Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Espera-me, que eu não volto

 

 

 

O motor do tractor emoldurava-lhe a indiferença. Aquele rosnar cavo e profundo, ressoava no vazio do campo pontilhando a monotonia das horas.

Joaquim António, manobrava a máquina apenas com uma mão, recostado no banco plástico e rijo, forrado com um pano de cotim coçado.

A outra mão estava esquecida nas costas do banco. O braço pendurado com a mesma displicência com que conduzia sete dias na semana aquela máquina pachorrenta e estúpida.

Sentia-se estúpido ele também, naquele vaivém, arrastado pela grade de ferro pesada, que arava a terra seca e a sua culpa ainda em carne viva, com igual intensidade.

Desde que aquilo se dera, não mais tinha encontrado paz. O cheiro forte da terra, costumava ser um bálsamo para todas as dores ou maleitas. A ressaca das segundas-feiras de manhã, o sol vigoroso e cruel dos verões varonis, as chuvas agoniantes e potenciadoras de ansiedades e apertos no peito... tudo, o cheiro visceral da terra tinha sido sempre fonte de paz e acalmia. Por isso não se via a fazer outra coisa que não fosse aquilo. A escola aborrecia-o de morte, quatro paredes a cingir-lhe o corpo, quatro corpos hirtos a encolhrem-lhe a vida, que corria lá do lado de fora, livre, sem grilhões, sem algozes.

Ele não era diferente agora do que era antes. Era o mesmo rapaz, respondiam as pessoas à pergunta - "Achas que mudei? Responde com a verdade! - repetida vezes demais nestes últimos dois anos.

Mas ele sentia-se diferente. Claro que era o mesmo Joaquim António que estava todas as manhãs reflectido no espelho da casa de banho. Mas ainda assim, a imagem devolvida pelo espelho provocaca-lhe um calafrio suado que o invadia sem misericóridia.

Já não havia mistérios naquele sentimento...não agora. Chamava-se culpa, e doía como um corte infecto infestado de bichos, uma dor lancinante, sem reservas, sem perdão, sem apelo.

Caíra de amores por ela, toda a gente sabia ali pelos arredores, que ele arrastava o mundo por ela, e ela um dia viu-o.

Amaram-se em segredo pelos recantos, desafiaram regras, atreveram-se por caminhos ainda por descobrir, juntos apagaram estrelas e acenderam constelações inteiras.

Mas Laura tomava conta da vida de Joaquim com a voracidade de uma erva daninha, e ele sentiu-se outra vez na escola, sentado direito numa cadeira de pau, com a cartilha aberta na letra errada, e a visão do vento a soprar segredos às árvores do recreio. Sentia outra vez os braços atados, a letargia imposta pela porta fechada, a inquietação a germinar em rebentos primaveris no seu peito em pousio.

A rebelião pressentia-se a cada dia de amores jurados e gemidos entornados no leito apertado do abraço dela.

- Vou pra França... o meu primo Germano, tem lá um serviço bom à minha espera. É na terra, nas vinhas, tu sabes que é só o que eu sei fazer... Queres vir também!? Não! Isso é impossível! Aquilo é só homens, é lá sitio pra uma rapariga como tu! Tira isso da ideia! Agora vou eu, e depois, conforme as coisas correrem, mando-te buscar.... ouve, não chores, eu volto, claro que volto... ela não acreditou. Ele também não.

Fez a mala. Dois pares de calças de algodão, a camisa dos dias de festa, a outra toda passajada pelas mãos deformadas da avó Miquelina, e os botins de pele curtida que o pai encomendara ao Chico das Botas há anos atrás.

A culpa era assim como uma doença, um mal daqueles sem cura, que se pegam à pele da gente, e em menos de nada já nos correm no sangue num galope certo.

Desligou a chave da ignição, o ronco do tractor cessou finalmente, e devolveu o silêncio àquelas paragens. Joaquim António, saltou para o chão, limpou a testa com a boina de gabardina axadrezada, e caminhou sem pressas os dois quilómetros que o separavam de casa.

Nunca mais pegara na bicicleta a pedais. Agora seguia a pé. Chegava sempre mais cansado. O cansaço era redentor.

No dia seguinte, o dia amanheceu antes da hora, havia um alarido no ar que puxava quem passava num remoinho crescente, e as vozes em surdina subiram o tom, e os gritos perfuraram tímpanos e sonhos, e uma multidão de gestos urgentes e olhares esbugalhados precipitava-se para o termo da vila.

Ali, debaixo da nogueira antiga, ao lado do Poço das Virtudes, jaziam lado a lado as sapatilhas de lona vermelha de Laura.

 

 

sinto-me:
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Original Zumbido por meldevespas às 13:47
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7 comentários:
De Lenore a 18 de Março de 2009 às 14:00
poor little laura.
and poor poor little joaquim.


mas está tão boniiito *.* como sempre, pois. uma pessoa fica sem saber bem o que dizer (deve ser porque digo basicamente SEMPRE o mesmo...)




^^
De Gingerbread Girl a 18 de Março de 2009 às 16:42
Ai mulher... que posso eu mais dizer-te?!? Faltam-me os adjectivos...

Sabes o que me veio à ideia?? ... O Nick Cave escrever uma canção com estes dois. :p


Mil beijinhos esvoaçantes

De A VER NAVIOS a 20 de Março de 2009 às 16:51
Pois... fico-me por aqui.
Repetir...repetir...repetir, para quê?
Gosto muito. Por favor continue.
LINDO!!!
Bom fim de semana,
J. Lopes
De weee a 21 de Março de 2009 às 19:52
E cá estamos, mais uma vez, para dizer o mesmo de sempre: lindo, lindo, lindo!

You allready know it and so do I, that's why I keep coming back!
De telmy a 24 de Março de 2009 às 17:48
oh carminho, eu estou como os outros. que posso eu dizer mais? nada.
os teus textos são sempre lindos *.*
e acho o titulo deste fantástico :)

beijinho *
De entremares a 26 de Março de 2009 às 22:33
O amor tem destas coisas... aliás, o amor tem coisas, muitas coisas... que nem cabem aqui, passamos o tempo a tentar arranjar recipientes enormes para o conter ( alguns chamam-lhes corações ) ... para depois descobrir que ele escorre por entre os dedos, como areia , timida e fugidia.
Se a nogueira antiga falasse... o que diria ela ?
De R.I.P.per a 4 de Abril de 2009 às 15:05
miguel torga no feminino

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