Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

À Hora Marcada

Cantarolava baixinho enquanto as suas mãos dobravam com astúcia os lençóis de linho bordados à mão.

- Estes têm que ser tratados com se fossem gente! Levaram-me anos de vida a bordá-los, custaram-me dores nas costas, horas de sono, dedos picados....mas valeu a pena! Oh meu Deus, é um enlevo só olhar pra eles! Tão delicados! Tenho tanto orgulho de os ter bordado, que é até pecado!

A cançoneta de amor, continuava a soar, em solavancos, entrecortada pelos trejeitos de admiração, de cada vez que descobria uma nova peça.

Uma camisa de dormir em tons de pérola com ajurs de rendas aplicados à altura do peito, era agora o objecto da sua atenção.

- Esta camisola!!! Que perfeição! É de organdi tão fino, que parece que não existe, e estas rendas....a linha é de uma tal finura que os olhos queimavam e esgotavam-se em lágrimas de esforço! - via-se ao espelho de corpo inteiro do guarda-fatos de madeira envernizado. A camisa de dormir em frente dela, colada ao corpo como uma outra pele, uma mão aberta à altura do ventre, a outra segurava o cabide pelos ombros. Movia-se numa cadência de  matiné domingueira, ainda debitando o bolero de amores cruéis . Sorria, os olhos semicerrados numa indolência permitida pela música.

Ajoelhou-se aos pés da cama, estendeu a camisa de dormir, alisou-a com a mão, ao de leve, quase sem lhe tocar, e com uma precisão geométrica, dobrou-a com cautela e depositou-a na caixa de cartão. Os anjinhos alados, roliços e rosados na tampa da caixa, dedilhavam pequenas harpas, que acompanhavam a voz dela. Deu um laço com as fitas de seda largas cor de uva, meticulosamente e sentiu-se deveras feliz com o resultado.

Todo o enxoval era primoroso, por cima da cama digladiavam-se toalhas de rosto, e panos de chá, robbes de chambre e lençóis monogramados . Bordados delicados, panos de uma leveza que não podia ser deste mundo, cores etéreas , texturas adamascadas, todo um rol de toques de uma sensualidade tantas vezes ensaiada ali naquela cama.

Quando se levantou, pegando na caixa dos anjinhos, como quem pega  num bebé recem nascido, sentiu cair alguma coisa aos seus pés. Pousou de novo a caixa, e apanhou um envelope amarelecido do chão, havia ali muitos mais, tombados às dúzias no chão de tacos impecavelmente encerados. O cordel de sisal , antes louro, agora sépia pela acção dos anos, desatara-se e libertara dezenas de  cartões pelo soalho.

Apanhou a medo o pequeno envelope manchado aqui e ali por nódoas de humidade do fundo do baú.

Abriu-o e retirou devagar o cartão em papel de boa qualidade. As letras conservavam a cor, um dourado velho ainda brilhante e chamativo. Uma primeira lágrima caiu em cima daquelas letras, daqueles nomes fechados a sete chaves na arca de papelão vermelho e ouro. O liquido salgado caiu e alastrou como uma erva ruim. Em pouco tempo, o papel estava ensopado, e os nomes impressos nele brilhavam com redobrada força.

Era o nome dela, e o nome dele. Quando ainda havia ela e ele...

Era o nome dela, e o nome dele. Um convite.  O anunciar ao mundo de um amor finalmente consumado.

Empurrou o cartão molhado para dentro do envelope, e, ainda de joelhos apanhou um a um todos os envelopes caídos. Refez o molho, voltou a cingir o sisal com firmeza e devolveu o embrulho agora recomposto, ao baú.

Os lençóis de linho.

Agora depois dos olhos lavados pelo sal das lágrimas, podiam ver-se pequenas pintas ocre de ferrugem. Talvez das dobradiças da tampa da arca.

As toalhas de rosto, as cobertas, os atoalhados, tudo tinha escurecido um tom acima do original.

Como ela.

Arrastou-se sempre com os joelhos no chão, até ao espelho. Tocou a sua própria cara. A sua boca. Estava seca e descaída. Os seus olhos. Aqueles eram os seus olhos? Ela não se lembrava de ter uns olhos assim...

O seu cabelo. O seu cabelo comprido, lindo, inveja de tantas outras raparigas, cobiça de tantos outros homens...

Mais parecia uma manhã de nevoeiro cerrado. Quando seria que o seu cabelo tinha ficado assim?

Quando teria ela ficado presa dentro daquele corpo que não reconhecia como seu?

Porque é que ele não apareceu à hora marcada?

Sequer se importou que os cartões ficassem todos amarelos.

Deixou o cheiro a mofo apoderar-se do enxoval.

Limpou os olhos com as costas da mão. Levantou-se devagar. A caixa dos anjinhos estava ainda em cima da colcha de renda da cama. Com a mesma cautela de antes, apanhou-a, depositou-a dentro do baú de papelão encarnado e ouro, e fechou a tampa com cuidado.

Baixou os fechos metálicos, verificou, se nada ficara de fora.

Ajeitou a colcha. Aprumou-se frente ao espelho, e saiu do quarto.

Era Sábado, quase hora de jantar.

Não tinha nada preparado. Era melhor apressar-se não fosse ele aparecer.

sinto-me:
música: Perfídia-Nat King Cole
tags: , ,
Original Zumbido por meldevespas às 16:43
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9 comentários:
De Sandra Xanoquita a 27 de Novembro de 2007 às 09:44
Tão bonito... tão triste...
De Lua de Sol a 27 de Novembro de 2007 às 11:47
Tão bela descrição de linhos, rendas e afins... Tão doce a forma como a velha senhora se movimentava por entre panos e caixinhas, fitas de sisal e anjinhos. E o final?! Que nostálgico, triste mas terno... Sublime de detalhe e de amor, tal como de recordações e vazios.
Gostei muito.

Beijo grande
De telmy a 27 de Novembro de 2007 às 14:50
bem, que texto.. está encantador e nostaligico. ^^

beijnhos *
De jonnywolf a 27 de Novembro de 2007 às 15:39
Um texto repleto de nostalgia, recordação e amor.

Beijo sonhador
De weee a 27 de Novembro de 2007 às 15:59
Tanto amor e tanta tristeza junta!

Tanto cuidado e tanto descuido!

Tanto tempo e tão pouco!

Adorei.
De R.I.P.per a 27 de Novembro de 2007 às 16:27
mt bom :(
De Zangão Mor a 27 de Novembro de 2007 às 17:47
O orgulho que me dá a minha companheira da vida, a mão que me embala, a Instituição "mulher e mãe" cá de casa, que apesar do trabalhinho diário ainda consegue escrever estas maravilhas!
Que eu nunca me esqueça que ainda existe eu e tu linda abelha mestra! Que continuemos a fazer mais casulos, a mantê-los bem cheios de mel porque a nossa criação, expoente mor do nosso amor, bem precisa.... venham carrinhos do supermercado
Beijos, abraços e ..... o resto já tu sabes
De meldevespas a 27 de Novembro de 2007 às 17:55
Bem bem bem...hoje até tive honras de visita do meu Zangão Mor!!!!!
Fico muito felizzzzz! :))))))
Beijos grandes e grandes e grandes
e.....venham carrinhos de supermercado!!!eheheheh
De mauricio_102 a 28 de Novembro de 2007 às 18:37
.
EXTRA: Um NATAL PORREIRO e um ANO NOVO FIXE para todos os Bloggers Portugueses.

NOTA: Se não tiveres inspiração para NOVOS ARTIGOS procura algo no Site CIÊNCIA VIVA, http://www.cienciaviva.pt/home . FIM DO EXTRA.



E agora,

Olá Blogger. Vamos criar um MOVIMENTO DE BLOGGERS para MUDAR A LETRA do Hino Nacional ?!

http://www.portugal.gov.pt/Portal/PT/Portugal/Simbolos_Nacionais/HinoNacional.htm


Escreve a tua versão.


A minha PROPOSTA:

"A Liberdade" (um povo sem formação não é um povo livre).

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,

Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

E agora a parte em que se faz a ALTERAÇÃO:.

Às aulas, às aulas!
Na Escola e no Trabalho,
Às aulas, às aulas!
Pela Pátria aprender
Contra o atraso estudar, estudar! (*2)


(*2) - ALV - Aprendizagem ao Longo da Vida.

"Toda e qualquer actividade de aprendizagem, empreendida numa base contínua,
com o objectivo de melhorar conhecimentos, aptidões e competências".

Site em http://www.alv.gov.pt


BRAGA ( mas LISBOETA, "A Invasão Mourisca", http://jn.sapo.pt/2007/02/27/opiniao/a_invasao_mourisca.html ) 31.5.2007.

JOSÉ DA SILVA MAURÍCIO para os que não gostam de Anónimos.

ANÓNIMO para os que não gostam de armantes.

E para os restantes, J#o? d/ sI&v? Ma+/+u)io ( ASSINATURA ILEGÍVEL ).

mauricio_102@sapo.pt

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