Domingo, 30 de Setembro de 2007

Voar a pique

O Santo António veio quente, e seco, este ano.

- Se o calor continuar, isto vai ser de arromba, pá!!

O calor molhava os corpos e a vontade da sesta já teimava contra vontades pouco férreas .

Mas para eles, não havia calor, ou sesta que os desviasse dos seus trabalhos. Havia que puxar dos galões, e mostrar aos outros bairros quem era de facto o melhor!!!

O grupo reunia-se invariavelmente no casão da Ti Ana, havia ali espaço para guardar tudo o que precisavam, rolos de papel, grades de gasosas, tesouras, fios, caixotes, lâmpadas pintadas a guache, e corações cheios de orgulho.

A Ti Ana, tinha acabado de fritar as favas secas, e o cheiro pegajoso e salgado deixava no ar promessas de bailaricos e balões de papel colorido.

Agora entravam eles em acção,  improvisavam saquinhos de plástico, selados com facas de cozinha aquecidas, debaixo do olhar atento da sua guardiã. O Zé Luís assoprava os dedos, entre uma queimadela e outra, que na ânsia de ver o tempo andar, nenhum deles tinha achado necessário esperar que as favas fritas arrefecessem. As mãos iam ficando brilhantes da gordura,  e os peitos iam ficando inflamados pela excitação.

Todos os anos rituais se repetiam, votava-sa uma comissão, calcorreava-se toda a vila a pedir às portas, contavam-se moedas e sonhava-se com um S.João que durasse muito pra lá da meia-noite.

Este ano era o ano deles, os mais novos estavam ainda nos 12, mas o Zé Luís , a Záu e o Faco , metiam respeito do alto dos seus 14 anos. 

É já amanhã a grande noite, todos sabiam que não poderiam dormir, todos tinham a certeza que pulariam a noite com um salto doloroso e demorado, como a espera no corredor do hospital, para levar a vacina.

A Bia , roía as unhas compulsivamente, e tinha os olhos escancarados, pregados num qualquer ponto imaginário. Via a fogueira, a maior fogueira que já se vira ali no bairro. Será que as feixinhas de lenha que tinha ido pedir à padaria seriam suficientes ?

O Faco deu-lhe um valente encontrão - Acorda!!!! Achas que não há nada pra fazer!?- A Záu , largou os dedos, retribuiu o empurrão, ripostando que estava a contar as feixinhas !

A Lela , a maior de todas, pelo efeito do pão com manteiga e açúcar que demolia nos lanches matinais, pediu calma, alertou para a falta de tempo, e entre um saquinho e outro, lá ia  surripiando favas fritas salgadas, que os seus dentes trituravam em permanente encantamento.

Ao meio do bairro, havia um pequeno cruzamento, e no centro, crescia todos os 23 de Junho, um longo mastro, empinado., que se agigantava até ao céu, engalanado por dezenas de bandeirolas de papel de seda, que, quando chovia, engelhavam o mastro e a cor, mas nunca a festa! Este ano, o calor estava de pedra e cal, e não havia que temer intempéries de espécie alguma.

Do mastro, corriam para os quatro cantos cruzados, braços estendidos de lâmpadas coloridas e balões de papel frisado.

Magotes de gente começavam a chegar-se à música desafinada do gira-discos emprestado pelo Manel Pisco. O Manel era mais velho, já tinha tirado as sortes, estava à espera de ser chamado para ir à tropa. Andava tão contente, que já não se podia aturar a conversa dele, que a crer na rapidez da língua , no fim da recruta já seria general.

As lâmpadas pintalgadas acendiam a noite, o cheiro das bifanas na frigideira aguava apetites, as crianças ostentavam pequenas garrafas de gasosa como troféus, havia danças de roda à volta do mastro iluminado, e carícias furtivas escondiam-se nas esquinas escurecidas pelas sombras desertas.

A vizinhança arrastava para as portas cadeiras, banquinhos, copos de limonada com folhas de hortelã e pratos de fatias paridas, feitas de pão de ontem com ovos dourados e polvilhadas por mãos generosas com açúcar e canela.

A noite embebedava-se de vozes e luzes, e deixava-se ali ficar numa cadência morna de Verão acabado de chegar de longe. A noite estava em paz com o tempo, com as estrelas e com os homens.

...

Este Junho, estava mais agreste. Zé Luís sentou-se num portado, e olhou a decadência das casas. Aqui morava a Ti Estrudes ...ali em frente, naquela casa antes branca de pé encarnado de óxido de ferro, e agora de um castanho antigo, esbatido e escamado pela vontade dos dias, era a Senhô Maria Rita. Além, na esquina...era a casa do Manel Pisco, estava fechada a sete trancas desde que tinham ido pró estrangeiro...os galões de General tinham ido esperança abaixo, afogados em fome e raiva.

Já não havia ali alma de miúdo que içasse um mastro, ou ateasse uma fogueira.

...

A fogueira crescia como a noite, em labaredas de desejo, e a lenha cedia ao fogo com um deleite prolongado pelo fumo que se espalhava pelo ar e enchia de coragem o peito da miudagem .

O Zé Luís foi o primeiro a saltar, estava em picos para o fazer, e nem deixou as labaredas acalmarem do fogo. Saltou com quanta força tinha, e sentiu o calor trespassar-lhe os ossos.

- Consegui! - Pensou num grito lancinante e calado - consegui!

As pestanas desaparecidas, as pontas dos cabelos chamuscadas, os fundilhos das calças calcinados, e um cheiro a coiratos no ar,  provaram o gesto épico do grande salto...agora era um homem! Puxou o peito pra cima, o mais que pode, e nessa noite, não houve mais ninguém a fazer-lhe sombra...podia não chegar a General como o outro, mas hoje ele era o Rei da Fogueira!

...

Sorriu, e os dentes estragados mostraram um reinado queimado pelos fogos vãos de vidas errantes.

Voltara ali porquê?

Tinha os dias marcados pelo compasso do próximo copo, e o regresso a casa só tinha servido para pôr mais urgência na urgência que o consumia.

Voltara ali porquê?

Se calhar para voltar a sentir o calor das lâmpadas pintadas.

Para saber que ainda se lembrava da vida, quando voava a pique.

 

 

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

O Destino das Ondas

 

Ficava ali de olhos esbugalhados, paralisado pela angustia de ter que tantas coisas para fazer.

Do fundo do mar, chegava um ruído surdo que lhe magoava os sentidos e o impelia a cerrar os dentes com quantas forças tinha. Era aquele barulho que fazem os seres enquanto se afogam em sal, um barulho calmo e inquietante, que pronuncia um silêncio sem fim à vista.

E aquele vinil riscado das ondas, uma a seguir à outra, e depois mais outra, todas a suicidarem-se em terra. Perdia sempre uns minutos, a pensar nos desatinos das ondas, queriam morrer porquê? Era cansaço, amor, demência? Morriam degoladas com facas de espuma, e o que restava delas voltava ao mar  para assombrar calmarias e aguçar tempestades.

O mar tinha aquela mania de o manter alerta, tinha aquela cruel tentação de lhe meter medo. Mas ali, não havia mar.

Ali, só havia terra, terra vermelha a perder de vista, torrões de açúcar mascavado que cediam debaixo dos pés dos homens, que os castigavam de manhã à noite.

Aquele pó sépia, acre e doce, secava-lhe a boca e insinuava-se pelas narinas, polvilhando-lhe o cérebro de uma canela mulata.

O pó inebriante trazia-lhe sempre a imagem dela. Era o cheiro da canela que lhe abrasava os olhos, e lhe punha pimenta no corpo.

A terra seca, magoava-o sempre por dentro. O pó perdia-lhe sempre o olhar, e cegava-lhe as mãos. Mas ali não havia terra seca, nem pó, nem nada.

Ali só havia a sua angustia, de não saber o que fazer primeiro.

Tinha baralhado as horas do relógio de parede, o calendário amarrotado pela ansiedade, jazia a um canto da sala, a vida girava a uma velocidade que já não era a sua, e ele continuava, ali, estanque, sentado numa cadeira de pinho velho, no meio daquela sala, sem saber o que fazer primeiro. Os olhos esbugalhados, a boca cheia de pó, o desejo afogado em canela, e os pés encharcados em água salgada.

Pensou no destino das ondas, e gostou dele.

Levantou-se pela primeira vez em séculos, e foi buscar uma faca de espuma.

 

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2007

Change your heart, look around you!

Esta manhã, quando cheguei aqui, e depois das visitas obrigatórias aos sítios que mais gosto, deparei-me com esta fotografia extraordinária do amigo Sr. João Palmela, ainda por cima com dedicatória aqui ao meu "estaminé", o que muito agradeço.

 E... foi o empurrão que estava à espera para mudar um bocadinho a cara do MelDeVespas.

Espero que os visitantes gostem. Ah! e aceito sugestões com o maior dos agrados!

 

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Domingo, 23 de Setembro de 2007

O tempo estava a mudar.

- Que aborrecido! Tenho que desmanchar esta porcaria toda outra vez.....- puxou a linha esbranquiçada; que de tanto uso, começava a dar mostras de cansaço na cor. Puxou, com a força de um pescador numa maré de fins de Setembro .

Por mais voltas que desse aos miolos, não lhe saia da cabeça que aquela colcha que tecia noite e dia, dia e noite, tivesse que nascer das suas mãos, tivesse que ser parida das suas dores àridas. Os dedos serpenteavam na agulha, e em menos de nada, enleios cresciam, enredos de linhas finas que se emaranhavam diante dos seus olhos e se agigantavam como as nuvens quando o tempo muda.

O tempo estava a mudar. Lá fora o verão travava lutas antigas com o outono, antigas e sempre antecipadamente perdidas. Seria a sua uma dessas lutas?

Puxou a linha com força, e um desespero entrou-lhe pela boca e aguou-lhe os sentidos. Tinha que acabar aquela maldita colcha.

- Faço desfaço, faço desfaço! Já nem sei onde acaba a minha mão e começa a agulha, já nem distingo os meus dedos das linhas enleadas. Tenho esta colcha colada a mim, dos pés à cabeça, como uma sombra que não é minha, e das duas uma: ou acabo com isto, ou dou em maluca!!!

Já tinha tricotado o alpendre, já tinha bordado a varanda, tinha caseado portas e janelas e sentia-se sempre e cada vez mais vazia naquela casa cheia de linhas claras, que esbranquiçavam olhares e afastavam ventos e restos de vidas.

- Faltam duas rosetas destas...só duas e posso-me deitar. Se me esquecer de adormecer, por certo que logo de manhanzinha tenho a coisa acabada...

Com a furia do fim em vista, e o frémito do sono por consumar,  picou-se uma e outra vez, e duas joaninhas vermelhas eclodiram da ponda dos dedos e entornaram-se no leite da colcha por acabar.

- Era só o que me faltava!!! ...Mas não faz mal - disse - toda ela está tecida do meu sangue...se algum estiver assim à vista de todos, que importância tem isso! Ao menos saberão o que doeu...

Tricotou com a desenvoltura de uma criança que sobe a uma árvore só pra roubar os ovos de um ninho, e depois os esborracha fechando a mão. E com a mesma insensatez do sorriso cruel da criança, fez e desfez toda a santa noite.

Os primeiros raios de sol, arrendados pelo alpendre, encontraram por baixo das portas, pontas de novelos que corriam todos em coro para o leito de uma colcha imensa da cor das horas e dos dias.

Acordadas pela luz,  milhares de joaninhas vermelhas, voaram pelas janelas.

Fotografia de João Palmela

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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Aconteceu!!!!

Tenho que confessar......

Todos os dias, logo depois de ligar a máquina, percorria lentamente a homepage do Sapo, sempre com a secreta esperança de ver o MelDeVespas nos destaques.

Sério! Já dizia o poeta, que "o sonho comanda a vida", e depois há a sabedoria popular que apregoa que "a esperança é a última a morrer",  por isso estou assim, um bocado....atónita, é verdade, mas acima de tudo babada, e feliz, muito feliz.

 

Obrigado e um abraço para a equipa SAPO, que são responsáveis por este sorriso que teima em não me sair da boca.

E claro muito obrigado também para a avalanche de visitantes, que espero voltam sempre, esta é também a vossa casa.

 

 

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Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

- Queres dançar comigo?

- Queres dançar comigo?

Repetia a frase dentro de si,  enquanto cravava a sala de passos pesados, e certeiros, avançando decidido para a sua meta.

Já tinha estado lá fora muito tempo. Tinha mentalmente feito este percurso mais de uma dezena de vezes. Costas direitas, queixo empinado, olhar destemido, e : - Queres dançar comigo?

Não tinha a certeza de conseguir falar, quando a hora chegasse.  Sentia o céu da boca numa textura de papel mata-borrão, e a cerveja que tinha literalmente engolido, só tinha piorado o suor que lhe colava nas mãos, e começava agora a repassar-lhe a testa.

Tinha pedido à mãe para lhe engomar a camisa branca, o branco sempre lhe deu um ar asseado, e isso era muito importante, segundo a mãe.

Vestira umas calças de fazenda riscada cinza trovão, impecavelmente vincadas, e apesar das dores quase o matarem, tinha enfiado os pés nuns sapatos castanhos, engraxados pelo Martinho da Praça, mas que tinham sido do Tio Joel, que calçava pelo menos dois números menos que ele.

-Queres dançar comigo?....ou será melhor: - Queres dançar?? Se sou eu a pedir, ela já sabe que é pra dançar comigo, ou não?!......Mas...não sei... gosto mais de :- Queres dançar comigo?, fica mais composto, é assim, e não há mais conversa!

Ajeitou pela última vez as calças, e rezou aos Santinhos todos para que os seus "haveres" de homem, desta vez se portassem à altura do acontecimento.

Corou...corava sempre que revivia aquele bofetão desconcertante. Apertou tanto a Luisinha , que começou a sentir o seu entusiasmo crescer ao ritmo da música. Ela também sentiu....chamou-lhe ordinário e tarado na frente do povo todo, e espetou-lhe um tal estaladão , que ainda hoje, três anos depois, a orelha onde assentaram os dedos da ofendida, lhe arde em lume brando.

Era uma cena para esquecer, mas o cabo dos trabalhos é que ele se lembrava sempre dela, e o medo, encostava-o às paredes das salas de baile, ou aos balcões dos bares, a dançar com raparigas nos braços de outros, colado ao chão, impotente naquele medo de rapaz a fazer-se homem.

Mas desta vez ia ser diferente! As pessoas já quase tinha apagado da memória aquele episódio sórdido e ridículo , e além disso não queria mais saber disso! -  Hoje vou dançar, e vou dançar com aquela rapariga do vestido amarelo, ou eu não me chame Zé Augusto!

Umas meninas a brincar de roda no meio do salão, travaram-lhe o passo,...e a coragem também.

Olhou para a roda, as meninas dançavam, cantavam, riam às gargalhadas, metidas nos seus vestidos de chita, feitos a primor para a ocasião. Laços de seda nos cabelos, pontas desfeitas, caras rosadas..ficou ali a olhá-las, parado num lugar onde não está ninguém, onde não se pensa, não se existe, não se está.

A voz estridente da menina a puxar-lhe o vinco das calças, acordou-o daquele torpor.

- Olhá lá! Estás a olhar prá onde?? Queres outro chapadão ?

A musica do acordeão era agora um coro de gargalhadas. Das meninas da roda, e de todos os pares dançantes. Raparigas olhavam-no com desmedido desdém, rapazes luziam irónicos sorrisos, e mães pulavam prá frente das filhas protegendo-lhes virgindades de areia.

Mas ele, já lá não estava, não podia estar, tapou a cara com as duas mão em concha, e saiu a correr, como um cão vadio com a cauda entre as pernas depois de ser apedrejado.

Nunca mais ouviu o silêncio. A sua vida desde esse dia foi sempre acompanhada por uma banda sonora de gargalhadas, que até ao fim dos seus dias fizeram dueto com o chorar das cordas de um violino, que tocava nos seus ouvidos a pena que tinha de si mesmo.

Não chegou jamais a saber, com que ânsias a rapariga do vestido amarelo esperou ser para ela que ele dirigia os seus passos pesados mas certeiros, naquele baile.

Não chegou jamais a saber com que força batia o coração dela, por ele. O violino tocou sempre mais alto.

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Sábado, 15 de Setembro de 2007

E viveram felizes para sempre!

Há datas que nos fazem parar e lembrar..

Pensar um bocado em nós, no que somos e porque somos.

Não é nem nunca foi minha intenção fazer deste sítio, um diário, seja no sentido literal da palavra, uma descrição do dia a dia da minha pessoa, ou no sentido mais generalista de ardósia de desabafos. Nada disso.

Mas é que há datas de que simplesmente é impossível não falar...ontem 14 de Setembro fez 16 anos que casei.

Parece que já foi noutra vida. E não digo isto de forma depreciativa, é apenas a constatação de como a erosão nos toma de empreitada.

Há 16 anos, nem eu nem o noivo, tínhamos peso a mais, preocupações a mais, rugas a mais, e por aí adiante.

Há 16 anos tínhamos uma vida inteira pela frente, e ilusões de que o amor e uma cabana eram efectivamente suficientes para caminhar lado a lado.

As ilusões foram obviamente dando lugar a certezas, umas mais amargas outras mais doces.

Não tenho já idade para acreditar em relações perfeitas, ou pessoas perfeitas, porque, sejamos honestos tal coisa não existe, nem aqui nem na China!

No entanto continuo a acreditar e a lutar todos os dias no sentido de fazer o caminho lado a lado com a pessoa que escolhi. Lado a lado e em frente.

Às vezes os caminhos são sinuosos, as palavras são íngremes e as paixões periclitantes .

Às vezes, os olhos são pesados, os julgamentos são injustos, os sorrisos são efémeros, e a paz é só um desejo.

Por outro lado, sempre que tropecei, houve uma mão a segurar-me, sempre que chorei, houve um conforto a apanhar-me as lágrimas, sempre que trabalhei demais nunca estive sozinha .

Três filhos. Três filhos é o balanço mais que positivo desta união de duas almas que nunca serão gémeas, mas que constroem com todas as suas forças uma relação que é bela nas suas incontornáveis imperfeições.

A verdade é que hoje eu não me concebo sem ele, sem eles.

O amor é uma coisa que fica mais bonita cantada pelos poetas, e eu não me atrevo a tanto. Mas esta força que me enche por dentro, quando estou aqui a escrever, agora mesmo, só pode ser amor por ele, amor por eles.

(A fotografia que se segue é mesmo a fotografia no dia......parece uma película de outras pessoas que não nós!)

 

 

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Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

A menina que não acenava

 

  • A noite apanhou-a trancada num medo antigo.
  • O vento falava com as madeiras cansadas das janelas da casa, e as respostas mais não eram que lamentos sentidos.
  • O Outono andava a rondar-lhe a cama, e os clarões dos relâmpagos que fotografavam as sombras dentro do quarto, eram mais que um presságio.
  • Trovões inundaram-lhe os ouvidos e encheram-lhe as mãos de um suor inquieto.
  • Havia muito tempo que não se sentia tão sozinha . As noites assim, de fim de Verão, tinham tido nela sempre esse mesmo efeito, o sentimento de ausência...dos outros e dela mesma.

Permitia-se sempre ter medo nessas noites. Podia meter-se debaixo dos lençóis , rezar fervorosamente, fechar portas e janelas, trancar-se por fora, e ver-se assim, como todos os seres vivos à face da terra, com aquela  ânsia que lhe acelerava o sangue, e,  que por aqueles dias, era a única sensação que lhe dizia que ainda estava viva.

Vivia numa solidão de cinema mudo, tudo o que via, eram lembranças que desfilavam para ela, sempre que as evocava. Desfilavam acenos e sorrisos de despedida, sem palavras, só acenos e sorrisos.

Habituara-se a viver assim. Não poderia viver com outro alguém que não fosse o vazio das paredes da sua casa, e os figurantes que acenavam nas suas memórias.

Lembrava-se sempre da sua 1ª Comunhão...não sabia bem porquê, mas essa sequência passava vezes sem conta à sua frente. Via uma e outra vez, aquela menina pequena e séria demais para os 9 anos, o cabelo preso num rabo-de-cavalo sisudo; a fatiota branca até aos pés atada na cintura por um cordão de seda amarelada pelos dias; e as mãos postas em oração, com um rosário de prata pendurado...

Um enorme altar de crianças risonhas, acenava-lhe um até breve, mas aquela menina, nunca!

Ficava ali, quieta, a olhá-la, e olhava-a com a mesma impavidez e desinteresse de sempre.

Ás vezes reconhecia-se naquela criatura ridicula e infeliz, e chorava com pena dela.

Outras vezes, via-se ainda mais pequena, sentada ao colo da avó, apertada num ramo de cheiros de hortelã e erva luisa, que vinha do cabelo cinzento entrançado num poupo.

A avó era sempre uma memória que a deixava feliz. Acenava-lhe e sorria-lhe, segurando nos braços aquela criança amedrontada. Nessas alturas, quase podia ainda sentir as mãos dela nos seus cabelos, e ouvir as suas palavras sábias, dizendo-lhe que "não era bom, falar no cheiro da terra depois de uma trovoada".

Porquê? Nunca tinha tido a resposta, mas apesar disso, e apesar de os pulmões se encheram daquele cheiro estonteante a terra molhada depois de uma trovoada, e apesar de o seu peito quase explodir de extase, ela nunca o disse, nunca falou desse cheiro. Com medo de quê, não sabia, nunca soube.

Os relâmpagos apagaram-se por fim,  e a noite pode cair abraçada àquela chuva, até de manhã.

O vento agora só já sussurava, e as janelas rendiam-se.

 

Havia já muito tempo que não se sentia tão sozinha .

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Sábado, 8 de Setembro de 2007

Presa por um Fio

Lembrava-se daquele dia com a mesma naturalidade com se esquecera de todos os outros.

Lembrava-se como do pelo do gato a insinuar-se por debaixo dos seus dedos, agora, naquela tarde fria e longe.

A euforia do sangue a correr dentro dela e a consciência pura da sua existência como corpo vivo, eram agora lembranças em cores pastel, em cores esbatidas como os dias que desde então passaram em frente do seu olhar.

Naquela vez, como em todas as outras, a noite deu lugar ao dia.

A noite tinha estado fria, de um esmalte fino e cortante, ponteada aqui e ali de luzes baças, e, exactamente duas horas antes do previsto o sol apareceu no céu.

Apareceu. Não houve madrugada, ou nascer do sol, ou laivos vermelhos de amanhecer. Nada!

Apareceu como uma visita que não se espera, pelo menos, não ainda.

Por todo o lado havia seres estremunhados, que saiam à rua, numa procissão sem precedentes. Olhos postos no céu, cegavam, com tamanha pujança de luz solar.

Tinha resistido à tentação de sair de casa, tinha feito pouco caso daquele astro que crescia do lado de fora de portas e janelas. Continuou a dormir um sono acordado pela claridade.

Já não se lembra bem como, nem tem já a exactidão de quando. Mas aconteceu.

A porta abriu-se com a força de uns braços curtidos por outros raios de sol. O silêncio que se fez  estremeceu as paredes de cal branca, os olhos encontraram-se, e viram o mundo a arder dentro daquelas paredes, mais do que ardia lá fora.

As cortinas pequenas não eram já cortinas, mas tristes rodilhas de pano retorcidas pela acção de um calor imemorável. Não se lembrava já se tinha sido o sol do céu, ou as chamas dos lençóis , que as tinham queimado.

E quando as paredes cederam aos tremores, e o mundo ruiu, numa derrocada de labaredas, ela sentiu-se presa à vida por um fio.

Lembrava-se, com o coração em brasas mornas, daquele dia fruto de uma noite insegura, que acabara antes do tempo.

 

 

Imagem de João Palmela  

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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

LENTES GROSSAS

Desde que chegamos ao mundo, somos pulverizados constantemente com os temores dos nossos pequenos ou grandes defeitos.

As psicologias de bolso, inscritas nas revistas de cordel, pseudo-ensinam-nos a lidar com os nossos handicaps .

Mas o muro das lamentações está lá, e ao invés de um pedido de clemência, o que lá depositamos mais não são do que cabeçadas. Marradas na ignorância. Na dos outros e na nossa.

Isto tudo para dizer que sou míope ...Altamente míope ...

Ou seja, vivo num limbo entre ter ou não ter os óculos postos.

Sem óculos, tudo se move numa tela de um qualquer artista abstracto, há pinceladas de cores que se misturam numa promiscuidade sem precedentes, expressões vazias de pessoas que afinal não o são, sombras que se adivinham, suposições, interrogações, incertezas, porquês, o quês? ondes ? quens ?

Com óculos, é um mundo centrado em torno destas duas lentes grossas, e que deixa de existir num estalar de dedos pra lá delas.

A minha mãe costuma dizer que tenho ouvidos de tuberculosa ( parece que os portadores da doença têm fama de ouvir muitíssimo bem), e não há muito tempo, uma amiga acusou-me de ter nariz de perdigueiro.

Este apurar dos outros sentidos, só pode ser uma rebelião de mim mesma à minha periclitante visão.

Só para dar um exemplo mais elucidativo, tenho quase todas as pessoas que conheço (pelo mesmo as que merecem) avisadas, no sentido de não levarem a mal se eu não as cumprimentar, quando passar de carro... em 40 anos de vida, perderam-se no infinito dos números, a quantidade de vezes que falei à pessoa errada, as vezes que cumprimentei um alguém que não conhecia de lado nenhum, as vezes que buzinei efusivamente a outro qualquer perplexo alguém....e por aí adiante.

Há uns meses pedi a uma criança que não conhecia de lado nenhum, que mandasse beijos e saudades à mãe......assim, a uns 5 metros de distância, aqueles rapazinho parecia-se tanto com outro, que eu, cegueta, como todos os dias, depressa o transformei naquilo que queria.

Chego a duvidar da lucidez do meu cérebro! Deixar-me fazer estas figuras tristes!

 

Podem rir à vontade.....quando me passa a vergonha, destas minhas precipitações, também largo umas valentes gargalhadas.

 

Apesar de tudo, no meu mundinho bordado a lentes grossas, os meus olhos alcançam muito mais do que aquilo que veem , e isso nem a puta da miopia me pode tirar.

 

 

Conheço tão bem esses olhos e nunca me enganam, o que é que aconteceu, diz lá é que hoje fiz um amigo e coisa mais preciosa no mundo não há [Sérgio Godinho]

 

 

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música: Com um Brilhozinho nos Olhos
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