Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

A força de um hábito

 

Naquele momento, apenas a falta de um espelho, pequeno que fosse, a entristecia. Gostava de ver no espelho o poder daquilo que sentia. Era madrugada, o vento fininho dos primeiros dias de Novembro, aventurava-se por debaixo de portas e janelas, e enregelava o quarto atarracado.

Rodopiou, uma e outra vez, descalça. O frio das lajes do chão faziam com que se sentisse ainda mais viva ... Mal conseguira pregar olho. Fora duro chegar até ali. Anos a fio de penas e martírios. Noites desfiadas em rosários de lágrimas, tantas vezes de arrependimento. Dias calados em febres de saudade.

Sentou-se na cama estreita, tonta de tantas voltas. Se alguém a visse, antes do nascer do dia, a dançar daquele forma, na certa temeria pelo seu equilíbrio emocional. Abafou uma gargalhada com a mão em concha. Uii - doíam-lhe os dedos dos pés! Massajou-os devagar, tinha tempo ainda. Ninguém lhe mandara andar em pontas no chão de pedra! Deixou-se cair para trás, os pés ainda no chão, os braços debaixo da cabeça, o corpo todo ao abandono feliz daquele momento. A vida estava a ser boa pra ela...pensou.

Fechou os olhos por um momento, via a outra vida dela. Os cabelos cor de palha compridos, a franja sempre a cair para os olhos, a saída da escola às 5 da tarde, os lanches na pastelaria do Amadeu com os amigos. Acendia um cigarro assim que caía numa das cadeiras à roda da mesa - Ufa! Esta época de exames está a dar comigo em doida! Estou mais que morta!  - Puxava uma e outra baforada do cigarro e expelia o fumo com gosto. Depois chegava ele, vinha pelas costas dela e como sempre dava-lhe um beijo no pescoço - Olá linda! Então como foi o dia? - ficavam ali, no meio de toda a gente, apenas um com o outro, sem intromissões, falavam do dia, trocavam novidades e beijos, e depois do lanche saiam abraçados. Faziam amor no banco de trás do Renault 5, e despediam-se com a boca ainda cheia de promessas.

Ele entrou em Medicina, no Porto, ela adiou a Universidade. Era muito nova, sedenta de dar. Propôs-se para uma missão em África. Tomou-lhe o gosto e voltou. Não sabe bem como, mas as cartas começaram a rarear, telefone em muitos lugares era apenas uma miragem, e sem dar por isso a ânsia da paixão, deu lugar à saudade, que deu lugar à recordação doce de um lugar longe.

Não houve choros, nem culpas. Soube que ele casou. Mandou-lhe um cartão de felicitações, e recebeu outro a agradecer.

Numa das missões, conheceu o Toti, missionário como ela, enfermeiro de profissão. Casado. A distância de casa acabou por os juntar na cama. Espantaram o medo, as diferenças e diluíram a cor da pele de um e de outro num alambique de suor aquecido na sofreguidão das noites quentes.

Desta vez não foram feitas promessas, nem juras de amor para sempre. Ali naquele lugar o Sempre era o dia de hoje e cumpria-se em cada criança que faziam sorrir.

Suspirou fundo. Desde muito cedo na vida vivia as relações com fervor, entregava-se sem reservas quantas vezes não foi mal interpretada, incompreendida até, quantas vezes ainda o era. Este pensamento provocou-lhe nova risada.

Passou a mão pelo cabelo. As dificuldades logísticas durante os anos de missões, não lhe deixaram outra saída que não fosse cortá-lo, bem curto. Claro que tantos anos depois já estava habituada. Gostava de se ver. Dava-lhe em ar mais jovem, irreverente. Agora achava que já não conseguiria ver-se de outra maneira.

Os tempos em África tinham-lhe dado sabedoria. Não uma sabedoria aprendida nos livros, levada ao colo por bicas curtas e cigarros em fio, não, era antes uma sabedoria das coisas. De como o sol se põe todos os dias com tonalidades diferentes, de como a terra se agarra à pele e enche os pulmões de um querer cantado em dialectos à tardinha. De como se cai com os joelhos no chão com a certeza de uma mão firme para nos erguer.

Agarrou a mão, e esqueceu a dor. Edificou-se por sobre o pó que às vezes foi.

Olhou para a janela pequena. O sol estava a nascer. Tinha tanto que fazer. O coração batia cada vez mais depressa, tão descompassado que parecia ir saltar-lhe do peito. Podia viver com muito pouco, com quase nada, mas o coração tinha que estar cheio, cheio ao ponto de derramar para fora e sobrar para quem estivesse por perto. Já se tinha apaixonado antes. Mas assim...nunca.

Levantou-se da cama. Calçou as sapatilhas de lona, retirou o fio com o crucifixo de cima da mesinha de cabeceira e passou-o pela cabeça. Ajeitou a cruz por cima da veste branca, à altura do coração. Depois fixou a cadeira ao canto do quarto, deu um passo até lá e pegou no véu branco. Colocou-o num gesto repetido, o cabelo por dentro, imaculado. Era o último dia que o usaria. Nessa mesma tarde, na frente de todos, receberia outro, negro, definitivo. O enlace preparado nos últimos três anos ia ter lugar. Ia poder finalmente apenas amar. 

 

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Original Zumbido por meldevespas às 20:08
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5 comentários:
De Mary Brown a 16 de Outubro de 2009 às 22:00
Mel lindíssimo este conto e com um fim surpreendente. Uma história muito bem delineada de uma mulher apaixonada pelo amor. Depois escolheste logo África que só por si me deixa a sonhar. Alguém com capacidade para amar os outros sem esperar nada em troca, tanta capacidade que era missionária. De todos os contos que li teus, foram ainda poucos, este foi o que mais me fascinou. Um Beijinho
De meldevespas a 19 de Outubro de 2009 às 09:56
Muito obrigada Mary B. O teu comentário é muito generoso...provavelmente demasiado generoso...
anyway, captaste na perfeição o que me passou pela cabeça, alguém apaixonado pelo amor de tal forma que leva ao extremo esse enamoramento.
Beijos Grandes
De Fábrica das Letras a 19 de Outubro de 2009 às 16:41
Nós somos a Fábrica de Letras (http://fabricadeletrasepalavras.blogspot.com/).
Estamos a iniciar um projecto de blogagens colectivas.
Pretendemos que os bloguers portugueses possam interagir e dar-se a conhecer.
No dia 1 de cada mês, a Fábrica de Letras lançará um tema. Para participar basta escrever um texto sobre o tema proposto e inscrever-se no link que estará à disposição no blog, no dia 15 de cada mês.
Podem ser usados textos,poemas, contos, fotos ou vídeos. Não deixes de participar!

Bjinho Melzita ;)
De Gingerbread Girl a 29 de Outubro de 2009 às 14:09
Eish... olha a Fábrica das Letras aí em cima. Gandas malucos!

Ora bem... este texto só prova que não ir para a Faculdade na altura certa, dá merdª.

Eu sou uma asna ignorante, e por isso África não me seduz minimamente... imagino aquilo tudo seco, e quente, com uns rios lamacentos aqui e alí... e leões por todo o lado à espera que o pessoal passe para lhes saltar para o lombo.

=|

bjinhosssss*
De meldevespas a 29 de Outubro de 2009 às 14:46
Nunca se sabe....não vês? ela em África arranjou outra coisa pra lhe saltar pró lombo...e não foram leões-_-
Estes Gaijos da Fábrica das Letras estão em todo o ado!!! Xiça!!

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