Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010

Um presságio de chuva

Os Domingos eram sempre mais calados que os outros dias da semana. Maria Eva sentia-se incapaz de se levantar do sofá. Prostrada, num torpor letárgico que lhe esvaziava os sentidos. Deitou a mão ao maço de cigarros que jazia expectante na mesinha de serviço, ali ao lado. Tirou um, acendeu-o e deixou-se ficar ali a expelir argolas de fumo, e a desfazê-las com o dedo indicador.

É melhor levantar-me, tomar um banho quentinho e ir à minha vida. Pensou.

A sala, estava ainda na penumbra da manhã cinzenta, e a televisão ligada, passava um filme qualquer a preto e branco, num desses canais de cabo sem legendas. A heroína estava a fugir da casa, despedia-se com um último olhar, e fechava a porta atrás de si. Era o que parecia, mas também podia estar apenas a sair para ir visitar uma amiga. De qualquer maneira, não estava a prestar atenção ao filme. Desde que tinha ficado sozinha por morte dos pais, habituara-se a ligar a televisão mal acordava, e nem sequer a desligava quando saia para o trabalho. Assim, no regresso, tinha sempre a sensação de ter alguém à sua espera. A verdade é que nunca ninguém esperara por si. Os pais apenas suportavam a sua presença. Uma filha solteira, e ainda por cima falada, não era o mais desejável naquela aldeola de interior. Nem dada te querem! - dizia o velho Matias, já na cama feita pelos últimos dias de um coração fraco como o carácter que Deus lhe dera e a mesquinhice cimentara.

Cala-te homem! Não digas heresias! Se alguém te ouve falar assim, da tua própria e única filha! Matias calava-se, cerrava os dentes e em silêncio, alimentava com vontade uma raiva surda.

Maria Eva aprendeu a viver com os humores do pai. Desde cedo. Desde aquele dia, perdido nas lembranças de um fim de Verão distante.

Tantas vezes já se não lembrava quantos anos tinha. Tinha-se ficado na contagem pelos quinze anos, e depois deixara as contas esquecidas nos calendários da oficina do Zacarias pendurados a cada Janeiro na parede da cozinha, mesmo ao lado do frigorifico. Se fechasse os olhos por um bocadinho só, podia sentir o suor das noites quentes. Era melhor estar de olhos abertos, pensou ao mesmo tempo que enxotava o passado da sala como uma mosca peganhenta.

A avó Manuela, tomou-a no seu colo, aconchegou-a como um animal que cuida da cria depois de uma tempestade. Afagou-lhe os cabelos, secou-lhe todas as lágrimas, calou-lhe as mágoas e humilhações da rejeição, tapou-a com as suas mãos enormes de mãe duas vezes. Não poucas vezes, a avó repetia-lhe baixinho, quase num sussurro, não te esqueças que carregas a força do teu nome, Maria de mãe do Céu, e Eva a primogénita do mundo dos homens. Acreditou.

O calor do dia, acalmava a sede nas noites calmas. As mãos dadas às escondidas debaixo das cameleiras do Jardim Municipal. Acreditou.

Que o amor era eterno, que o amor vencia tudo, que o amor era inocente. Não tinha duvidas.

Em Agosto, as flores exalam cheiros fortes, e abrem de noite a pensar que é dia, e fazem-se bonitas, e acham-se bonitas.

Maria Eva fez-se flor, e o Verão adoçou-lhe os aromas.

Não devia ter acreditado. Era Verão e as palavras não pesam nada e os sentimentos são leves e fátuos.

A flor é arrancada da terra, sem pudores, e tudo o que poderia ter sido esvai-se com as primeiras águas de Setembro. E as raízes apodrecem na terra num estertor de vergonha.

Matias nunca foi capaz de perdoar à filha o escárnio dos homens nos cafés da avenida. Foi impotente para calar as bocas lascivas que machos como ele debitavam em gestos e sons.

Trinta anos. Se não os tinha, haviam de estar perto. Trinta Invernos.

A mãe Luzia, era uma formiguinha atarefada, cozinhava e limpava e lavava e aspirava, noite e dia e dia e noite, sem metas, sem propósitos, sem força nem querer. Fechava os olhos e cantava uma moda em surdina. Espantava o mau tempo, e nela era sempre Primavera. Maria Eva invejava-a. Na vida, jamais tinha invejado nada. Não depois do Verão mais quente que havia memória. Mas a placidez aparvalhada da mãe, isso sim, invejava.

Apagou o cigarro no cinzeiro de vidro fosco e levantou-se devagar.

Voltou ao quarto, acendeu a luz do candeeiro do toucador, e sentou-se na cadeira em frente. Aquilo era o que restava dela. Um tocador pintado de cor-de-rosa, a fotografia desbotada de um cantor colada com fita adesiva amarelada, no canto superior direito do espelho. Uma caixinha de musica, com uma bailarina em pontas que rodava ao som do Lago dos Cisnes.

Era melhor ir tomar um bom banho. Ontem à noite no caminho de casa, quase pisara um sapo. Havia um sapo no passeio. Um animal nojento, inflado, ponteado de manchas escuras. Desviou o passo mesmo a tempo. A avó Manuela dizia sempre que os sapos eram presságio de chuva.

Não se enganava. A manhã soletrava pés de vento, e Maria Eva sentia-se menos só por causa disso. Era mesmo melhor ir tomar um bom banho.

Passo a passo, memorizava o solfejo gotejado dos beirais, e adivinhava nele uma canção fora de moda.

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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Brandura

 

Clarinha olhava a rua, com olhos de chuva em Abril. Debruçada na janela sentia o deserto da calçada no seu peito, e sustinha a respiração ao bater de asas de mais um pombo que passava na direcção do pombal do Domingos. Os pombos eram uns seres estranhos, cinzentos como um fogo apagado, tinham um voo quieto e um arrulhar rouco, segredado. Nunca gostara deles. Encolheu-se, e levou as mãos ao peito apertando a camisa de cambraia. O voo do pombo tinha puxado o fim da tarde, e o sol virou a cara encandeado com o cinzento alado que lhe roçou o último raio da tarde.Clarinha estancou a chuva no olhar e deixou o luar iluminar o chão encerado da sala. Fechou as portadas e esqueceu os pombos, o sol, e o Domingos.

Em cima da mesa, passado a ferro com esmero, descansava um traje de dama antiga. Os olhos de Clarinha olhavam como chuva de Abril, mas era apenas Fevereiro. Um vestido branco de cetim cristal, pesado e brilhante, rematado de folhos amarelos de organdi, e laços esvoaçantes no decote profundo. Um chapelinho de abas curtas, em palha escurecida pela sombra da espera, completava o conjunto. A avó Angélica, tinha deixado tudo direitinho como sempre, mas Clarinha já não tinha vontade de brincar como dantes. A Avó Angélica fazia-lhe bonecos de trapos pra ela sair à rua no dia dos Compadres. Vinham em ranchos, as raparigas, de um lado, os rapazes de outro. Corriam atrás uns dos outros, cantavam ao desafio, e desfiavam quadras de paixões encobertas em gargalhadas e toques furtivos.

Os dias de Fevereiro tinham ficado sem sol, e as matinés do Clube eram agora sombrias e desprovidas de encanto. Clarinha pegou no vestido, colocou-o à sua frente e ensaiou uns passos de dança na sala ampla. Sorria, enquanto trauteava uma valsa alegre, e rodopiava. Os folhos de organdi ondulavam e o vestido brilhava incandescente. Cansada deixou-se cair no chão, o vestido desmaiado ao lado dela, extenuado de voltas e valsas.

Estava escuro. O luar empalidecera de espanto. Talvez de a ver valsar assim, enquanto espreitava pelos vidros da janela de sacada. Puxou os joelhos até ao peito, e deixou-se ficar ali abraçada a si própria. Estava tanto frio. A casa sempre fora fria, mas a Avó tinha o cuidado de fazer lume. Um lume doce, morno. Quantas vezes adormecera com a voz do lume a contar-lhe estórias de princesas mágicas, amores trágicos, fugas épicas e lutas de papel! Logo hoje, que a noite estava tão fria, e o luar tão pálido, logo hoje não havia fogo aceso. O vestido. Lembrou-se. Apanhou-o do chão e cobriu os braços nus com ele. Adormeceu assim, enroscada em cima do soalho encerado.

O dia amanheceu, outra vez opaco. Uma névoa branda, compunha as ruas da vila. No terraço, Domingos treinava os pombos-correios para o próximo concurso, uma cana, com um saco plástico branco atado na ponta, era brandida com suavidade calculada.
Hoje, como todos os dias os seus olhos procuravam o mesmo. A janela de vitrais do casarão do largo. Aquele mausoléu despido de gente e de vida. Esventrado há décadas. Violado de portas e janelas e louças, e tudo o que naquela noite de Fevereiro tinha escapado ao incêndio A janela de vitral, permanecia intacta, teimosa, superior às chamas, superior à morte, a encher de reflexos a rua em dias de sol, a encandear os pombos, que cegos se acabavam em voo picado até ela.

Um carro alegórico anunciava em alta voz, o desfile de carnaval. O dia chorava a lembrar-se de Abril, mas era apenas Fevereiro.

 

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Segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Cegueira (O cheiro das coisas)

 

Este conto, trata-se de uma re-postagem de Maio de 2008, recuperado agora para o desafio da fábrica das Letras para o mês de Fevereiro, subordinado ao tema "Velhice".

 

Os olhos cegos de Jacinta moviam-se numa velocidade inquieta.

Buscavam terra firme. Há quanto tempo nadava, naquelas águas fora de pé. Já mal se lembrava de como era sentir a terra macia a ceder ao seu passo.

Uma maleita estranha ainda nos seus verdes anos tinha-a atirado para o nada em que vivia agora.

A principio a dor de perder o mundo, era aplacada pelos cheiros ou pelos toques.

O seu corpo era ainda um pomar de frutas maduras na ânsia da colheita.

Quando ele chegou, com voz mansa e mãos quentes, ela cedeu na árvore.

Depois ele partiu.

Deixou-a despida e fria.

Ele cheirava a tabaco barato, e tinha um hálito que ateava fogueiras  por onde passava.

Jacinta lembrava-se de sentir crescer um rubor dentro de si, que se espalhava como uma peste, quando  o cheiro dele invadia os seus pensamentos.

Aos poucos tudo à sua volta perdeu o aroma. Permanecia apenas um travo a mofo, que era pouco mais que uma corrente de ar.

Era quase como quando chove uma semana de seguida, e se fecham portas e janelas...

Só que ela estava à chuva. E aquele bafio subtil era ela a envelhecer numa inusitada e húmida escuridão.

Partira sem um adeus.

Deixou-a despida, com um buraco cavado fundo no peito, onde ela enterrou os cheiros das coisas.

Estava exausta de nadar fora de pé.

Sentia falta de sonhar.

Pés descalços, correrias, risos, gargalhadas, beijos, mãos, terra molhada, fogueiras...ele.

Já não conseguia ver os sonhos. Era cega, afinal... Ele deixara-a fria e cega.

Encostou a cabeça no espaldar da cadeira de braços, precisava tanto de descansar...ou então de voltar.

A essência de mulher pomar, tinha-se esvaído com o correr dos dias. E os dias tinham deixado de contar desde que a porta se fechara nas costas dele.

Ali, agora, neste instante, só pernoitava uma alma vazia de sonhos, e cega de vida.

O gato pardo, regressado da caçada nocturna, saltou-lhe para o colo.

Jacinta afagou-lhe o pelo farto, num gesto cúmplice, e o bicho retribuiu com um ronronar satisfeito.

Por breves instantes, na sala abafada, um cheiro a tabaco barato adoçou o ar. 

 

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Original Zumbido por meldevespas às 15:33
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