Quarta-feira, 2 de Junho de 2010

Sem fim

 

 

Acordou com o estrondo da garrafa de cerveja vazia a cair no chão. Não sabia há quanto tempo ali estava. Agora não restava mais ninguém, só ele, ali aventado numa cadeira de madeira surrada e manca. A boca sabia-lhe a tinta da china e o estômago pulsava nervoso. Cerrou os dentes e fechou os olhos enquanto passava a mão pela testa. Onde estaria toda a gente. Porque não lhe tinham dado ordem de saída? A cabeça doía-lhe, parecia que todos os ossos estalavam. Fechou os olhos com mais força e deixou cair a cabeça nas duas mãos. Os cotovelos apoiados nos joelhos, o vómito a ameaçar a sua existência embaciada. Vou ficar aqui só mais um momento, o suficiente para esta indisposição passar. Que merda, quem me mandou beber assim. O mundo não acabou! Aposto que a cerveja também não, acabei-me eu.

A garrafa vazia jazia a seus pés. O troféu de uma noite de promessas amarrotadas nas mãos de outrem. O ar estava saturado de cheiros de fim de festa, pontas de cigarros, cerveja derramada em baforadas de espuma, gargalos ocos. As pranchas de madeira encerada no chão do salão, amanheceram ainda atapetadas de serpentinas e papelinhos coloridos, uma inundação de sonhos a cores acabados debaixo dos pés. O vazio da sala tomou conta dele, sentiu-se dominado, diminuto. Se a mãe o visse naquele estado havia de dizer-lhe que ele era um reles, um estafermo, havia de apontar-lhe o dedo indicador ao nariz, atirar-lhe à cara o pai bêbedo que se esforçava por igualar, até ao fim, até à cova funda, onde o amortalharam muito antes do tempo dele. E ele não poderia negar nada. Nem a vulgaridade, nem a bebedeira, muito menos a vontade que tinha de morrer agora. A morte era mais morna que aquele fogo que tinha no estômago. O fim era mais clemente que a lamina de aço encostada à sua garganta.

Levantou-se devagar. O salão de baile dançou à sua volta. Um odor a suor toldou-lhe a lembrança da noite passada. Ela estava tão bonita. Cheia de si. Nem reparou nele. Nem reparou no buraco vertiginoso no peito dele, cheio de quase nada. Como foi capaz de ser tão cruel? Nem um olhar de soslaio. Nada. Só risos e as mãos daquele outro a marcar território nos seus quadris.

Ensaiou um passo. Tentou equilibrar-se, tinha os pés dormentes, as pernas pesadas. Ao que tu chegaste, pensou com uma pontada de pena. Os últimos tempos tinham sido cruciais para levedar o sentimento de auto-comiseração. Tinha chegado ao ponto que não sabia dizer, nem no recato da sua intimidade, onde terminava a culpa e começava a pena, e qual das duas o esvaziava mais.

Os olhos raiados de vermelho, doíam-lhe ao insuportável, e o sol matinal a insinuar-se pelas janelas altas do salão era uma arma letal para o seu equilíbrio. Levantou a cabeça e passou uma vista à grande sala, ainda engalanada. Os candelabros antiquissimos com pequenos vidrinhos lapidados, as paredes forradas a meia altura de tecido adamascado púrpura e vermelho sangue, com altos rodapés de madeira envernizada. Balões de papel frisado pendiam do tecto de estuque floreado, pendurados em longas varas de aço fino. Estava vazio. Não o salão. Ele. O salão estava imerso na letargia do depois. Lânguido, altivo, sujo ainda. Ele não tinha nada. O antes o depois, o agora. Fundia-se tudo no nada.

Caiu de joelhos e vomitou. Uma espécie de remorso tomou conta dele, mas só um instante. Podia ser tudo diferente. Deslizou para o lado e deixou-se ficar ali, caido no chão. O frescor da madeira aliviava-lhe as dores no corpo. Por cima dele o tecto de estuque imaculado. Ela estava tão bonita. Tão cheia de si. Nem reparou nele. Fechou os olhos. Daqui a pouco viriam varrer o salão.

 

 

 

 

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