Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

O Canto da Cigarra

 

 

Não havia quem escapasse ao calor.

A tarde ia adiantada, e o sol desaparecia na linha do horizonte, com uma lentidão castigadora.

O ar estava saturado de cheiros e sons, e uma humidade pesada entranhava-se dentro das gentes com ânsias e desgostos.

No Monte da Ribeira, a família voltava a casa depois de mais uma jornada de trabalho duro, à volta das searas de trigo a amadurecer prematuramente.

A impaciência trazida pela cantoria de cigarras e grilos, espelhava-se nos rostos, que mal se olhavam ou sequer falavam. Semblantes carregados de suores e pensamentos de fuga, olhos pregados no chão, gargantas sufocadas de pó, mudas.

O cheiro a orégãos e poejos alucinava os mais audazes, e desmaiava em gemidos nos corações dos amantes.

Sentaram-se à mesa, em silêncio. Um enxame de abelhas aproveitava os últimos vestígios de sol para namorar a videira que fazia sombra mesmo na soleira da porta. Era a derradeira sedução.

Os zumbidos inquietavam as crianças dentro de casa, e ensadeciam os adultos amortalhados em lume forte.

Vicência empurrou o prato do jantar. Não era capaz de comer. estava a ferver. Quem é que pode comer isto? Agarrou uma laranja e desapareceu porta fora.

A penumbra do entardecer pairava no ar, antecipando mais uma noite abafada. Vicência sentou-se na beirada do canteiro do limoeiro. A terra acabada de regar, exalava uma réstia de paz . Era uma rapariga esquálida, de pele macilenta e ar desleixado. Estava bom de ver que a natureza não tinha sido generosa com ela, e a vida nao era mansa, apesar da pouca idade. Envergava um vestido verde de chita desbotado. Um vestidinho feio e velho, tão isento de graça como ela própria.

Brincou com a laranja, de uma mão para a outra, os olhos castanhos, pequenos mas tenazes perdidos na escuridão que se ia derramando em redor do monte. De vez em quando passava os dedos pelo cabelo, tentanto domesticar a madeixa pesada que teimava em cair-lhe para a testa. Sacudia as formigas que lhe subiam pelos pés descalços. Suspirava fundo por um pouco de brisa fresca, e a ansiedade morria-lhe na boca seca.

Apanhou um gafanhoto pousado no tronco da árvore, acariciou-lhe as asas, as patas ásperas, a liberdade de sair dali...

O odor forte da dama da noite que trepava pela parede lateral do monte, levou-a a sitios distantes. Não que ela conhecesse mais algum sitio além do monte e do vilarejo que ficava ali perto...mas sabia que havia outros lugares....ruas largas, iluminadas por candeeiros altos, e ladeadas de lojas e jardins e pastelarias e... tantas coisas boas. lugares onde as mulheres se vestiam de sedas e rendas tão finas como o luar da lua nova, e pintavam os lábios de carmim...Sentiu um rubor subir-lhe ao rosto, a única vez na vida que tivera um batom, comprara-o na feira de Agosto às escondidas dos olhos de águia da sua mãe.  À noite, no baile das festas em Honra de Nossa Senhora da Conceição, atrevera-se a passar um pouco de cor nos labios, numa ida as casas de banho públicas com uma amiga. Sentia-se bonita quando voltou ao recinto do baile.

Por azar, a primeira pessoa que encontrou foi o pai, já desconfiado da sua ausência. Mal a viu, cerrou os olhos de aço, agarrou-a por um braço arrastou-a até ao local onde a mãe e a avó estavam sentadas. Mete-me os olhos nesta vergonha! Disse entre dentes para a mulher. É isto que lhe ensinas!? Parece uma mulher da vida!

Tirou um lenço do bolso e com uma força desmedida esfregou-lhe a boca. O baile acabou ali. Ficou o travo da vergonha e da raiva, e uma nódoa negra no braço, que lhe lembrou o feito durante mais de um mês.

Outra vez as formigas! Bateu na perna com força. A raiva era sempre exorcizada com mais raiva.

Nesses lugares lindos, que ela sabia que existiam, apenas não sabia onde,  havia perfumas caros, e bouquets de rosas e violetas, e bombons de chocolate macio recheados de licores delicados, e embrulhados em papel de prata e ouro, e os homens eram suaves como veludo, e....Tantos "e"! sorriu, afastando as formigas numa caricia....Agarrou num ramo de limoeiro seco, e desenhou uma flor na terra poeirenta, depois outra, e mais outra, um ramo inteiro de flores, rosas vermelhas. Lá os homens eram gentis, de voz segura e terna. inclinavam-se na presença de uma rapariga, e ofereciam presentes finos.

Encostou-se ao limoeiro. A arvore estava fresca da rega, e ela cerrou os olhos de prazer e gratidão por esse momento.

Desapertou os botões do vestido camiseiro, e sentiu uma aragem leve nos seios pequenos.

Oh de casa! A voz estridente fê-la abrir os olhos de repente... era o Bento pastor...

Mal a viu ali sentada, acenou-lhe e correu para lá. Olha o que trouxe para ti. Abriu o embrulho de papel pardo e deixou à mostra dois queijos acabados de fazer. O cheiro a soro de leite ainda quente das tetas das cabras acordou Vicência.

Levantou-se sem pressas, apanhou o embrulho, agradeceu com um sorriso morno, e estendeu a mão ao rapaz.

De mãos dadas, percorreram o caminho até à porta de casa. Mãe! está aqui o Bento, trouxe queijo fresco...

Bento sorria, tinha o mundo nas mãos.

Vicência caminhava descalça, reconciliando-se com o pó da terra e o calor da noite.

 

image by deviantart 

 

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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Sem Formolidades

 

 

 

 

Jogou-lhe as mãos à volta do pescoço. Num suspiro gemido disse-lhe ao ouvido:

- o nosso amor é eterno!

ele deixou-se rir:

- não, o nosso amor é etéreo... deixemo-nos de eternidades que só a palavra me devolve um cheiro velho, a velhos e compressas de formol, o som cruel dos carrinhos de soro lavado a morfina a dedilhar corredores de mármore num passo arrastado sem fim......

o nosso amor está acima de tudo isso, está longe do envelhecimento da espécie, e próximo da permutação do ser, que se lixe a eternidade!

- ...m ..mas eu só queria dizer, que o nosso amor é para sempre....

- esquece o para sempre! esquece! - exasperou-se - para sempre são bocas cheias de terra, entendes? para sempre são corpos cheios de algodão...se te amar para sempre... acabamos mortos. Já pensaste nisso?

Agora o queixo tremia-lhe. As lágrimas ameaçavam transbordar, e transformar aquele fim de tarde, num dilúvio:

- Só pensei... que me amavas...

- E amo! Amo-te agora, hoje, aqui.

 

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