Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Pertencer

Sentia cada músculo das suas pernas. A subida era íngreme, e pedalar debaixo daquela chuva miudinha e pesada era ainda mais difícil .

Tinha enfiado o impermeável azul escuro, com  riscas amarelo fluorescente, e saíra para a rua sem se preocupar nem um segundo, com o facto das calças do fato de treino irem ficar ensopadas nos primeiros 50 metros da etapa.

Saía sempre à mesma hora, um pouco antes das 7 da manhã.

Ver o sol nascer à sua frente, era um espectáculo que se recusava perder.

Hoje a manhã estava arisca para andar de bicicleta. Soprava um vento forte, e a chuva parecia milhares de agulhas a baterem-lhe na cara. Mal conseguia manter os olhos abertos, mas ao mesmo tempo sentia-se mais viva que nunca.

Àquela hora havia ainda pouco movimento neste tipo de estradas, secundárias. Um tractor aqui e ali, a assinalar a sua marcha lenta com a luz do pirilampo, a carrinha do padeiro, que já ia na segunda volta a distribuir pelas aldeias da vizinhança, o autocarro que levava as crianças das redondezas até às escolas da vila, e pouco mais.

Tinha escolhido, uma aldeia perdida no sul do país, para fugir a uma vida de correrias, de metas por objectivos, de solidão consentida pela religião do dinheiro e da carreira.

Pareciam palavras vãs, mas pelo menos para ela tinham sido motivos mais que válidos para a fuga.

Fuga. Podia chamar-lhe assim. Aliás não podia ser de outra forma.

O apartamento mobilado, a quota no escritório, o companheiro de cama. Partira sem aviso.

O que era ontem, hoje deixara de ser.

Tinha finalmente apanhado a curva da encosta. Agora  tinha uns bons 2 km de recta, poderia dar descanso à pernas. O dia estava a clarear, e a chuva a enfraquecer. O vento porém soprava cada vez mais impiedoso.

A temperatura descera bastante durante a noite, apesar da chuva. Tinha as pontas dos dedos geladas, e por momentos odiou-se por ser tão distraída e não ter levado umas luvas.

Tirou as mãos do guiador, esfregou-as uma na outra e colocou-as em concha junto à boca, de modo a soprar-lhe uma baforada de ar quente.

Caramba! Estava mesmo um gelo. Sentia os pulmões picarem, e o coração bater a um ritmo acelerado. Tudo aquilo era a vida dela, a vida nela, a vida que ela na cidade grande não tinha conseguido descobrir dentro do seu ser.

Começavam a ver-se pequenas abertas no céu. Aqui e ali, rasgos de um azul eléctrico apareciam do nada e prateavam os riscos deixados pelos aviões.

Junto aos troncos das árvores permanecia ainda uma névoa ténue e húmida , que mesmo à luz do dia desenhava contornos esquivos e indecifráveis por entre os ramos.

Pedalava com quanta força tinha, para afastar da cabeça as contas que de vez em quando ainda deitava à vida. Sentia a pele da cara a arder. Os lábios, era certo , iriam estalar, ao mínimo gesto.

Nunca se lembrava de passar o creme. Era um creme caro. Tinha-o trazido da outra vida. Sabia que era por isso que relutava em usa-lo.

Levantou a mão para acenar a um pastor que conhecia dos seus passeios matinais, e abriu um sorriso e um amistoso bom dia. Sentiu de imediato o sabor quente e doce do seu próprio sangue. Já sabia! Devia ter posto o batom do cieiro, ou a porcaria do creme. O lábio estalou, e agora ardia mais ainda.

Era sempre efusiva e simpática para os habitantes dali. Já todos a conheciam,  e não se podia queixar de ser mal aceite, nem nada parecido.

Mas também não a olhavam como um dos seus pares . Era uma forasteira. Com usos e costumes muito diferentes das gentes dali.

Aquilo da bicicleta....Os calções curtos pra correr... Os olhos pintados...

Por vezes mais que uma forasteira, olhavam-na como uma alienígena . Isso divertia-a, mas também a incomodava. Sentia-se num limbo. Não era da cidade. Mas também não era dali. Não se encaixava em lugar nenhum. Questionava-se se não seria um pouco assim, com toda a gente?

Sabia bem que não.

 Aquelas pessoas eram daquele lugar. Tinham raízes ali, e olhavam de viés e com estranheza as suas atitudes.

O vento estava incansável, mas o sol aparecia a tempos, a descoberto das nuvens de um cinza chumbo carregado, que ameaçavam o dilúvio ainda antes da hora de almoço. Estava um daqueles dias de muitas caras, como algumas pessoas, chorava e sorria, conforme a vontade do vento, e lá ia consumindo as horas e as forças dela na pedaleira.

Tinha chegado à estrada nacional. Agora era fazer o caminho de regresso, mais 8 kms , e com sorte antes da chuva estava abrigada em casa.

Pelo menos hoje não tinha nada que fazer. Não havia compromissos, horas marcadas, pessoas à espera, decisões pendentes. Nada. Só a casa vazia à sua espera.

O dinheiro estava a dar as últimas, e tinha que ser célere em arranjar uma ocupação rentável naquele fim de mundo. Engraçado como sempre que falava de trabalho, não conseguia evitar referir-se ao seu refugio no campo, como "o fim do mundo"...

Se tinha saudades do que tinha ficado lá atrás? Soltou um suspiro e empenhou-se em pedalar, como se o tempo se estivesse a extinguir agora, neste mesmo instante.

Na berma da estrada, as vinhas, com as suas hastes  vermelhas, ainda despidas de parra, despertavam para a vida, para um novo ano de caudais abundantes. As amoreiras, na curva do monte, essas estavam tal como ela... sorriu, e num gemido sentiu o lábio estalar de novo. Estavam nuas. Vivas, é certo , mas num abandono e solidão de fazer doer o coração. Até os ninhos, lá no alto, no meio dos ramos estavam vazios. Ela também estava vazia.

Uma pega fez um voo rasante mesmo à sua frente. Um rato, ou outro bicharoco qualquer, de certeza !

O sol já mal se via, e as nuvens tinham tomado conta dos céus. Um autentico motim. Ainda faltavam mais de 2km , e já estava arrependida da extravagância deste passeio. Sentiu falta do escritório, com aquecimento central, e colaboradores à sua disposição o dia todo. O cheiro do café quente, a chuva a bater nos vidros duplos das janelas, as árvores lá fora a vergarem-se à força do vento!

Pedalou sem descansar. Não se permitiu olhar nada que não fosse o fim da estrada. Ainda não tinha tido o desprazer de apanhar com uma tempestade daquele calibre em cima de si! E não ia ser hoje!

Tinha recomeçado a chover. Mas não era aquela chuva miudinha da madrugada. Eram gotas grossas e cheias, vindas propositadamente para a castigar. Que raio lhe tinha passado pela cabeça para sair num dia assim! O vento era de tal ordem, que tinha agora dificuldade em equilibrar-se em cima da bicicleta.

Na boca misturava-se o sabor da chuva insonsa com o doce do sangue húmido nos lábios gretados.

Gotas de suor escorriam-lhe nas fontes, ou seria só chuva?

E o que era aquele sabor salgado?

Não! Não podia estar a chorar agora! Ela raramente chorava.

Pedalou, enraivada com o momento de fraqueza. Não tardou a ver o telhado avermelhado da casinha que tinha alugado. Era ainda fora da aldeia, tinha preferido assim. Prezava muito a sua privacidade. Tinha tido casos, paixões, desvarios, mas jamais tinha baixado a guarda.

Ela era una. Um circulo. Um forte.

Jogou a bicicleta contra a parede debaixo do alpendre e largou o impermeável, no chão.

Meteu a chave na porta, e entrou, deixando poças de água à sua entrada.

Descalçou os ténis e mandou-os porta fora.

Despiu-se pela sala, a caminho da casa de banho. Tomou um banho quente e rápido, vestiu um pijama, e foi para a cozinha.

Preparou um chá, e enquanto esperava a água ferver, perdeu-se na chuva que continuava a fustigar o dia.

Estava sozinha . O silêncio dentro de casa era tão grande, que teve vontade de tapar os ouvidos. Mas não o fez, claro! Era uma estupidez, pensou, abanando a cabeça.

Sentou-se, sem nunca tirar os olhos lá de fora.

Talvez fosse a chuva, ou o frio, ou o chá quente, mas deu consigo a pensar como seria ser de alguém? 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 20:58
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8 comentários:
De A VER NAVIOS a 14 de Janeiro de 2008 às 21:58
Opções de vida, opções de vida...
Mais um belo texto. Gostei.
J. Lopes
De Sandra (Xanoquita) a 15 de Janeiro de 2008 às 09:20
Quantas vezes, quantas quantas... me apetece fazer o mesmo, sair daqui...

E quantas vezes, quantas quantas... me pergunto como seria ser de alguém...
De Lua de Sol a 15 de Janeiro de 2008 às 12:24
Este conto que toca no campo não é do campo, é da alma. Da alma que não é da cidade nem do mato, que é interior e que é do mundo. Encarna o que muitos pensam pensar sós... os quilómetros que se pedalam para se pertencer a um lugar e a alguém...
Muito inteligente!

Beijocas já pedaladas
De telmy a 15 de Janeiro de 2008 às 20:22
que bonito, Carmo.
acho que retrataste o que pelo menos uma vez nos passa pela alma. Fugir de tudo, não mostrar fraqueza, o ridiculo, e o ser de alguém.
está mesmo fantástico!

somehow, I know that I don't belong here. I belong where the men cannot see the see. In the middle of the Europe ^^

beijinho. *
De herewithme a 15 de Janeiro de 2008 às 21:43
Ola ola!!! Antes de mais peço desculpa por não ter lido o texto todo, mas tenho mesmo que me despachar para ir estudar, mas pelo que li adorei, juro que vou voltar mais calmamente para ler fiquei curiosa... Bjxxx
De weee a 16 de Janeiro de 2008 às 09:59
Tantas vezes sinto o sorriso desaparecer perante uma casa vazia...

Um dia serei de alguém.
Por agora sou minha.
De Andi a 18 de Janeiro de 2008 às 18:34
Ultimamente tenho-me descuidado e nem tenho passado pelos blogs que costumo ler, este é um deles.
Devo dar os parabéns pelo excelente texto. Fantástico.
Adorei as descrições do tempo, acho que fiquei até com frio ;)
Beijinhos e bom fim-de-semana.
De R.I.P.per a 22 de Janeiro de 2008 às 02:47
às vezes apetece-m comer os teus contos :)

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