Quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Vulgar ( o termo)

 

 

6

 

A luz da vingança espalhou-se longe, alto, e dentro, até os olhos de Catarina não verem nada mais que o cumprimento urgente daquela promessa pagã.

Alindou o luto com um xaile puído de lã grossa, e passeou-se pelas ruas da vila arrastando os passos descalços e arrastando olhos e línguas no seu caminhar.

Chamaram-lhe louca, tresloucada, demente...mas no fundo de cada ser, bem nos alicerces das certezas, o medo corrompia como uma térmita, e a sombra ia-se derramando sobre as casas.

A caminhada diária enegrecia os dias, o xaile arrefecia os corações, e as portas fechavam-se com um bater aflito à sua passagem.

Catarina sorria por dentro, ela era tão grande quanto o medo que insuflava nos outros. Não! Ela era maior!

Trincos e ferrolhos não lhe chegavam, ela sonhava atear aquele medo com arrependimentos antigos, ela ansiava por joelhos no chão implorando perdões que jamais daria.

Durante semanas a fio, recolheu-se no campo aberto que era a sua casa, como um gato que finge dormir, quando se prepara para atacar a presa.

Suspiros de alivio, varreram da vila restos de sombras nas ombreiras das portas, e as janelas acolheram de novo os raios de sol.

 

7

No campo colado à seara de trigo, nas margens da ribeira do Lucefecit , não havia mais luz que a que a sombra dá.

Catarina rangia os dentes enquanto tingia de encarnado a correnteza fraca que fugia assustada.

A navalha ferrugenta, que encontrara debaixo do colchão de palha, no cabanejo onde o pai um dia dormira, aliava-se a ela. Fria e de fio arrancado às pedras, rasgava a pele áspera do animal e embaciava-se dos hálitos quentes de dentro deles.

 Esperou o sol desaparecer. Entulhou uma saca de estopa rija com o ganho da sua labuta, e sem descuidar o xaile negro como ela, rumou à vila.

As casas estavam apaziguadas pelo fim de mais um dia de trabalho, quando o ruído cavado, dos passos arrojados, repassou paredes e entupiu de temor as almas desprevenidas.

Lembrou-se das caras dos homens que a tinham desfeiteado no meio de estevas e alecrim, como se estivesse a folhear um álbum de fotografias de família . Sabia-lhes os números das portas, melhor do que lhes sabia as feições, e, num porta a porta sem pressas, foi depositando em cada soleira bocados de vingança ainda servida quente.

O amanhecer na vila, foi de trevas e por todo o lado os olhos estalavam de indignação, e as gargantas latejavam de orações.

Os homens que caçavam Catarina, espreitando-a no meio das moitas, calavam a sua culpa. Aquilo era como um sinal de nascença, daqueles que não se podem ocultar do asco dos outros.

Coelhas prenhas esventradas, tingiam de tintas berrantes, os mármores dos portados. Amontoados de peles baças da cor da morte atestavam um a um os artífices do vazio de Catarina.

8

 

Nunca ninguém a viu. Não havia vivalma que pudesse afirmar que os feitos tinham sido arte sua.

Os homens não mais voltaram aos campos. Catarina não mais voltou à vila.

Diluiu-se nas águas da ribeira, na lama das chuvas, no canto dos pássaros. 

O mundo aos poucos convalesceu e as imagens daquela manhã vermelha de Janeiro, foram caindo no regaço das avós que contavam estórias antigas nas noites de Inverno passadas em frente do lume de chão.

Ás vezes uma brisa gélida encana pelas ruelas, e não há quem não procure à sua passagem a presença antiga de um xaile negro a arrastar-se nas calçadas.

Catarina paira no ar, como o cheiro a café acabado de moer na mercearia do largo. Gosta de ouvir sussurrar o seu nome, baixinho, não vá acordar ventanias.

A casa das velhas, onde viveu algemada por regras durante alguns dos seus verdes anos, continua lá, inteira, naquela mesma esquina de sempre, em frente à igreja.

Tem as paredes cheias de musgos e fungos da humidade que emana, o sol, não a aquece, e à sua volta há noite e sombras em pleno Agosto.

" Nas manhãs depois da chuva, há peixes a sair por debaixo da porta da frente, e nas tardes de verão, durante a hora da sesta, diz quem já viu, há dezenas de coelhas paridas a escavar tocas no quintal dos fundos." - conta a avó Morgada de olhos esbugalhados.

 

Imagem DevianTart

 

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Original Zumbido por meldevespas às 15:28
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5 comentários:
De João Cordeiro a 14 de Novembro de 2007 às 17:26
Soberbo.

Adorei...



Beijinho sonhador
De Lua de Sol a 14 de Novembro de 2007 às 17:47
Leva-nos bem alto no nosso imaginário...

O final está muito bom!

Gostei. E para onde foi a Catarina? Fiquei com curiosidade...

Beijocas

P. S. - Deixei-te umas prendinhas, não sei se viste...
De meldevespas a 14 de Novembro de 2007 às 18:10
Catarina......
"Catarina não mais voltou à vila.
Diluiu-se nas águas da ribeira, na lama das chuvas, no canto dos pássaros."

"Catarina paira no ar, como o cheiro a café acabado de moer na mercearia do largo. Gosta de ouvir sussurrar o seu nome, baixinho, não vá acordar ventanias."
o resto fará a tua imaginação.

E siiiiimmmm vi as prendinhas, já lá estive a babar babar babar. Brevemente as vou aqui documentar.
Beijinhos



De Andi a 16 de Novembro de 2007 às 22:58
Adorei esta pequena história, dividida assim aos poucos... Mas soube pouco,venham mais! :P Gostei bastante da maneira como foi escrita, os pequenos pormenores incomuns, diferentes. Gostei sim senhor!
Beijinhos. Bom fim-de-semana.
De R.I.P.per a 17 de Novembro de 2007 às 23:31
Tu tens uma capacidade descritiva...WOOOOOOOW. :O

;)


WOOOOOOOOOOOW.

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