Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

Azul

 

 

 

Ezequiel acordou de mansinho, foi amanhecendo para a claridade, sem pressas, e foi também sem pressas, que despertou nele a consciência de que tinha finalmente chegado o dia que aguardava desde que o tinham aventado para este mundo.

A sombra de uma nuvem escureceu-lhe o olhar, mas não mais do que dois efémeros segundos. Hoje não era dia para amarguras. Esfregou os olhos com um vigor de outros tempos, e de um impulso pulou da cama, e puxou as cortinas grossas.

Levou a mão aos olhos, para os proteger da luz intensa do sol maduro de Agosto, e ficou ali até habituar o olhar ao massacre solar de espreitar a rua.

-Que belo dia.... - pensou - é hoje ou nunca mais!

E nunca mais era muito tempo para Ezequiel. Nunca mais era quase o tempo que ele levava de espera, de dar corda ao relógio de bolso, de gastar as solas de cabedal grosseiro no chão de barro do casarão, de espreitar a rua , abrir e fechar trancas e ferrolhos....

- É hoje ou nunca.

Deixou a água a correr na banheira de esmalte estalado, enquanto fazia a barba.

Custou-lhe levar a lâmina aos lugares mais difíceis, e tudo por culpa do sorriso de lhe crescera na boca como o dia. Espalhou a colónia de alfazema calmante, e bateu nas faces com as palmas das mão, exorcizando a energia que emergia das pontas dos dedos, e que ameaçava transformá-lo num bocado de carvão a qualquer instante.

Entrou na banheira, e pensou que seria a última vez que o faria assim...sózinho. Tocou-se com saudade. Cada milimetro do seu corpo de homem feito, tinha uma estória de cumplicidade com as suas mãos, um segredo guardado, um êxtase calado pela vergonha...

 

Abafou um último gemido no calor passageiro daquele lago molhado, e saiu de lá outro.

Esfregou com força o corpo todo. Arrancou da pele os restos do Ezequiel que todos conheciam, deixou em carne viva um homem novo. Um homem capaz de andar no mundo como todos os outros homens.

Ficou de pé frente ao espelho.

Nu

Sem roupa

Sem pele

Sem pesos

Olhou-se com tempo .... as rugas que começavam a aprecer como as ervas nas primeiras chuvas, sem dó nem piedade.... o peito de águia, escurecido pela mata densa de pêlos que aqui e ali íam ficando grisalhos das névoas dos outonos tardios....as pernas finas de galgo...não estava mal....pensou num arquear de sobrancelha.

A manhã tinha corrido apressada, enquanto ele disfrutava do sabor doce que antecipava a mudança.

Puxou o relógio de cima da cómoda, e espantou-se com a consulta. - Já 11 horas!

Abriu o guarda-fatos de madeira envernizada cor de avelã, e tirou a roupa que já tinha escolhido para quando lhe fugisse o medo. O melhor fato. Um fato cor de chocolate, de espinhado inglês. - Muito fino! -  dissera-lhe o caixeiro da loja de voz afeminada e gestos ameninados - é a última moda no estrangeiro!

Ezequiel, lembrava-se de ter olhado o sujeitinho esquisito de lado, desconfiado....mas, a cor ficava-lhe bem, e decidiu comprar o fato completo.

Mirou-se de alto a baixo, uma e outra vez...de frente, de lado, o outro ângulo, espreitou a parte de trás...... -Olha pra ti  velho Ezequiel ... Quando tu queres até pareces um doutor! - sentenciou para o reflexo opaco e desfocado do espelho de pêndulo.

Meio dia em ponto. Abriu a porta do casarão, saiu para a rua e deixou entrar em casa um rasgo de ar quente carregado de borboletas azuis que tingiam  daquela cor triste, tudo o que tocavam no seu voo.

Ezequiel seguiu o seu rumo, sem fazer caso das asas azuis invasoras do seu reduto de solitário.

Seguiu pela rua acima, sorrindo boas tardes aos poucos que se atreviam a um frente a frente com o sol tirano do meio do dia.

O suor escorria-lhe por dentro do paletó, e ensopava a camisa, as cuecas, a vontade....

Entrou no jardim da vila. Não havia viválma a não ser ele por aquelas bandas, sentou-se no banco que ficava situado por baixo dos longos braços do chorão frondoso. Fechou os olhos por um momento breve, respirou fundo e sentiu uma miscelanea de cheiros e sabores que lhe saturaram os sentidos, e lhe depositaram um travo anizado no céu da boca.

Concentrou-se nos ruidos que o rodeavam, a ausência da brisa, o canto dos pardais, dos melros, dos pintassilgos, um cão vadio que farejava urinas alheias, na relva ressequida.....o seu coração....

Era hoje .... sorriu ..... levou a mão ao bolso das calças, suspirou de alivio.

A solidão era um bicho teimoso, fossão, como o cão sarnento que estava agora a coçar as mordidelas das pulgas deitado ao lado do banco, mas Ezequiel, sentia a leveza infinita do abandono do estado solitário.

Retirou a mão do bolso, abriu-a, olhou o objecto pequeno e reluzente, uma aparição com artes mágicas, e num gesto encostou o aço rijo e frio à orelha direita e puxou o gatilho.

Houve uma debandada de asas e pêlo de cão vadio, e uma brisa tingida de azul uivou a romper a tarde.

 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 17:51
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14 comentários:
De Leonor a 21 de Julho de 2008 às 19:27
:|:|
esta tao bonito, :$ como todos os outrod, claro. mas adorei este, amei.
beijinho grande, gigante.:)
De Cláudia a 22 de Julho de 2008 às 16:02
Olá Mel
Cá vim conhecer esta tua "casa", e tenho que confessar que me agradou mais do que a outra que tinha visitado antes. Li aqui textos muito bonitos, e vou voltar sempre, até porque há aqui muito ainda para ser descoberto. Quanto a este último post, deixou-me um bocadinho "abananada", não estava à espera do desfecho.
E aquela florzinha meio acabrunhada, espero que seja um estado de espírito passageiro...
Bjs
De meldevespas a 22 de Julho de 2008 às 17:06
obrigada pela visita e pelo comentário. Volta sempre ;)
A florzinha, confesso está assim, por causa do calor deste meu Alentejo.
De A VER NAVIOS a 22 de Julho de 2008 às 17:47
Começo a não saber o que dizer.
Mais uma vez... LINDO!
A simplicada e a beleza de sempre.
Parabéns,
J. Lopes
De leonoreta a 22 de Julho de 2008 às 20:15
um texto fantastico
cheio de suspense ate ao fim.
beijinhos
De Xanoquita a 23 de Julho de 2008 às 09:26
Gostei do "twist"...
Sabias (sabes com certeza) que o Alentejo é a região portuguesa com maior índice de suicídios?
De Angie a 24 de Julho de 2008 às 16:58
Olá!!
Antes de mais queria agradecer o seu comentário no meu blog.
Agora quero dizer que tem um blog muito catita também :D

Beijinhos
De weee a 25 de Julho de 2008 às 15:03
WOW, o twist... :O
Love it!!
De telmy a 27 de Julho de 2008 às 15:56
desde o inicio do texto que eu sentia que ia acabar assim. e está lindo, lindo, lindo!
adoro textos com finais assim :)


beijinhos mel ***
De R.I.P.per a 28 de Julho de 2008 às 10:45
sim sim,gostei mt,ora pela induçao,ora pelo ritual,ora pelo simbolismo :)
De Lua de Sol a 29 de Julho de 2008 às 14:59
Muito bom e trocaste-me as voltas porque a partir do meio pensei que ele ia para o seu casamento... Bonito!
Beijinhos

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