Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Livre...

 

Rebolavam-se por detrás das estevas, sem fazer caso das pedras, e da humidade da terra, entregavam-se a gestos apressados, urgentes, escondidos.

Ela soltava gritinhos histéricos a denunciar o desejo em quarto crescente. Ele murmurava por entre dentes  mantras antigos, palavras pagãs , enquanto  lhe puxava as sais pesadas para cima. A respiração de ambos era ofegante, corrida, o vislumbre da meta depois de uma espera amarga.

Joaninha e Xavier, tinham-se escapulido de perto do grupo de trabalho. Com desculpas diferentes, e por caminhos opostos, desapareceram dali já com o encontro marcado para aquele lugar. Quando lá chegaram, mal conseguiam respirar, tal era a excitação e também o temor de verem o seu segredo a nu. Abraçaram-se em gemidos, e amaram-se na terra molhada pelo orvalho da manhã.

O Monte do Enforcado, era nesta época, o ganha pão para a maior parte das famílias das aldeias ali em redor. Eram olivais a perder de vista, vales e encostas de árvores carregadas de frutos grados. Este ano a apanha estava atrasada, a falta de água obrigava patrões e moirais  a esperar um pouco mais pela altura certa.

Era o principio de Dezembro, e os trabalhadores iam chegando, uns a solo, outros em magotes, alguns em família. Estendiam os panos de serapilheira grossa e áspera por baixo das oliveiras e com paus altos varejavam as árvores arrancando-lhes as azeitonas perfeitas e sãs . As escadas em tesoura por baixo da árvore, ajudavam a tirar dos ramos os frutos mais teimosos que  recusavam  cair.

O varejar mais parecia o som de dezenas de bandos de pardais a bater as asas em silêncio numa tarde de primavera.

Os campos estavam salpicados de gente nessa manhã. Caras cansadas, semblantes pesados, roupas carregadas que era o mês do caramelo, e o frio chegava aos ossos com a rapidez de uma faca afiada.

 

Regressaram, com os corpos em paz, sempre com o cuidado de aparecer aos outros em separado.

- Já tás mais aliviada rapariga!! - gritou o moiral , estranhando a demora.

- Oh se estou Ti Jacinto!! Muito mais aliviada !! - respondeu a Joaninha, lançando o cabelo para trás , com uma gargalhada sonora.

A Joaninha era uma rapariga fogosa. Solteira e sem compromissos com ninguém que não fosse ela própria. Era nova e tinha um corpo inteiro e duro que virava a cabeça dos homens, a Ti Estrudes Marmela , estava sempre a repetir que ela tinha o diabo no corpo.

Exibia as ancas redondas e generosas num andar que fazia balouçar as saias pesadas e os olhos dos homens quando ela passava. E em jeito de desafio, empinava os seios  fartos, engasgando as palavras de todos quantos a ela se dirigiam.

Pouco passava das 10 da manhã. Era a hora da bucha, todo o  grupo se sentava ali por perto, abriam-se os tarros e as marmitas, comia-se qualquer  tapa-buracos ", e aproveitava-se o tempo para descansar as costas cansadas de andar dobradas, debruçadas sobre o pano escurecido. Havia sempre alguém que puxava de uma moda, e a música dolente, por momentos encantava os pássaros e outras criaturas do campo.

O Xavier, comia, cabisbaixo, os olhos cravados no naco de pão com toucinho salgado, e na navalha. Ao seu lado a mulher, Catarina observava-o com desconfiança - aquele homem andava tão ensimesmado, que até parecia que trazia a alma enegrecida - pensava ela muito amiúde nos últimos tempos.

Catarina estava sentada numa pedra maior, que  Xavier tinha arrastado para esse propósito. Tinha as pernas abertas e uma manta de lã escura pelos joelhos. Já mal conseguia sentar-se quanto mais andar ali dobrada, esta era a última semana que vinha, já tinha dito ao marido que assim com o bucho cheio, ainda lhe nascia a criança debaixo de uma oliveira!

A Ti Estrudes Marmela , o Ti Jacinto, o Inácio, a Branca e a Joaninha, tinham acabado a cantoria e riam agora a bom rir com os sonhos da Branca:

- Ai Jesus, eu nã peço muito, nã senhora! Um olival piqueno , um cordão de ouro e uma casinha pra eu morar mais o mê Toino!

- Um cordão d'ouro ! Homessa! E inda dizes que nã pedes muito - atiçava-a o Ti Jacinto - Atão e tu Xavier, homem de Deus estás mais calado que a morte!  O que queres tu da vida, hã!?

-.....eu.....bem....quero o que toda a gente quer.....acho eu...

- Saúde! - saltou-lhe Catarina em defesa - Saúdinha e paz prá nossa família ! O que há-de agente querer Ti jacinto. A gente é pobre, nã pode pedir muito mais que isso!

- Nisso tens tu muita razão Catrinita , aos pobres tem que lhe bastar pão e canseiras, que os sonhos são prós outros!

- Pois eu não quero ouro, nem olivais, nem casas, nem saúde...a única coisa que eu quero é um homem...um homem a sério, que me sossegue! - disparou Joaninha diante do olhar perplexo de Catarina, do susto de Xavier e dos risos altos do resto do grupo.

Enquanto falava, Joaninha, destemida, nem por um segundo descolou os olhos do Xavier.

Xavier empalideceu. Faltou-lhe a coragem para olhar para Catarina em busca de compreensão, para as palavras tolas da outra. Calou-se, branco como a geada, e o nó que sentia na garganta, era toda a vergonha que lhe incendiava o ser.

Como podia? Como ousava?

Como se permitia que aqueles olhos de azeitona galega o olhassem assim, como deixava aquele ardor subir-lhe pernas acima e inflamar-lhe o corpo, mesmo ali, na frente da mulher quase a parir !?

A Joaninha não era de ninguém! Só queria usurpar-lhe o prazer, sugar-lhe toda a lealdade que tinha para com os outros, enlamear-lhe a honra de ser um homem honesto.

Não havia cão nem gato que a quisesse fora dos lençóis , não havia vivalma por aquelas redondezes que não conhecesse a índole dela! Todos sabiam que o homem que a tomasse para esposa seria um cornudo!

E ele ali estava...todo a tremer por dentro, confrontado com a degradante verdade que lhe apertava o coração...ele queria ser o cornudo! Ela queria-a só pra ele, e pouco lhe importava o que diriam os outros, família , amigos...nada! Ela era uma puta , uma cobra, mas ainda assim ele sofria de uma dor imensa só por causa dela....

Mas Xavier sabia que a Joaninha era do vento e do prazer, era so sol e dos lençóis , era da chuva e da terra molhada..mas não era dele.

Ás vezes tinha vontade de desaparecer dali, pôr uma corda ao pescoço e pendurar-se duma oliveira... morrer longe dos olhares dos outros, longe do olhar de azeitona galega...

Ás vezes....

- Xavier, acorda homem de Deus! Agora deu-te pra dormir de pé! Anda lá tá na hora de enregar !!! Anda lá, até a adiafa estar acabada, temos muito que batalhar!

Catarina abanava-o com força, o resto do grupo voltava já ao trabalho, e Joaninha queixava-se do calor enquanto desabotoava sem pressas, mais um botão da camisa grossa, com os olhos cravados nele.

Era o mês do caramelo, e Xavier ardia em febre.

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 11:52
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8 comentários:
De R.I.P.per a 14 de Dezembro de 2007 às 13:56
E isso é qd nao s apaixonam por putas a sério :| q tb acontece... Tu escreves o campo como ninguem :)
De A VER NAVIOS a 14 de Dezembro de 2007 às 16:12
Belo conto.
Conheço bem o quanto é árduo o trabalho da apanha da azeitona. Em criança, ainda na minha terra, apanhei muita.
Esse conto, metade verdade, metade sonho, ilustrará seguramente situações vividas por esses olivais.
Parabéns, um texto simples e muito bem enquadrado.
Bom fim de semana.
De A VER NAVIOS a 14 de Dezembro de 2007 às 20:33
Não me expliquei bem no comentário anterior.
A sua escrita tem toda a simplicidade do alentejo. E prova, como se tal fosse necessário, que a simplicidade tem qualidade de alto gabarito.
Os meus sinceros parabéns. Fico à espera de mais.
J. lopes
De meldevespas a 14 de Dezembro de 2007 às 22:37
Eu percebi o que queria dizer À primeira!
Verdade que o Sr. A Ver Navios, deve ser uma pessoas muito bem disposta!
Quem se lembraria de fazer um comentário tão generoso, a desculpar-se de um comentário anterior igualmente tão querido.
Muito obrigada também duas vezes meu amigo!
Beijinhos e um belíssimo fim de semana
;)))
De astuto a 16 de Dezembro de 2007 às 21:42
Como já li aqui nos comentários, "escreves o campo como ninguém!" Gosto desta tua escrita "trigueira!" E não, não penses que o pessoal cá de cima odeia o vosso "reino", mouros são só aqueles que, saídos de todas as terras do país, se sentam no poder de Lisboa e esquecem a igualdade.

A tua escrita é uma ternura! Continua!

Boa semana.
De telmy a 16 de Dezembro de 2007 às 23:07
adorei.
adorei como descreveste tudo. e belo twist :P

beijinhos grandes *
De weee a 17 de Dezembro de 2007 às 09:47
Ainda estou de boca aberta e olhos esbugalhados...
Ou eu não me chamasse Catarina.

Ainda por cima hoje sonhei que estava grávida!!!!
Só faltava mesmo ter de me cruzar com uma "Joaninha" que se metesse com o meu "Xavier"..... Arre!!!! :S
De Lua de Sol a 18 de Dezembro de 2007 às 13:12
Livre... Livre Deus que Xavier partisse atrás de Joaninha, partisse para uma corda na oliveira... Livre Deus que Catarina parisse em plena jeira... Livre... O pensamento é livre, já o coração e o corpo podem não ser... Livre... é o céu que lhes tapa as cabeças no trabalho árduo da apanha da zeitona...
Sensualidade, compaixão, ternura, respeito... Sentimentos que este texto transmite. O campo e a sua "faina", mais uma vez, no seu melhor.
Gostei muito!

Beijinhos

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