Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Estilhaços

 

Eusébio subia a rua sem pressas de chegar. O empedrado da calçada estava molhado, resignado a um dia inteiro de uma chuvinha delicada. Subia a rua de mãos nos bolsos, olhos no chão enquanto ia pontapeando uma pedra que fugia à sua frente.

As calças de cotim remendadas nos joelhos com uma rodela de napa alaranjada, estavam encharcadas até quase aos joelhos, e os sapatos de atacadores pareciam montes de terra andantes. O campo pelado onde se juntavam para jogar à bola depois da escola, estava cheio de atoleiros e lamaçais. Chovera a semana toda, sem tréguas. Subia a rua de olhos no chão, pontapeando o cascalho. Pensava na melhor maneira de abordar o sucedido. "Mãe, desculpa, aconteceu um acidente...", "Mãe...foi sem querer, juro pela minha saúde!". A mãe estava farta de juras, acidentes e sem quereres. O melhor era um directo "mãe, parti o vidro da janela da Irmã Margarida". Já sabia que a seguir era o habitual chorrilho de bofetadas, depois seria arrojado até ao quarto pelas orelhas e por fim a mãe exausta diria mal à vida dela como sempre num pranto rezado vezes e vezes sem conta. Custava-lhe vê-la assim, mas sentia-se preso a uma linha que não se via, apesar de ter a certeza que ali estava. Uma linha que lha atava os pés, as mãos e todo o seu ser a uma espécie de fado, ou sina ou o que quer que lhe chamassem, e que o puxava sempre para o abismo, para aquela parte do mundo em que a luz está sempre apagada e só há tropeções, cacos e feridas abertas.

A Irmã Margarida, de todas as formas, amanhã, logo cedo, havia de estar a bater-lhes à porta a cobrar o vidro e a alma fugaz do gaiato. "Eu bem a aviso D. Deolinda, o rapaz sem Deus não resiste! Nem que seja levado pelos cabelos, mas tem que ir à catequese!".

Pronto, "estava o baile armado", pensava num pontapé forte que fez o cascalho bater no contentor do lixo, com estrondo. A hora de catequese com a Irmã Margarida era uma tortura. O bê à bá do pecado era o "pão pingado", ao ponto de se poder dizer sem sombra de dúvida que mesmo o respirar era um pecado mortal, portanto merecedor da  maior das penitências. Mal sabia ela que o cumulo da penitência era ficar ali uma hora, contada minuto a minuto pelo relógio de parede, a ouvir o tom pernicioso da sua voz.

O melhor era mesmo desembuchar! Acelerou o passo, deixando para trás a pedra aliviada.

- Mãe! Cheguei... - entrou na cozinha. A mesa estava já posta, os três pratos nos lugares marcados. O pai à cabeceira, no comando, a mãe à direita dele, (na verdade a mãe, mais parecia uma formiga, quase não se sentava, atendendo às palavras de ordem do homem da casa: "Um copo de água!", "é só este o pão que há cá em casa!?", "Dá cá o vinho!"), à esquerda ele. O lugar vago, na outra ponta da mesa rectangular, era ocupado de tempos a tempos por uma dor estreita nos olhos da mãe.

- Andei a jogar à bola, no campo da Igreja...com o Basílio e o Cajó...ehp....mmm...parti um vidro da janela da casa da Irmã Margarida, ela diz que vem cá dizer-te, são vinte e cinco tostões. - estancou, sem fôlego, os olhos na nuca da mãe, que continuava de costas para ele, de frente para o fogão a vigiar as batatas que fritavam na frigideira cheia de azeite borbulhante.

- O teu pai, está a chegar, é melhor estares bem caladinho. resolvemos isso amanhã. Hoje joga o Benfica. - a voz da mãe, tremia, num tom esbatido. Era a voz do medo, Eusébio, conhecia-a bem. O desfecho da noite dependia do silêncio dela e do resultado do jogo de futebol, que ia começar na televisão daqui a pouco.

O Cabo Zacarias Resende era benfiquista ferrenho. Cada partida era uma luta renhida, uma disputa taco a taco, no terreno de jogo e na vida dele. Militar desde o berço, Zacarias, desde muito cedo aprendeu na pele o frio do aço, e na vontade a força férrea da obediência. Deixado à mercê da inveja e outros tombos, a violência ganhou raízes no seu peito, criou corpo nas suas mãos, e desabrochou nos seus olhos a cada caminho mais apertado. E para Zacarias todos os caminhos eram apertados. Uma mulher incompetente e amorfa, filhos desmiolados e sem perspectivas de espécie alguma.

O mais velho herdara o nome do avô paterno, nem sequer fora uma opção. Cosme Resende. O mais novo, já com o avô morto e enterrado,  recebera a bênção de Eusébio, o virtuoso jogador que encantava Zacarias e o deixava embasbacado.

A porta da rua bateu seca. Na cozinha, mãe e filho de imediato adoptaram uma posição de sentido. Eusébio podia jurar que ouvira a mãe engolir em seco. Teve pena dela. Tinha sempre. O jogo era difícil, as competições europeias, um clube de topo. Era bom que a sopa estivesse ao gosto do Cabo, caso contrário alguém iria pagar a factura.

Sabia bem como a mãe escondia por baixo da roupa as nódoas negras dos dedos de ferro do pai, os vergões nas pernas desenhados a rajadas de cassetete. Conhecia o olhar caído, o cabelo nos olhos a guardar segredo de carícias pesadas que brotavam no alvo da pele em pontos roxos. Sabia de cor todos os artifícios usados para proteger a reputação do seu homem. Sabia porque também ele estava farto de os usar.

Zacarias era um homem robusto, largo de ombros e de baixa estatura. Do Ultramar trouxera uma perna aleijada, que arrojava pela calçada e anunciava a sua chegada a casa ao fim da tarde. Era o sinal.

Eusébio fugiu para o quintal, tinha que limpar os sapatos antes de tudo, sacudir as calças, ajeitar a camisa, alisar o cabelo. Um pelo fora do lugar, qualquer coisa era o mote para mais uma discussão sobre a inutilidade dele e o desmazelo da mãe.

O jantar decorreu na mesma paz gorada de sempre. O jogo desenrolava-se à frente deles. Zacarias nem olhava o prato, empurrava garfadas de comida para a boca, umas a seguir às outras. O intervalo chegou. O nulo continuava, e o guisado já frio começava a ferver dentro do homem.

- Cabrão do gaiato! Deixa-te estar sentado! O jogo ainda não acabou!, e tu minha cabra, vê se limpas esta merda toda!

Deolinda sentiu o chão fugir. Quando ele ficava assim, agora tantos anos volvidos, mais que o medo era a afronta de ter chegado àquele ponto. O ressentimento com ela própria. Não conseguia deixar de se culpar. O medo dela tinha provocado mais abalos, mais tragédia do que a força bruta dele.

Eusébio encolheu a vontade de ir à casa de banho. Sentou-se direito a olhar para o aparelho de televisão sem no entanto o ver. Nem sequer era do Benfica. O seu coração batia a verde e branco. Mas se o pai desconfiasse, ele estaria morto. Se calhar era até melhor.

A jarra de loiça em cima da televisão foi a primeira a sofrer a derrocada do  único golo da partida. Os estrangeiros marcaram a um minuto do fim, e a cozinha dos Resende vivia a calma que antecipa a tempestade. O silêncio do golo.

O dia amanheceu cinzento, outra vez. Deolinda cirandava pela cozinha. Falava baixinho.

- Cosme, anda prá mesa filho. As torradas já estão prontas, e o leite está quentinho como gostas, anda Cosme, vais ver que ficas bom num instante.

Eusébio olhava-a encostado na ombreira da porta. Era invisível para os olhos perdidos do cirandar da mãe. A irmã Margarida parecia agora outra vida, outro Eusébio. O vidro partido em estilhaços, era uma brincadeira de criança que ria de gosto longe dali.

Cosme o mais velho dos dois irmãos, sempre fora de saúde frágil, um rapaz de alma melindrosa e corpo etéreo desde o nascimento. Tinha mais quatro anos que Eusébio. No dia que completara quinze anos, na calada da noite, tirara o cinto preto de pele da farda do pai e com ele pendurou-se pelo pescoço na porta do quarto. Zacarias, sempre o mais madrugador encontrou pela manhã os despojos daquele filho, a pele transparente, os olhos abertos no vazio, a fivela apertada a arroxear o pescoço fino.

Acordou Deolinda com um abanão - "o paneleiro do teu filho matou-se" - e saiu porta fora. Voltou mais tarde com o cangalheiro, o médico e o padre, e tratou de todos os tramites legais e espirituais como um pai deve fazer.

Eusébio olhava a mãe, o dó que sentia dela dilacerava-lhe o peito. O corpo espigado de rapazola condoía-se da culpa mastigada daquela mulher que era sua mãe, mas que  tinha desaprendido de ser pessoa há muito tempo.

Era Domingo. Zacarias dormia ainda. A farda descansava numa cadeira da sala. Eusébio olhou-a, caminhou até lá, tirou o cinto preto de pele das calças e entrou no quarto do pai.

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Original Zumbido por meldevespas às 22:09
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13 comentários:
De Gingerbread Girl a 26 de Novembro de 2009 às 23:45
Muito lindo amiga... mais uma pérola com que brindas o pessoal.

Gostei muito da história, que acho que é uma história que relata ainda muitas realidades que por aí andam... uma vergonha!

E também acabou bem... what goes around, comes around. =D


*
De meldevespas a 27 de Novembro de 2009 às 16:35
Há coisas que ouvimos contar ainda em crianças, e depois vamos guardando para nós. Como este homem. As coisas não terminaram excatamente assim para bem dele, mas pronto.
Obrigada e um beijo grrrrande
De Mary Brown a 27 de Novembro de 2009 às 01:05
Mel este conto está tão real, tão real que até dói. Dói porque faz lembrar situações que muitos passamos ou vimos passar, situações em que mulher e filhos viviam aterrorizados, bastava mesmo ouvir passos para ficarem em sentido. Espero que hoje não haja mulheres a sofrer assim, nem filhos. Aqui não falta um único detalhe, tudo encaixa no conto e na realidade que relata. Que posso te dizer mais? Um beijinho.
De meldevespas a 27 de Novembro de 2009 às 16:37
Ainda por cima neste últimos dias temos sido bombardeados com as estatisticas terriveis destas situações. Obrigada pela visita e pelo comentário sempre pertinente. Beijos grande
De João a 27 de Novembro de 2009 às 20:35
Um quadro tão característico numa casa portuguesa como aquele do miúdo que chora ou da última ceia...


...Ainda que não concorde com a cor clubista da besta. Pelo comportamento, seria, obviamente, portista!
De meldevespas a 30 de Novembro de 2009 às 09:35
Não sei se essa analogia ao menino e à ultima ceia serão u elogio....hummmm, não são pois não? .....bem me parecia...;))
Beijo
De João a 3 de Dezembro de 2009 às 20:34
Era um elogio. Será um elogio. Claro que descrever a realidade de forma tão fiel é algo bom.

E de certeza que o primeiro que pintou o quadro do menino também tinha talento para a coisa.

O da última ceia até foi o Leonardo Da vinci... que até tinha algum jeitinho.
De Regina d'Ávila a 5 de Dezembro de 2009 às 17:31
“tinha desaprendido de ser pessoa há muito tempo”
Meu Deus!! Como sei o que é isso?
Como dói...e como, ainda hoje, existem histórias como esta...
Obrigada,
Seu blog é lindo,
Regina d’ Ávila.
De meldevespas a 6 de Dezembro de 2009 às 11:00
Pena que de alguma forma saiba o que isso é e o que isso doi...
Obrigada pela visita, e por ter gostado.
Volte sempre, esta tb é a sua casa
Beijo
De Utópico a 9 de Março de 2011 às 21:57
Um texto muito bonito e muito bem escrito, mas apenas como texto, pois infelizmente, retrata um cenário muito triste, e muito real por esse país fora.

De sandra a 12 de Março de 2011 às 00:45
Lindo e comovente hisória ..
Uma otima participação...
A vida é tão bela. Não sei porque a violência faz parte da vida de algumas pessoas..
O amor é tão especial e Puro..
A Violência vem acompanhando o Mundo desde o seu principio. É uma pena que ainda existe, das mais diversas formas. Tudo é muito triste. O que nos resta é levantar a bandeira da Paz.. Proclamar por ela.
A interação de amigos tbém entrou nesta..
http :/ sandrarandrade7.blogspot.com /2011/03/coletiva-tema-violencia.html
Não podemos permitir o seu alastramento. Temos sim é que ajudar a combater e cortar as raízes.
Carinhosamente venho compartilhar contigo este texto.
Precisamos sim nos unir em pensamento e passar todas as energias positivas e combatê-lo..
Falar da vida é muito melhor..Do amor ainda Mais. A Paz então nem se fala..
Sandra
De Briseis a 15 de Março de 2011 às 12:42
Muito bonito e comovente, Mel de Vespas! Gostei muito!
De Mz a 17 de Março de 2011 às 22:23
Incomoda sabermos que ainda existem pessoas como o Zacarias, mulheres que sofrem de violência doméstica e filhos que vivem todo este drama.

Como sempre é um gosto ler-te, mesmo que se tratem de histórias tristes.

bjs

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