Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

A queimar a vida

 

 

Acendeu um cigarro, e sorveu-o com urgência. Fazia sempre assim quando as recordações começavam a chegar.

Estava sentada numa cadeira. Os braços dobrados pelos cotovelos, apoiados numa mesa redonda. As pernas por debaixo da toalha da mesa que tocava ao de leve no soalho bem encerado. Os livros abertos, forravam a mesa de forma desordenada. Estavam calados. Sempre lhe tinham dito que os livros falavam...mentira crassa! Os livros calam, guardam, envelhecem. Tirou outra passa vigorosa e a brasa incandescente quase lhe queimava a pele dos dedos. Os dedos estavam feitos livros....velhos, amarelentos, calados.

Tinha um casaquinho de caxemira vestido. Era macio, e quente..e ali sentada, era certo, arrefecia depressa. Era cruel aos resfriados. não era preciso muito e lá vinha o martírio do nariz entupido, as dores no corpo, as noites de chá quente com mel e folhas de eucalipto.

Era Agosto.

Mas só lá fora.

Ali na sala, era sempre Novembro.

Tirou um cigarro, da caixinha de prata monogramada, e acendeu-o, aproveitando o borrão do outro ainda em agonia no cinzeiro.

Olhou as folhas quietas na sua frente. Folheou o compêndio de matemática uma e outra vez, sem nexo. Tirou os óculos que repousavam com displicência na ponta do nariz, e pousou-os agora nos papeis mudos.

Há quanto tempo estaria ali?

Não tinha filhos de quem sentir falta, ou marido para chorar...

Então do que se lembrava?

Talvez fosse das vidas dos outros. De todos quantos enfrentavam perigos nas páginas impares de um qualquer livro, e lutavam com monstros inóspitos na capa de um outro, ou faziam amor capítulos a fio. Sempre silenciados na última página...

Ou então a vida dos vizinhos. Via-os todas as manhãs quando saía para comprar o pão. trocavam bons dias formais, gravados em fitas antigas desde há anos e anos...Já ali estava, sentada quando eles casaram. Sorriam um para o outro e olhavam-se de frente, depois só já sorriam, e agora também eles viviam no silêncio dela, sem mais memórias que sorrisos de papel colados em álbuns meramente decorativos. Sorrisos que podiam ser de qualquer um...ou de ninguém.

Recostou-se na cadeira de espaldar alto, e puxou o fumo agora devagar e profundamente.

Sentiu os pulmões estalar de prazer e esboçou um sorriso discreto. Será que eles, os vizinhos, também tinham memórias como ela? Assim, vazias de gente, ausentes, sem cor, sem cheiro.

As suas cheiravam a cigarros fumados com urgência.

Pegou na esferográfica de tinta azul, e escreveu na folha em branco prostrada à sua frente:

As minhas memórias

depois riscou por cima, para voltar a escrever em baixo:

As minhas recordações...

olhou, e decidiu-se por um ponto de exclamação no fim:

As minhas recordações!

Dava mais ênfase à frase, e dava mais peso ao vazio que se lhe seguia.

Seria a tão falada angustia da folha em branco? - agora sorriu com gosto, mas de forma breve...Não, não tinha nada a ver com papel...

Era mesmo a angustia da vida em branco.

O silêncio cresceu para além dela.

Uma vez, um dia,  tivera um amor...recordava-se agora.

Encontraram-se num café...não, não, foi numa esplanada. Era Agosto!..ou Setembro, já não sabia bem. Ele trazia um chapéu preto e fumava um charuto cubano que cheirava a rum com chocolate preto. Ou seria Whisky com cacau? Mas fumava. Disso tinha a certeza!

Ela pediu-lhe lume. Ela tinha uma voz rouca e exalava um fumo adocicado quanto falava.

Caia uma chuva miudinha, e o Inverno insinuava-se como uma mulher da vida...

Mas era Setembro!

Uma vez, um dia ela tivera um amor, uma paixão avassaladora, mas o livro terminara, e finda a leitura, fechara-o e jazia numa estante daquele imenso cemitério de palavras que era a sua sala, a sua casa, a sua vida toda.

Apertou o casaquinho de caxemira delicado com as duas mãos junto ao peito. estava a ficar frio. 

Era Agosto.

Tirou outro cigarro da caixinha monogramada de prata, eternamente aberta, e fumou-o com urgência. 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 17:19
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Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Do amor incondicional....

 

"Pois é... pois é..... caro Ulisses..... queria, e digo-o com sinceridade, ter melhores notícias para si......"

O espaçamento velado com que debitava as palavras, deixava antever a tragédia da circunstância.

Ulisses cerrou os punhos por baixo da mesa, engoliu um travo de ar fechado e acre, e quase a medo, procurou os olhos do seu interlocutor.

".....pois é.... meu caro.....tem que ser corajoso, e pensar sempre que não está sozinho neste mundo... e além disso....."

"Ora por favor!!! - Ulisses estava a perder o chão - deixe-se de rodeios Baltazar!!!! Conheço-o não é de hoje! Se não fosse grave o que tem preso na garganta, não me tinha sequer chamado... sabe bem que coragem é coisa que não me falta..."

"É a sua mulher Ulisses....você...ela...."

" Eu sabia..." - foi mais um rugido que uma frase articulada - " continue!" - e agora era uma ordem dada com uma frieza que gelou as dobradiças da porta entreaberta, e pulverizou uma geada fininha no compartimento acanhado.

Uma tontura derrubou-lhe a vontade,   o filme do fim antecipado alagou de luz as lembranças desbotadas de toda uma existência.

Não tinha sido a mais perfeita das companheiras.

Os 10 anos de casamento tinham sido intercalados por interregnos de incertezas, desamores, outros amores e bastas de todas as espécies.

Era no entanto uma mulher apaixonada... não o podia negar. Jamais voltava as costas ao chamamento dum macho...

Ulisses gostava dela assim mesmo, desculpava-lhe os deslizes, amparava-lhe as quedas, macerava as pequenas vergonhas sozinho, calava injúrias e engolia olhares apiedados.

-É um pobre diabo nas mãos dela - diziam as vozes num coro celestial e eterno, que lhe embalava os sentidos há já quase 10 anos.

Mas Ulisses tinha por ela sentimentos que todos os outros pareciam não entender...

Nunca lhe tinha passado pela cabeça desfazer os santos laços do sacramento que tomara com as duas mão abertas, e tinha sempre presentes as palavras sábias do seu avô, que por altura do primeiro fogo de palha da sua amada, lhe disse: - Conforma-te rapaz...e cala-te bem calado. Vais fazer o quê? Trocá-la por outra? Esta já tu sabes como é.

Ulisses calara. Sempre. O amor doía-lhe tanto.....

E agora?

Já não sabia se queria continuar ali a ouvir o que Baltazar tinha pra lhe dizer.

Sempre preferira a ignorância.

Eram tão novos. Mal ou bem tinham tanto pra viver.

Queria voltar pra casa, abraçá-la e dizer-lhe que a amava e que estaria sempre ali como um muro de betão, forte e audaz a protegê-la de todo o mal.

Levantou-se deixando para trás a cadeira tombada num estrondo. Sentia os ouvidos a zumbir, a boca cheia de terra, e o coração a ganir como um cão sem dono.

"Não! Não quero ouvir...se é sobre ela não quero ouvir! Não importa, mais nada Baltazar, ouviu?! Se ela morre, eu dou um tiro nos miolos em cima do cadáver dela! Por isso cale-se agora! Não quero saber, nunca quis saber nada.... agora muito menos......" - caiu sentado no chão, a cabeça pendurada sobre o peito, o rosto escondido pelas mãos em concha, o choro calado do hábito.

" Ulisses, também não é caso para isso homem de Deus!

 A sua mulher pôs-lhe os cornos! É isso... pronto... agora já disse! "

A geada destilada pelo olhar de Ulisses há poucos minutos, dissipou-se num hálito quente, e o silêncio durou o tempo de se erguer do chão, sempre a fitar, incrédulo, um expectante e assustado Baltazar.

" Então é isso!?" - o outro acenava paternalmente - "Então é isso!!??"

Sempre com a mesma pergunta, Ulisses saiu para a rua a correr como um galgo no cio.

Tinha que a beijar, tinha que a avisar que afinal iam mesmo ser felizes para sempre!

 

imagem by deviantart 

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música: Perfídia - Nat King Cole
Original Zumbido por meldevespas às 18:51
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Quarta-feira, 6 de Agosto de 2008

Redundância

 

 A Terra aplanara-se só para eles, por causa deles.

Sem sobressaltos de montes, ou percalços de vales.

Mais que uma planície, era um campo aberto, raso das certezas do amor de ambos.

Por baixo dos corpos, nada mais que o ranger primitivo da roda terrestre, por cima um céu  intermitente de azul antigo e prata.

Estavam de mãos dadas. Ele estendido na erva lisa, de pernas abertas, o braço esquerdo ao cimo do corpo, com a mão a servir de almofada à cabeça, e o direito a escorrer na direcção dela...a desaguar na mão dela.

Ela sentada sobre os joelhos dobrados, numa prece repetida desde sempre. Olhavam as estrelas e amavam-se com a placidez de alguém tão velho como o azul do céu  .

Ele amava-a porque ela tinha luz própria. Ela amava-o porque ele não tinha recantos nem segredos.

Num minuto, ele ficou sentado ao lado dela.

Mão na mão.

Olhou-a com demora, detendo-se nos lugares mais amados. A curva dos lábios a sorrir, a sobrancelha esquerda sempre um pouco mais arqueada, as pequenas rugas de expressão no canto dos olhos...era tão bonita...

Com a outra mão, puxou o maço de tabaco do bolso da camisa. Tirou um cigarro, ofereceu-lhe um a ela, que aceitou, e riscou um fósforo para os acender.

Deu uma baforada longa e funda, olhou o céu vazio, e disse-lhe:

- Amo-te tanto... Toma...a tua mão. Guarda-a para ti. Amo-te, não fiques comigo para sempre!

Ela olhou a mão solitária, depois de vidas siamesas quase eternas. Sentiu-se despida. Abraçou-se com força e sorriu-lhe. Nos seus dentes viam-se néones de todas as cores e ruas de cidades grandes, e o seu olhar encheu-se da neblina densa só vista nos colossais portos marítimos.

Ela então levantou-se sem nunca descolar os seus olhos dos dele, acenou com a mão renovada pela liberdade e anunciou :

- Também te amo. Encontramo-nos no cimo duma montanha qualquer, ou na profundidade de um desfiladeiro.

imagem by deviantArt

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 15:35
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