Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Raízes

Eram três raízes fortes.

Frutos de sementes vulgares, mas sãs e escorreitas.

Eram três raízes, que fermentaram no colo de uma mãe viúva de traços firmes e plácidos, e germinaram num dia de Primavera com o nascer de uma manhã qualquer.

Tinham membros malhados como ferro, forjados na tempra de uma fornalha acesa em brasa. Estavam na terra, como a terra estava nelas, Eram da terra numa pertença sem reservas ou limites, eram e isso bastava.

A viúva que as deitou ao mundo, cansava os braços com os filhos dos senhores, e caiam-lhe os seios de tristeza pelo leite derramado na boca de outras crias que não as suas. Tinha olhos de sal, que às vezes não se fechavam, porque não se podiam fechar, e davam-lhe um ar de estátua. Uma estátua numa praceta de segunda que ninguém olha, pela razão simples de que não há ninguém para olhar. A mãe viúva, tinha os nós dos dedos gretados do frio do pão amassado noites dentro para mesas de outras casas. Ela não tinha casa, nem mesas, nem tampouco pão, só três raízes fortes metidas na terra, de pés sujos e duros que sorriam com a alma toda quando a tarde do dia a seguir trazia embrulhadas num pano grosso, as côdeas do pão dessa manhã.

Codeas , maçãs tocadas com nódoas negras que alastravam mais depressa dentro dos bolsos, escondidas dos olhares famintos de raízes fracas e folhas caídas longe do Outono; raspas dos bolos de torresmo assados no forno do pastor, árvore nobre de tronco rugoso e ramos quietos.

Aquietavam o clamor do estomago com restos de nada, e brincavam de mangas arregaçadas e calções cortados pelos joelho e atados à cinta com duas voltas de cordel.

Eram amados na sombra dos filhos ricos que não eram da sua mãe. Espreitavam do alto do muro as mãos gretadas a pentear cabelos de ondas loiras, e fingiam ser eles, quem estava ali à mercê da doçura daquelas mãos de que só conheciam o cheiro.

Mas os seus cabelos eram negros, e atrevidos, espetados e sujos, e as mãos estavam longe. Acariciavam cabeças douradas, faziam-no com carinho e desmedida dor.

As raízes tomaram conta do seu pequeno mundo, e fizeram dele um lugar fertil para se viver.

Cresceram e multiplicaram-se, ficaram mais fortes a cada pedaço partilhado de amor em forma de pão bolorento. Abraçaram palmos e palmos de terra, sempre na busca, sempre a fossar o cheiro a óleo de amendoas doces que a mãe trazia nos dedos àsperos, o cheiro arrancado a aneis louros incandescentes.

 Um dia a mãe viúva fechou os olhos de sal, e não mais os abriu. Nunca mais trouxe côdeas , ou frutas passadas, as mãos mornas, arrefeceram num repente e perderam o cheiro.

E as raízes encolheram-se de dor, calaram gemidos, perderam sorrisos abertos e ganharam um par de olhos de sal para cada uma delas.

As poças de lama, já não eram oceanos sonhados de praias quentes e azuis, e os olhos de sal viam agora apenas poças lamacentas feias, frias e vazias de interesse.

A terra toda encheu-se de raízes novas, e as três raízes fortes sulcavam vales com gretas nos nós dos dedos, e voltavam de rastos com pedaços de pão de ontem e restos de bolos resgatados do lixo das padarias. E havia sorrisos de mangas arregaçadas que esperavam com os olhos cheios de sono, as mãos sedentas de toques e as barrigas cheias de fome.

Aos poucos os olhos de sal que tanto tempo permaneceram abertos, escancarados de fé, e tantas vezes (muitas mais vezes) de desespero, fechavam-se.

Uma a uma, as três raízes fortes foram perdendo o viço, os olhos foram ganhando a paz.

Os olhos de sal e a busca de pão foram passando de raíz em raíz, até hoje.

Os meus olhos salgados já mal se fecham.

Três raízes fortes esperam as minhas mãos.

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 01:05
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8 comentários:
De canochinha a 30 de Novembro de 2007 às 11:34
Que bonito! Escreves muito bem, parabéns.
Espero que os sorrisos voltem depressa.
Beijinhos
De Paulo a 30 de Novembro de 2007 às 13:32
O melhor da tua escrita é que tu superas-te a ti própria a cada texto que publicas aqui no teu Blog.
Não tenho melhor elogio para te fazer :)
Parabéns, uma vez mais.

Bom fds!
De weee a 30 de Novembro de 2007 às 17:33
Oooohh... cheguei ao fim com uma certa nostalgia no espírito
De Alfa a 30 de Novembro de 2007 às 18:42
Muito bonito,muito lindo , muito sentido,muito triste.Ummagnifico uso das palavras.
De telmy a 3 de Dezembro de 2007 às 14:07
ohh, fiquei completamente nostalgica ao ler isto.
Mas está lindo! É um dos que eu mais gosto *.*
beijinho. *
De joão palmela a 3 de Dezembro de 2007 às 16:38
Muito Triste e ao mesmo tempo tão Belo, de uma Profundidade tal que me deixa sem vontade de falar, apenas usufruir dele!
Muito Bom, Beijinhos,
João Palmela
De Lua de Sol a 4 de Dezembro de 2007 às 11:17
Das coisas mais belas que aqui escreveste... Lindo, lindo. Parecia quase uma lição... pode haver miséria, falta de tudo, mas se houver amor de mãe, ainda que partilhado em côdeas de pão bolorento há vida e alegria. As raízes, sem dúvida, também se alimentam de amor. E mesmo que, depois, ganhem olhos de sal, sobrevivem... e sobrevive a capacidade de amar.
Adorei!
Só o final te embrenhou na nostalgia...

Beijos da Lua
De R.I.P.per a 4 de Dezembro de 2007 às 11:35
Faz uma coisa feia ó SFF :)

Tenho andado com pouco tempo but not anymore ;)

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