Domingo, 5 de Outubro de 2008

A um Deus diferente

 

 

 

 

Matias perdeu-se no mundo ainda verde.

Da noite para o dia, a doce certeza familiar fundiu-se no leito de uma cama de hospital. As lágrimas confundidas com éter.

Durante anos a fio, um sonho tornou-se recorrente. A mãe.

Todas as noites vivia os últimos dias dela, com ela, com o sorriso dela .... e todas as manhãs, fazia a um Deus diferente, a mesma pergunta:

- Quantas vezes vou ter que a perder?

A resposta não veio....nunca....e Matias desistiu de questionar as sombras das árvores.

 Era pouco maior que um cão rafeiro, e sozinho perdeu-se nos arredores da vida.

Fugiu do ruído insuportável do eco da casa vazia.

Correu o mais que pode para longe da ausência do toque apaziguador nas noites de tempestade.

E sem saber como, caiu nas graças de outros tantos foragidos, que habitavam nas franjas das serranias, nos subúrbios das vidas impressas em papel...nos espaços adjacentes expressos em extractos bancários.

O Joel da oficina mecânica, foi seu mentor naqueles tenros anos.

Protegeu-lhe os primeiros Invernos de criança sem rumo, partilhando a pouca comida ao som de grandes feitos do passado. O Joel tinha um dom....abria qualquer fechadura que se lhe deparasse, de caixa de música a cofre comercial, nenhum segredo estava ao abrigo de tão hábeis mãos.

O "dom" já lhe valera estadias dentro de muros de betão, mais afastado ainda do centro vital do mundo.O Joel era um homem duro, todo esculpido em granito, e Matias, perdido, achou-lhe um coração dentro do peito.

A Rosa era puta de carreira. Caçava na beira da noite, fregueses sem norte, que como ela se aventuravam no escuro com ares de predador, e no fim, mais não eram que presas fáceis.

A Rosa foi madrinha de guerra de todas as lutas travadas por Matias. As primeiras carteiras palmadas à socapa nos transportes públicos, os primeiros cigarros fumados em tosses vulcânicas, e, a seu tempo, foi também ela que lhe ensinou tudo o que um homem feito tem que saber na cama. Em lições privadas, sob a luz mortiça de uma velinha de igreja.

As mãos de Rosa conduziam Matias a latitudes superiores, onde havia mais sol e coragem. E depois do espanto do corpo, enroscava-se como um gato a brincar nas tetas da mãe, e adormecia a tremer de medo, pela premonição de mais uma despedida.

Mesmo neste mundo onde a claridade era só uma miragem, e a penumbra era companheira de luta e suor, Matias cresceu como uma trepadeira, forte e espigado.

Andava pelas ruas ao sabor da vontade. O buço sombreado pela puberdade, os joelhos ossudos e encardidos, e um assobio desentoado de quem se julga dono do mundo.

Matias viu Bia a primeira vez, na paragem do autocarro. Ela viu-o a roubar a carteira a um finório com ar superior...e calou-se. Baixou os olhos e quase sorriu. Matias ficou aflito quando deu por ela. O coração ameaçou sair pela boca. Olhou-a num tom de súplica, e saiu dali disparado. Só parou na oficina sebeirente do Joel.

Sentou-se num pneu, tirou a boina e limpou o suor da testa com ela. Fechou os olhos com medo....e lá estava aquele quase sorriso, debaixo de uns olhos castanhos suaves.

Bia estudava num colégio de freiras. Era aplicada e boa aluna. Os pais estavam noutro país, e tinham deixado a pequena à guarda de uma tia-avó muito chegada, que a tratava com capricho e amor. Bia tinha o  coração aberto, e sonhos de muitas cores, que acabavam invariavelmente com o beijo de um príncipe dourado e juras de eternidade.

No outro dia, com os joelhos a bater um no outro, e as forças a escapulirem-se, Matias atreveu-se a ir espreitar a paragem do autocarro. Estava tudo calmo. Respirou fundo com alívio. Mas um formigueiro tomou conta dele. Lá estava a rapariga outra vez. O cabelo claro, atado num rabo-de-cavalo austero demais para a idade, e os olhos mansos. Aqueles olhos que eram da exacta cor das avelãs...

O olhar de Matias teve em Bia o efeito de um espelho reflector, e ela virou-se na sua direcção.

Esboçou um sorriso, e num gesto pensado, deixou cair todos os livros que carregava nas mãos

Matias saltou como um galgo, e de pronto apanhou do chão a amalgama de livros e papeis espalhados.

- Toma ...uhhhh desculpa, tenho as mãos todas sujas... - disse o rapaz tomate, envergonhado, pela primeira vez na vida, do mau trato dado às suas mãos.

- Ahhh obrigado..nnnão faz mal- a rapariga escarlate mal o olhou. Agradeceu com decoro e regozijou-se do sucesso do plano.

O autocarro chegou, apanhou o grupo de pessoas, Matias acenou um breve adeus, e num suspiro profundo, voltou para casa.

 Contou a Joel o que se tinha passado, na esperança de ouvir dele uma pista sobre aquele calor que agora sentia dentro do peito. Joel não se interessou. Joel não perdia tempo com essas dores que não se vêem.

Estava na hora do almoço, e Matias, um esfomeado por natureza, tinha perdido o apetite por completo.

Procurou a Rosa, que o acolheu de braços abertos como sempre:

- Então rapazinho, já vens à procura da sobremesa? Ahahaha! - gracejou a mulher alto e bom som.

- Não. - respondeu o rapaz, lacónico, por entre um sorriso amarelo.

Contou-lhe. Rosa ouviu calada, e assim permaneceu por alguns minutos, depois de Matias se calar.

- Então? Não dizes nada!? - disse o rapaz inquieto.

- Espera...deixaste-me um bocadinho assim....como se....olha miúdo, isso deve ser amor...digo eu que já me esqueci o que isso é. - respondeu a mulher de olhos húmidos, e a voz embargada por memórias de outro mundo, de outro corpo, de outra Rosa.

No dia seguinte, Matias acordou antes do relógio velho do Joel. Foi ao quintal, abriu a torneira e meteu a cabeça debaixo da água fria. Esfregou bem o cabelo com sabão azul e branco, lavou a cara, uma e outra vez, até ficar vermelha, e depois demorou-se nas mãos. Ensaboou-as, passou-as por água, e repetiu o processo umas duas ou três vezes.

Entrou outra vez em casa, e procurou ver a sua imagem no pedaço de espelho partido pendurado ao lado da porta. Não estava mal. Nem se reconhecia de tão desencasqueado. Vestiu uma roupa limpa que as senhoras da igreja lhe tinham dado há tempos. O traje era tão "pipi" que nunca tivera coragem de o envergar...e agora as calças mais pareciam uns calções. Mirou-se desconsolado. Que figurinha! Ao menos estava limpo, pensou.

Estava quase na hora. Penteou-se com os dedos como era habitual, e saiu em passo de corrida. A ansiedade transbordava, e isso notava-se nas mãos suadas que pelo caminho ia limpando nas calças.

Quando chegou à paragem, Bia já lá estava. Matias caminhou direito a ela:

- Bom dia, posso ajudar-te a segurar os livros enquanto o transporte não vem? - perguntou de uma vez, até quase perder o fôlego, e continuou - hoje tenho as mãos limpas, vês? - disse ao mesmo tempo que exibia as mãos abertas de um lado e depois do outro.

- Está bem. Podes. - respondeu vitoriosa e sorridente.

Ficaram ali os dois, no meio da pequena multidão a caminho do trabalho, mas apenas com olhos um para o outro.

- Chamo-me Matias...

- Eu sou a Belisanda, mas todos me chamam Bia.

Quando o autocarro chegou, despediram-se com um "até amanhã" que selava a efemeridade dos sonhos juvenis, e um aceno em tom de carícia.

No regresso a casa, o assobio harmonioso e as mãos nos bolsos, acentuavam a leveza da alma.

Ao sabor da vontade, Matias ia-se encontrando por caminhos perdidos.

Imagem by DeviantArt 

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Original Zumbido por meldevespas às 22:17
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16 comentários:
De R.I.P.per a 6 de Outubro de 2008 às 11:01
Belisanda? :|

Carminho,como tu consegues captar a poesia na aspereza das almas simples... :)
De meldevespas a 6 de Outubro de 2008 às 11:42
Ohhh tiveste coregam pra ler este "testamento"? ainda bem q gostaste, olha eu ->

Beijinho
De Paulo a 6 de Outubro de 2008 às 15:06
Engraçado como o Matias, apesar de ter crescido no meio de pessoas como um mecânico ou uma prostituta, foi capaz de ter a sensibilidade necessária para encontrar o caminho para o amor :)
Gostei muito. Uma vez mais ;)

Adorei dois pormenores: "perdeu-se nos arredores da vida" e "o rapaz tomate". Delicioso :D
De meldevespas a 6 de Outubro de 2008 às 15:10
Obrigado Paulinho, por teres lido e pelo comentário tão generoso :)
Beijo
De Sandra Xanoquita a 7 de Outubro de 2008 às 09:05
És uma estúpida!
Não tens o direito de me enterneceres o coração assim!
De meldevespas a 7 de Outubro de 2008 às 09:45
rssrsrssrss
Gosto muito de ti
Obrigada
Beijos grandes
De Jorge Santos a 7 de Outubro de 2008 às 16:00
Belo!
Dá vontade de continuar a ler, mesmo depois desse "fim".
Beijinho.
De meldevespas a 7 de Outubro de 2008 às 16:53
Obrigada Jorge.
Estava com um bocadinho de medo de postar um texto tão grande aqui.
Obrigada por leres.
Beijinho
De A VER NAVIOS a 10 de Outubro de 2008 às 17:37
Gostei muito. Mesmo muito!
As coisas belas, podem ser simples.
Bom fim de semana,
J. Lopes
De meldevespas a 10 de Outubro de 2008 às 20:21
Muito muito obrigada! Fico feliz por ter gostado.
Bom fim de semana pra si e prá familia toda.
Beijinho
De Lenore a 11 de Outubro de 2008 às 09:52
*sniff* aii, matias :') que estória tão linda, <3
De Ju a 12 de Outubro de 2008 às 15:59
Querouma historia de amor assim :)
A minha é bonita sim... Mas já não exstem historias como esta !

De onde tiras-te esta historia !
Escreve um livro, a serio tens muito jeito !

Beijinho *
Escreve mais destas :)
De meldevespas a 21 de Outubro de 2008 às 16:28
Obrigada Ju.
A nossa estória de amor é sempre a mais bonita.
Estas coisas vou tirando da minha cabeça.
Se não tiro algumas, um dia acaba por entupir eheh
Beijinhos e volta sempre
De telmy a 19 de Outubro de 2008 às 01:33
ai, oh Carminho já tinha umas saudades de ler as tuas belas estórias. há sempre algo nelas que mexe comigo. e esta não foi excepção. a começar logo pela primeira frase 'Da noite para o dia, a doce certeza familiar fundiu-se no leito de uma cama de hospital. As lágrimas confundidas com éter.' metaforicamente, isto enquadra-se tão bem em mim. só que a minha cama de hospital é Lisboa :p

como andas? ^^
beijinhos **
De meldevespas a 21 de Outubro de 2008 às 16:26
Minha linda Telminha, muuuuito obrigada pelas palavras tão queridas (como sempre).
Espero que apesar da distância, Lisboa esteja a ser bom para ti (nem que seja para criares asas).
Eu cá estou no meu Alentejo. Agora que estás mais pertinho de nós cá te espero ;)
Beijinhos grandes
De I see... a 20 de Outubro de 2008 às 16:49
Beijinho grande :)

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