Domingo, 27 de Abril de 2008

Lamento

Deste três voltas ao monte a lamentar a tua sorte..ou a falta dela.

Choraste às escondidas com pena de ti, com dó do teu infortúnio .

Bradaste clemência da tua pobre existência.

Sim! Cantam coros ao teu redor.

Haja piedade para tanta vaidade.

Lamentas, o quê?

Estás a carpir e só te ouve o eco de ti....e eu às vezes....

Decide-te!

Queres que te dê uma corda?

 

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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Subir ao céu

 

A chuva surpreendera-a a apanhar agriões nas margens do ribeiro.

Abrigava-se debaixo de gotas grossas e pesadas, de mãos dadas com a seara de trigo, que lhe segredava:

- Corre Rosa, foge que o céu vai desabar...

Rosa estava pasmada, e receosa. Num repente a flor do dia tingia-se de metal escuro, e o sorriso dela escorregara para o chão, agora de lama.

O coração batia alto, tanto que os ouvidos lhe doíam com o barulho.

Ou então era o troar dos trovões. A electricidade no ar, eriçava-lhe os sentidos, e o horizonte tinha-se dissipado em cortinas  de água cerradas como muros de betão.

Um dente de leão, despido pelo vento, assobiou-lhe em surdina à sua passagem:

- Corre Rosa, corre que o mundo se acaba, ou te acabas tu...

Rosa, acenou-lhe e continuou. As fontes latejavam de pressa fundida no medo, e acima de tudo, a prudência dizia-lhe que não era bom estar a céu aberto num dia marcado como aquele.

Arengava uma Magnifica enquanto tropeçava nas ervas...ou chamava Sta . Bábara ... - alguém por favor.

Avistou a cameleira antiga, que assinalava a fronteira entre as terras de S. Justa e as terras de ninguém, onde agora se perdia.

Um coelho bravo, a espreitar da sua toca, gritou-lhe numa voz fina e estridente:

- Rosa corre, deixa a cameleira florir em paz! As camélias gostam de luz...foge, que te encandeias!

Deixou o coelho pra trás. Só tinha olhos para a grande árvore, tão antiga como a terra que a acolhia,...era a única árvore num raio de muitos metros...além dela só as estevas do caminho das cabras, ou as ervas daninhas e as flores do campo, que vergavam rendidas com a força dos elementos.

Sentou-se encostada ao tronco seguro da cameleira, tentou lembrar-se de uma oração, uma que afastasse as trovoadas, ou ainda melhor, uma que a levasse a casa...

Uma poupa, voou por cima dos seus cabelos encharcados, guinchando:

- Corre Rosa, as camélias gostam de luz.....

A cameleira iluminou-se com um estrondo que vinha das entranhas antigas da terra, e choveram camélias na erva molhada.

No silêncio da terra queimada, nasceram rosas, e nelas pousaram pássaros de todas as cores.

Imagem by João Palmela

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Original Zumbido por meldevespas às 11:28
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008

Estória para adormecer...(III)

Estava farto da noite, o morcego de olhos vermelhos.

Era um vampiro míope, não via pescoços novos, nem velhos

Sonhava à luz do dia, com caçadas às claras

Ratazanas às fatias, cobras e moscas raras

Uma noite sem luar, em que o breu era total

Depois de um voo rasante, sobre uma teia sinistra

uma aranha viúva, com ares de quem é "a tal"

Apertou-o sem pudores, até lhe vazar uma vista 

Noutra aventura nocturna, já ia alta a lua

Saiu com toda a família , pra uma festa de rua

Numa investida mortal, à jugular de um pardal

Falhou o objectivo , por um centímetro fatal

Mordeu um cata-vento , no alto de um campanário

Partiu toda a dentadura, naquele dantesco cenário

 

- Deste momento em diante - proclamou com emoção,

Com os olhos vazios e uma muleta na mão-

- Só caçarei de pistola, de catana ou à pedrada

Já não vejo, já não mordo, a minha vida está finada!

@        @

 

Imagem by deviantart

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Original Zumbido por meldevespas às 16:55
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008

Atrevimento

Espreitou por entre os cortinados escuros. A luz do dia não mentia.

Tal como ela temia.

O tempo ameaçava sol.

O sol minguava-lhe os dias. Era fogo posto debaixo da sua roupa.

Tal e qual ela temia.

Fizera juras de clausura ao calor da rua. Promessas de portas fechadas à luz do branco das paredes. Jejuns de manhãs mornas na soleira da porta...

O sol minguava-lhe as horas e acrescentava-lhe a inquietude.

Apertava a camisa com força contra o peito.  Tinha que travar o bater de asas ali dentro. Os nós dos dedos empalideciam. Os lábios também.

Uma abelha pousou na flor de laranjeira, daquele ramo que quase batia no vidro da janela....

se agora abrisse a portada, só uma fresta pequenina, o cheiro a laranja doce e pólen acabado de colher ,  iam entrar-lhe pelo nariz e amolecer-lhe as pernas, e  era certo, as pontas dos dedos gritariam por frutas e sumo e pêssegos suaves...

A abelha zumbia mansinho...ela arrependia-se baixinho...jamais abriria a janela num dia como este! Um dia de horas minguadas e euforias em crescendo.

Continuava ali. Prostrada junto ao vidro quente. Se ao menos chovesse dias a fio. Se o céu arrefecesse e se enchesse de cinzento...ela podia então largar a camisa sobre o peito...livre...sem temores de revoadas de pássaros e pousos de insectos.

E voltaria a ser ela, firme e sem pele...e sem sede de frutas ou fome de sumos...

Tinha a boca seca.

Caiu de joelhos no chão de mosaicos frios e chorou.

As mãos soltaram a camisa que teimava em abrir...

A abelha zumbia baixinho.

Ela atrevia-se, devagarinho... 

 

imagem by deviantart 

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Original Zumbido por meldevespas às 14:32
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Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Quando o sol desiste

Era a última hora de sol daquela tarde de Abril.

...e ainda caminhava, numa matriz copiada até à exaustão. Um pé depois do outro, sempre no ritmo marcado pelo calor do macadame.

O passo era certo e firme...o destino...era a vontade de chegar.

Onde?

...

Caminhava ainda, o sol desistia devagarinho, o homem não. Ainda não. Mais um pouco de estrada, não faltava muito para chegar.

Onde?

...

Sabia-o. Sempre o soubera. Caminhava porque sim.

Era peregrino do caminho por fazer.

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Original Zumbido por meldevespas às 10:35
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