Domingo, 6 de Dezembro de 2009

Arroz Doce (conto de Natal)

 

 

 

 Toda a manhã tinha sido a mesma coisa. aquele barulho arrastado dos troncos de madeira a serem despejados em plena praça da vila. A  cada 24 de Dezembro a cena repetia-se. Camiões e tractores fretados pelo Município carregavam raízes de árvores moribundas, e troncos de madeira de azinho para a fogueira que iria aquecer a noite da consoada, e iluminar o nascimento do Menino. O lume era  alimentado até ao dia de Reis, e logo depois extinto até ao Natal seguinte.

Depois daqueles dias de inverno, aquecidos pelo brasido campal, ficava no ar um cheiro acre a despedida, e um pó escuro que se demorava até ao Entrudo.

Maria Rita, assistia a tudo por dentro da janela de sacada do 1º andar, lugar privilegiado com vista para a Praça. Tinha puxado a cadeira para mais perto da janela, assim, podia ir assistindo ao desenrolar do dia lá fora, enquanto bordava um delicado pano de organdi, quase transparente, com motivos de Natal. Pequenos pássaros vermelhos com raminhos de gil barbeiro polvilhavam o paninho de tabuleiro.  Aos pés tinha um pequeno aquecedor eléctrico de duas resistências. A lareira estava acesa desde cedo. A inclemência gélida de Dezembro no Alentejo, não se compadecia com corpos descuidados e almas errantes.

Desviara a cortina de tafetá beije, não demasiado, apenas o suficiente para poder espreitar de quando a quando o que se passava lá em baixo.

Quando o marido ainda era vivo, a casa tinha outro brilho, ele trazia um pinheirinho pequeno, o mais bonito que conseguisse, do pinhal do Eng. Francisco Gouveia, e um caixote de ripas de madeira cheio de musgo alto e aveludado ainda a cheirar a terra molhada. Então ela, com as suas mãos meticulosas e pacientes, compunha um cenário Natalício perfeito. O presépio com estradinhas empedradas e campos nevados de farinha de trigo, rios de papel de prata ondulante e lagos de pedaços de espelho improvisados para o efeito. O pinheiro ficava no canto da sala, ao lado da lareira de granito. Lacinhos de cetim carmim, e bolas de vidro pintadas de ouro, cobriam de luz a pequena árvore, encimada com uma estrela de papel brilhante que se abria como um harmónio. Naqueles tempos não havia estas grinaldas de luzes que agora via lá fora a iluminar ruas e montras, mas nunca faltava a lamparina de azeite para alumiar o Menino no frio do musgo escuro.

Tinha sido um homem bom, pensou com um aceno de cabeça, contava mais quinze anos que ela, e quando o pai chegou a casa com ele e o anunciou como o seu futuro marido, foi com verdadeiro temor que acatou a vontade paterna. Afinal de contas ela era pouco mais que uma menina, e ele um homem feito. Enquanto foi pequena, a mãe, e a avó, não pouparam esforços a fazer dela uma mulher de verdade. Sabia fazer na perfeição os bordados mais complicados e as rendas mais finas, tocava piano com distinção e tinha lido todos os clássicos. A criadagem encarregava-se das tarefas domésticas. Ainda hoje era assim. Já não havia tanta gente lá em casa, no entanto, não saberia como viver sem a companhia segura da Catarina. Era a cozinheira, já andava nos setenta e estava com a família desde os trinta anos, quando enviuvara. Era muda. Movia-se como uma sombra, a deslizar e ainda hoje não deixava que nada faltasse à Menina. Também vivia na casa a Vitorina, mulher robusta de tronco grosso e feições rústicas, era pouco mais nova que Catarina, e não sendo muda, pouco ou nada falava. Fazia todo o tipo de limpezas e trabalhos pesados com o afinco da expiação de uma culpa.
Maria Rita tinha cinquenta anos. Nasceu já os pais tinham passado
quarenta, e perdido todas as esperanças de ter filhos. Foi encarada como um milagre e criada com a devoção própria de uma santa.
Foi perdendo toda a família pelo caminho manso da vida. Os pais envoltos em lençóis de penicilina e xaropes de mel e cânfora,  depois o marido, traído por um coração grande demais. Quedou-se ali, no casarão do 1º andar da Rua Diogo Cão, nº 1, mesmo defronte para a praça central da vila.
No tempo do marido a casa tinha mais cor. Em especial nesta quadra. Joaquim Augusto era um homem simples, que fazia tudo para deixar a esposa feliz...desde que a vontade dele fosse soberana.

Era um homem do campo, criado no meio dos alavões, por mulheres rudes e cansadas.
No casarão era tudo novo. As mobílias, as roupas de cama, os serviços de chá e respectivos adereços, e a pele de Maria Rita, a pele de pêssego da mulher com quem tinha casado.
Habituara-se desde o primeiro momento do enlace a resignar-se aos caprichos do marido. Na verdade nem achava nada de mais nisso! As saias por baixo do joelho, as blusas abotoadas até acima, as mangas compridas, as cores neutras, de preferência escuras.
Estava tudo bem para ela. Sempre esteve. A verdade é que nunca cultivara grandes amizades, para além das Senhoras do Apostolado, que uma vez por mês traziam a Sagrada Família e ficavam para o lanche. Estudara em casa, com uma perceptora que viveu com eles até Maria Rita completar quinze anos. Foi o mais próximo que alguma vez teve de um contacto feminino mais intimo. Mas ainda assim, havia sempre um muro difícil de transpor, e as perguntas ficaram  por fazer.

Já tinha perdido o conto aos anos que não descia daquele 1º andar, a não ser claro, para as visitas de rotina ao Dr. Virgílio, cujo consultório ficava apenas duas portas abaixo da sua.
As três mulheres compartilhavam o casarão num silêncio consentido, uma porque era muda, as outras porque emudeceram. Parou de bordar por um segundo, massajando os dedos dormentes de tantas horas de empreitada. O cheiro a fumo imiscuía-se já pelas fechaduras e frestas de portas e janelas, e de alguma maneira depositou em Maria Rita um pouco do espírito da quadra. Já anoitecia, as luzes nas árvores e na fachada da Igreja, acenderam-se aos poucos, e a praça ficou finalmente vazia de gente. Era hora do jantar. Catarina já fizera soar a sineta de porcelana francesa. Maria Rita guardou o paninho, desligou o aquecedor, e dirigiu-se pra a sala de jantar, anexa, onde a mesa a esperava, imaculadamente posta. Bacalhau cozido com couve-galega a fumegar na travessa, um prato de vidro fino repleto de sonhos de abóbora com calda de açúcar, e outro com arroz doce, cremoso, Feliz Natal, escrito a pó de canela.
Agradeceu a Catarina e sentou-se. Jantou sozinha como sempre. Não tinham tido filhos. Aceitara esse facto, com a mesma calma com aceitara tudo na sua vida. Sabia que nas casas da vila, havia famílias inteiras à volta de mesas, crianças a correr, brinquedos embrulhados em papéis coloridos...Não percebia porque logo hoje se fora lembrar destas coisas. Logo hoje tinha vontade de maldizer a esterilidade do seu ventre, logo hoje pensava com alguma raiva nos sapatos pesados que trazia nos pés. Era noite da consoada, e não fora o cheiro a fumo lá de fora, e as luzes que piscavam na rua, ninguém entrando ali saberia.

Comeu devagar, sem apetite. Experimentou um pouco de tudo sem vontade, apenas para não magoar a cozinheira. Ligou a televisão, apanhou um xaile de caxemira antracite de cima do cadeirão, e sentou-se colocando-o pelos ombros.
 

Porquê logo hoje este nada lhe estava a crescer no estômago? Levou a mão à cabeça. Acariciou o cabelo atado  num rabo de cavalo antigo. Num gesto brusco, puxou o elástico e sacudiu a cabeça. Aquele nada devia ser a ânsia de liberdade, porque foi o gosto que lhe veio à boca.

Lá fora começava a ouvir-se um corrupio de vozes. Um burburinho de gente agasalhada, dirigia-se para a Igreja. A Missa do Galo não tardava. Havia casais de mãos dadas, outros abraçados. Não se lembrava de ter saído de mãos dadas com o seu Joaquim para algum lugar. Nem para a Missa do Galo. Saiam sempre meia hora antes para apanhar o melhor banco, ele de capote e botas caneleiras à frente, ela atrás num passinho curto de reverência. Nunca me deu a mão! Agora parecia-lhe a maior das ofensas.

 E se ela...e se ela fosse à Missa? Podia sentar-se ao lado das outras pessoas, sentir-lhes o cheiro, o calor. Esquecera-se de como era o toque de alguém. Um aperto de mão, um abraço, um simples toque de ombros. 

Correu para o quarto, tirou do guarda-fatos o casaco de abafar, um cachecol de tricot rosa velho que tinha feito há anos e lhe fora confiscado pelo marido, e correu porta fora.

Desceu as escadas de um fôlego, e achou-se no meio da praça. As labaredas laranjas do lume, as pessoas, as luzes. Sorriu, apertou o casaco e entrou na Igreja.

Sentou-se num banco lateral ainda vago. Logo depois chegou um casal de velhotes de braço dado. Abriram-lhe um sorriso franco de boas noites e boas festas. Maria Rita devolveu o sorriso e ficou com um rubor de felicidade no rosto. Ainda se lembrava de como era sorrir.

Relembrou as canções de Natal, eram as mesmas da sua mocidade.  Atreveu-se a cantar, primeiro num sussurro, depois com alma e força, e aquele rubor tomou conta dela inteira.

No final da missa, despediu-se do casal com um aperto de mão demorado, desejou-lhes Boas Festas e foi para casa, sem pressas. O coração a abarrotar de vida.

Despiu o casaco, jogou o cachecol para cima de uma cadeira, aventou os sapatos para longe e atirou-se com gula ao prato de arroz doce.

 

Para o Desafio de Dezembro da Fábrica das Letras

 

 

 

 

 

 

Image in DeviantArt

 

 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 11:16
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14 comentários:
De Juana a 6 de Dezembro de 2009 às 13:25
Muito bem escrito, gostei muito, li e visualizei o conto como se fosse um filme.
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 09:41
Obrigada Juana, a ideia é mesmo um texto muito visual.
Volta sempre
Beijinho
De João a 6 de Dezembro de 2009 às 23:13
As mulheres e os doces!

Mulheres... Humpf!
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 09:42
Onde achas que vamos buscar as calorias necessárias para sobraviver junto dos homens!?
Beijo Grande Jóni
De Teresa a 6 de Dezembro de 2009 às 23:46
A partir daquele dia, decidiu que a sua vida seria diferente, teria um sentido. Começou a sair à rua, primeiro a medo, depois cada vez mais mais à vontade, mais segura. Descobriu que podia fazer coisas pelas outras pessoas, fazê-las felizes e fazer-se feliz a si própria. Pela primeira vez na vida. Mas... a vida começa aos cinquenta anos, não é?

Gostei muito, Mel.
Bjs
De mz a 7 de Dezembro de 2009 às 00:09
E assim soltou a mulher esquecida dentro dela ... feminina, prazenteira e pecadora... sim porque a gula também é pecado!

:)

Esta história fez-me recordar os presépios que eu fazia em família.
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 10:13
Mz, é isso mesmo! A Maria Rita tinha muita coisa adormecida dentro dela, ohh se tinha.
Beijinho, volta sempre
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 09:46
eheheh, não sei se a vida começa aos 50, mas acho que sim, acho que começa a cada ano, aos 20 de uma maneira, aos 30 de outra, aos 40 mais um passo e por aí adiante, como dizes mais importante é mesmo a felicidade cá dentro, porque acho eu, é essa que nos eleva ao ponto de fazer felizes os outros, os que nos rodeiam, beijos grandes Teresinha
De Mary Brown a 7 de Dezembro de 2009 às 00:10
Mel os teus contos desenrolando-se com suavidade levando-nos com eles. É nesta época que a solidão toca as pessoas e que a ausência de companhia se sente. Mas a Maria Rita agiu, fez algo por ela, esta quadra serviu para a acordar.
Emenda só o nome dela nesta frase: Maria Rira tinha cinquenta anos.
A frase que mais gostei foi sem dúvida esta:
Joaquim Augusto era um homem simples, que fazia tudo para deixar a esposa feliz...desde que a vontade dele fosse soberana.
Este desde que a vontade dele fosse soberana explica bem o carácter dele. Teve sorte em encontrar uma Maria Rita.
Beijinhos e ...desafio conseguido
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 10:09
Mary. obrigada mais uma vez pela tua generosidade. A solidão é uma porra! E nestas alturas quer queiramos quer não ela é mais uma à mesa de muita gente.
Já emendei (upss) obrigada ;)), eu escrevo de "empreitada", sem pensar muito, e depois há sempre alguma coisinha que escapa.
Beijos Grandes
De Teresa a 7 de Dezembro de 2009 às 00:13
Mel
Não ficaste aborrecida por eu continuar o teu texto, pois não? Gostei tanto que foi irresistível!
Bjs
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 10:14
Oh Teresa, francamente! Fico até muito lisongeada que tenhas gostado. Esta é uma estória que ficou em aberto, livre!
~Beijos outra vez;D
De Gingerbread Girl a 7 de Dezembro de 2009 às 17:29
Lindo, como sempre.
A desgraçada ainda acordou. Já com a procissão a meio do adro, mas ainda acordou.
Quantas pessoas não morrem sem saber o que é a felicidade e a liberdade simples. Anulam-se em detrimento de quem não merece.

E agora também me ficou a apetecer arroz doce. -.-

Um abraço daqueles que fazem doer as costelas*

*
De meldevespas a 7 de Dezembro de 2009 às 20:22
Agora q falas nisso, já marchava um pratinho de arroz doce....
Obrigada minha linda.
Um abraço igual pra ti :DDDD

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