembro-me desse mito xD
Mem'agora me vô detári *
De A VER NAVIOS a 13 de Novembro de 2007 às 10:44
Há uns tempos estive de visita à sua terra, pernoitando em Monsaraz.
Num dos dias fui almoçar a Mourão, a uma tasquinha que, se não me engano, se chama "Adega Velha".
Encontrei lá toda a tipicidade e ambiente, que tão bem retrata no seu post.
Está muito bem escrito. Parabéns.
J. Lopes
De meldevespas a 13 de Novembro de 2007 às 11:32
Obrigada, na próxima visita, não deixe de me procurar, terei muito gosto em o conhecer.
Conheço bem a Adega Velha. Come-se lá muito bem (apesar de muito caro....) e Mourão é também uma bela vila, claro que não tão bonita como o meu Reguengos!!!!! :))
De A VER NAVIOS a 13 de Novembro de 2007 às 11:40
Sem a mínima dúvida. Claro que não se compara uma terra a outra.
Em Reguengos também comi num restaurante (carote), mas onde comi bem, chamava-se "Taberna Al-Andaluz", na rua principal, muito perto do centro.
Gostei muito de toda a zona. Embora ribatejano, tenho uma costela alentejana.
Quero voltar. Parabéns pela sua terra e por toda um,a região de eleição.
De R.I.P.per a 14 de Novembro de 2007 às 15:07
Sempre achei as tradiçoes parvas,ms sem elas um pais n tem identidade...ms acabem com os ranchos a ver s eu n importo :|
De artesaoocioso a 23 de Novembro de 2007 às 00:09
Há tradições boas (o S. Martinho e outras) e tradições más (os toiros de morte quer persistem).
Ambas fazem parte da nossa identidade.
À velocidade que somos obrigados a viver, muitas desaparecem, por isso o seu belo texto e o clima que recria é reconfortante.
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Há tradições boas (o S. Martinho e outras) e tradições más (os toiros de morte quer persistem). <BR>Ambas fazem parte da nossa identidade. <BR>À velocidade que somos obrigados a viver, muitas desaparecem, por isso o seu belo texto e o clima que recria é reconfortante. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Parabens</A> e cumprimentos.
De Lala a 11 de Novembro de 2010 às 12:56
É... a tradição foi-se... os velhos já não podem fazer com a mesma pujança de antigamente e os novos... oh esses querem é noites e bebidas importadas... sabem lá o que é bom (e em muitas situações, contra mim falo!)! O S. Martinho é uma tradição lindíssima, já para não dizer saborosa e eu adoro celebrá-lo... No entanto todos se desculpam com o tão dito e tão gasto "os tempos são outros!". o que é uma pena...!
beijinhos*
De meldevespas a 11 de Novembro de 2010 às 16:54
Se calhar até é mesmo isso...os tempos são outros, e nem quero dizes que sejam piores, apenas acho que havia mais alegria e tudo era mais genuino. just that.
Beijo grande
De João a 11 de Novembro de 2010 às 21:39
Eu era gajo para ir nessas excursões pelas capelinhas... com sorte, tornava-me numa dessas personagens.
De meldevespas a 12 de Novembro de 2010 às 09:37
quer-me parecer que sim senhor eras gaijo pra isso ;D, mas olha que era uma alegria!
De Brown Eyes a 15 de Novembro de 2010 às 23:19
Reguengos quando for aí para baixo apito-te, ok? Não conheço. Histórias, não posso conta-las porque a minha vida começou noutro país, tinha dez anitos quando vim e pouco anos estive a viver na vila. Aqui já vivo há muitos mas na cidade as pessoas não têm essa vivência. No campo sim, há histórias fantásticas. Beijinhos
De meldevespas a 16 de Novembro de 2010 às 10:09
Vem quando quiseres. Reguengos é uma terra que está sempre de braços abertos à espera dos visitantes, e eu também :D, beijinhos

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