Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

Antes de o dia acordar

Acordei cedo.

Ainda antes de o dia acordar.

Não havia sombra de sol ou claridade lá fora. Só um rasto de noite e uns laivos roxos na linha do olhar.

Sentei-me na cama à espera de ver o dia voltar a si. Mas estava demorado. As gostas de água nos vidros denunciavam um amanhecer difícil .

Bocejei. Acendi a luz do candeeiro, vi as horas e deixei-me ficar ali sentada na ponta da cama, os pés no soalho frio, os olhos na madrugada baça, e a cabeça no sono, ainda no sono.

Ouvi um ruído . Era sinal, que aos poucos todo o meu corpo ia despertando da letargia da noite.

Era o vento nas laranjeiras do quintal. As laranjas já estão maduras, se insistir, vai acabar por derrubá-las, e depois vão saber a chão, e já ninguém as vai querer comer....

Esfreguei os olhos com força.

Lá fora a noite não se resignava, e trocava humores com um sol sem vontade para disputas.

Enfiei uns chinelos de lã e aventurei-me até à ombreira da janela de sacada... Olhei o exterior em tom de desafio, e o vento lembrou-me as laranjas a cair da árvore e a rebentar em estrondos de sumo no chão de lajes do quintal.

Chovia menos agora, e a madrugada, envergonhada cedia finalmente às suplicas de cama que o sol lhe lançava.

Apanhei o cabelo sem pressas. Na cozinha, os motores cansados dos electrodomésticos debatiam-se na monotonia dos sons. A chuva parecia ter parado de vez, e era agora só um pingar das beiras dos telhados.

O café acabado de fazer encheu o ar de uma fragrância de especiarias quentes. Inspirei aquele odor até mais não poder e bebi com demora  o liquido que me embaciava o olhar e me aclarava o dia.

Lá fora, como num jogo de crianças, estava tudo montado para mais um acto. Tudo no mais perfeito balanço, um jogo de compatibilidades e cedências que desde o berço do mundo regia os vazios dos homens.

Liguei a televisão. as notícias eram como sempre deprimentes, ou não seriam notícias, mas sim eventos. Desliguei, e deixei-me ficar ali, enterrada no sofá, longe da perfeição do mecanismo de bons dias e amanheceres risonhos que vinham pela janela da salinha.

Nunca tinha sentido vontade de fazer parte da engrenagem. Via-me, como sempre me via, uma peça solta que sobrara na hora da montagem.

Apetecia-me voltar para a cama.

Olhei outra vez de soslaio. Vi duas vizinhas a falar na esquina da frente, sorriam em gestos largos, e havia crianças a comer bolos agarradas às suas pernas. 

Respirei fundo e fechei os olhos. Só por uns breves segundos pude pensar em sair,  levantar-me dali, romper o casulo e atrever-me a bater as asas, a não ter medo de mostrar as cores de mim.

Foi só um instante, um abrir e fechar de olhos, uma amarra cortada.

Ao fim do cais, apenas um grito breve e...voltar atrás, pousar ao de leve, como se nunca tivesse sequer voado.

Levantei-me do sofá. Deixei os chinelos de lã esquecidos  no chão, e pé ante pé, tomando consciência do frio que me subia pela planta do corpo, voltei à cama.

Desliguei a luz do candeeiro da mesinha de cabeceira, deitei-me no mesmo compasso com que pautava as minhas horas, e, cansada de voar, adormeci sentada no cais.

 

 Fotografia de João Palmela

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Original Zumbido por meldevespas às 22:12
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11 comentários:
De joão palmela a 20 de Novembro de 2007 às 10:39
Olá Amiga Carmo!
Afinal valeu a pena voltar!
Para me certificar, li por três vezes este magnifico Conto e apesar de eu ser suspeito, posso afirmar que Gostei de verdade. Está tão Poético, que enternece.
Ainda encontrei uma passagem que adorei e com a qual me identifico em pleno, a de "ser uma peça solta que sobrara na hora da montagem", pois cada vez me sinto mais afastado da engrenagem.
Pouco mais posso dizer, sem que transpareça a minha admiração pela sua obra, o que julgo não trazer mal algum, mas os comentários deverão ter a máxima independência para se aproximarem da realidade e se tornarem por isso justos.
Adeus beijinhos,
João Palmela
De meldevespas a 20 de Novembro de 2007 às 10:58
Fico muito feliz que tenha gostado, e muito agradecida pelo generoso comentário que aqui deixou.
Beijinho
De João Cordeiro a 20 de Novembro de 2007 às 14:06
Querida Carmo,
primeiro o meu obrigado pelo comentário que me deixaste no meu blog.
Fico feliz por teres gostado. Já valeu a pena escrevê-lo.
De facto é uma "fraquesa" minha, o escrever com a alma daí o facto de dizeres que as palavras são sentidas. Eu sou mesmo assim.
Aquilo que les-te é parte do último capítulo de um romance que terminei este fim de semana.
Obrigado de novo pelo incentivo.
Quanto aos Pink Floyd, sem dúvida é um gosto mútuo.

Agora este teu texto.
Nostálgico e de uma beleza ténue, como que envolto por um véu.
Muito bem escrito é identifiquei-me um pouco com ele, pois também eu nunca me senti uma peça da engrenagem. Penso que também eu fui e tenho sido esquecido na enorme sala de montagem deste maqueavélico mundo de falsidade e hipocrisia.

Um grande beijo sonhador e floydiano
JC
De João Cordeiro a 20 de Novembro de 2007 às 14:08
Desculpa o erro "FRAQUEZA" ;-))))
De weee a 20 de Novembro de 2007 às 21:20
Pois olha eu aqui, de volta! :D

E que belo regresso este... A-D-O-R-E-I!!!!!!
De Andi a 20 de Novembro de 2007 às 22:37
Se dizer que adorei este conto vou-me tornar repetitiva e monótona, mas não é nada que eu já não seja... :P Portanto, adorei este conto. Soube-me a Inverno, aquele frio... A recusa em se libertar do casulo foi uma das partes que mais gostei.
Beijinhos.
De Sandra Xanoquita a 21 de Novembro de 2007 às 10:16
"(...) as laranjas a cair da árvore e a rebentar em estrondos de sumo no chão (...)"
Onde vais buscar estas imagens magníficas?????
És uma maravilha, tu (nada que eu não soubesse já...), fico tão orgulhosa de ser tua amiga...

Bêjus

De meldevespas a 21 de Novembro de 2007 às 10:26
Olha se eu não tivesse a tal toalhinha turca sempre aqui à mão hein???
Com uns elogios destes logo de madrugada! ;)))))
Obrigada.
Beijos grandes pra ti meu amoriiiii
De Kel a 21 de Novembro de 2007 às 18:21
este teu texto faz-me lembrar o dia em que fui para o alentejo para a apanha da vinha ( ok nao tem nada a ver eu sei) mas o caminho para lá e para cá. via e olhava para as árvores, as vinhas e etc. e não só, poder respirar o ar puro sabe tão bem :D
De CARPE DIEM a 22 de Novembro de 2007 às 05:28
Nesta minha vigilia, são quase 5.30 da manhã, li este teu maginifico texto. Usas muito bem as palavras, senti-me parte deste ritual e agora vou tambem deitar-me e fechar mais um pouco os olhos...
De Lua de Sol a 25 de Novembro de 2007 às 15:40
O que gosto em ti é como escreves sobre actos tão singelos, tão simples e lhes conferes magia, beleza, poesia. Um acordar no Inverno, enfiar uns chinelos de lãs, vaguear pela casa, alimentar um pouco o corpo e a mente, perder-se nas vistas e regressar à cama resultou em algo muito especial. Gostei muito, para não variar...

Beijocas

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