Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2010

Vou deixar-te

 

Acelerava o passo ao ritmo da raiva que lhe toldava toda a existência.

As mãos nas algibeiras. Os nós dos dedos anémicos à força de tão apertados.

Queria chegar a casa. Logo hoje se lembrara de ir a pé para o emprego. Logo hoje lhe tinham passado pela cabeça aquelas merdas todas da necessidade de exercício físico e vida saudável e o tanas!

O vento frio abria-lhe gretas ácidas na pele, e ateava-lhe a urgência da chegada. A cabeça a mil, estava povoada apenas pela visão da mensagem crua: "vou deixar-te".

Assim! Sem mais nem porquê! Por quem o tomava? Por quem se tomava?

Sem dar por isso, já quase corria. Tinha que chegar antes que ela saísse. Não podia ser de outra forma.

Ah que vontade de deitar cá pra fora tudo o que lhe calava a paciência de anos e anos. Vomitar sem dó nem piedade as verdades mudas que sempre achara prudente guardar.

Dizer-lhe sem pejo que aquele batom vermelho Borgonha lhe fica mal, que os lábios dela já não são o que eram, que a cor escorre pelas rugas de expressão, e ao fim de poucas horas ela é apenas uma visão aterradora de um qualquer filme porno doméstico.

Dizer-lhe na cara que os seios partidos, pareciam  vagens de alfarroba secas, que as nádegas que ela meneia quando caminha diante dele, são pouco mais que enormes sacos de gelatina.
Atirar-lhe à traição que o ginásio e as dietas miraculosas e os cremes e as porras todas às quais ela prestava culto, não tinham efeito nenhum, que ela definhava assim mesmo, que toda ela cedia à pressão monumental da gravidade.

Dizer-lhe que era ridícula nos preparos, que se riam nas costas dela, dos brincos pendentes de bolas e cristais plásticos, que abafavam mexericos sobre o verniz escarlate que lhe dava ar de puta da rua!

Gritar-lhe que sim, que partisse! De uma vez!

Que não aguentava olhar-lhe prà cara nem mais um minuto, que lhe dava asco pensar no beijo nocturno, que o nauseava o toque áspero das suas pernas no meio dos lençóis.

Abriu a porta num rompante. Surpreendeu-a na sala, sentada no sofá, um cigarro aceso nos dedos, a mala de viagem ao lado.

Com o calor da raiva a subir por ele acima, o coração surdo de tanto bater, ofegante ainda, olhou-a e disse:

- Amo-te...

 

Image by Pesare in Deviantart

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 14:35
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36 comentários:
De Gingerbread Girl a 4 de Janeiro de 2010 às 16:34
Muitoooooooooo bom!! =D
Consigo totalmente ver isso a acontecer. =p
É curioso como a sensação de "traição" nos brinda sempre primeiro com sentimentos de raiva cega.


bjitos*
De Fia a 4 de Janeiro de 2010 às 16:49
E depois ouvimos pessoas cheias de coragem a dizer "Eu? Eu não me tinha ficado! Dizia-lhe tudo o que ela/e merecia".
No momento, é inexplicável,
Profundo e de fácil leitura.
Parabéns
Sofia
De meldevespas a 4 de Janeiro de 2010 às 20:15
Fia
Antes de mais, obrigada pela visita.
Tens razão, viver o momento e agir, isso sim é duro. Quase sempre falamos assim do que de passa com os outros, é o tal "ahhhh se fosse comigo!!!!"
Beijinhos
De meldevespas a 4 de Janeiro de 2010 às 20:12
Verdade...essa coisa das raivas cegas, na maior parte dos casos é apenas o desabafo absolutamente necessário para seguir em frente.
Beijos linda
De joão a 4 de Janeiro de 2010 às 17:17
E até aposto que ela estava a pensar que estava a cometer um erro enorme, que, se calhar, ele até era giro e tudo podia melhorar, mas só lhe saiu:
- Vou deixar-te.

É a racionalização a (não) funcionar.
De meldevespas a 4 de Janeiro de 2010 às 20:17
Achas???
hummmm quem sabe...mas não acredito! A gaija queria mesmo pirar-se!
Beijinhos, gostei desse gesto de cavalheiro a defender a dama...
De joão a 4 de Janeiro de 2010 às 20:33
Não, não, não... Mas da mesma forma que ele não achava aquelas coisas todas más, também ela não achava as coisas boas... são apenas algumas indecisões que assolam as cabeças em momentos de decisão. Na realidade, ele amava-a e ela não o amava.
De meldevespas a 5 de Janeiro de 2010 às 12:30
Pelo menos não ao ponto de, como ele, fazer das indecisões as certezas ;D
De marta a 4 de Janeiro de 2010 às 18:38
Juro que estava à espera de um recado incompleto!

Tipo "Vou deixar-te... o empadão no micro-ondas, metes 4 minutos e tens o jantar pronto. Deixei-te Mateus Rosé no frigorífico. Guarda um bocadinho para nós, logo. Fui à minha mãe, que o raio da velha está empenada no sofá e está a engonhar a porra do jantar! Beijinhos, amor!"
De meldevespas a 4 de Janeiro de 2010 às 20:18
ehehehe tinha sido bem pensado sim Senhora!
...mas afinal é só uma estória banal de um homem apaixonado.
Obrigada pela visita
De chica a 4 de Janeiro de 2010 às 19:47
Surpreendente esse final ! Muito lindo! beijos,tudo de bom,chica
De meldevespas a 4 de Janeiro de 2010 às 20:22
Obrigada chica! Volta sempre.
Beijinhos
De A VER NAVIOS a 4 de Janeiro de 2010 às 21:25
Pois, o final é surpreendente. Será isso o amor?
Ou será apenas sinal de pouca coragem.
Deixo à escritora o veredicto.
Excelente ano de 2010, sãlo os meus votos.
J. Lopes
De meldevespas a 5 de Janeiro de 2010 às 11:10
É o amor que é cego lá diz o poeta! É cego e vê, e cala eheheh
Beijinhos e muito obrigada
De Teresa a 4 de Janeiro de 2010 às 23:20
Olá Mel
O tema era a Beleza ou o Amor? Ou talvez a beleza do amor. Ok, a raiva faz pensar isso tudo, mas no fim, foi o sentimento que falou mais alto.
Gostei!
Bjs
De meldevespas a 5 de Janeiro de 2010 às 11:20
É mais a relatividade da beleza, aquela coisa muito antiga e sempre verdadeira de "quem o feio ama..."
Beijos
De Mz a 5 de Janeiro de 2010 às 17:08
Um misto de raiva e ódio neste texto mas o final é surpreendente... afinal, o amor ainda existia....

O tempo não perdoa e beleza exterior é sempre a que desaparece primeiro... e depois fica a outra beleza... seria essa que ele amava certamente!

bjs
De meldevespas a 5 de Janeiro de 2010 às 17:37
Certamente...como diz o poeta (desta vez é outro poeta ehehe) "o amor já n é cego, abre os olhinhos à gente"
Beijinho e obrigada pela visita
De Catsone a 6 de Janeiro de 2010 às 00:26
Mel, ia tão alucinante este teu texto e, de repente, saíste-te com aquela frase final... muito bom.
Das melhores coisas que tenho lido ultimamente. Parabéns.
*
De meldevespas a 6 de Janeiro de 2010 às 09:51
Obrigada pela visita, e obrigada especialmente pelo comentário tão generoso (fiquei babada...)
Beijinho
De Eva Gonçalves a 6 de Janeiro de 2010 às 13:18
Só agora li esta história e gostei bastante! Quantas vezes já não me aconteceu algo parecido :)Beijinho
De meldevespas a 6 de Janeiro de 2010 às 15:37
olá Eva, ainda bem que gostaste. Quem de nós não calou já tantas vezes estes acessos de raiva porque o coração fala mais alto?
Beijinho
De Mary Brown a 6 de Janeiro de 2010 às 23:26
Mel eu já comentei mas, por mais voltas que dê não vejo aqui o meu comentário. Quando o fiz ainda só estava o da Ginger e da Fia. Bem não tenho outra opção do que fazer outro. Acontece cada uma! As coisas importantes têm tendência a desaparecer, rssss , até no amor acontece. Quantas vezes esquecemos momentos mágicos só porque surgiram alguns com sabor a limão? Mas quando há amor não há decadência física que o consiga apagar. O amor é belo e é esta beleza que nos traz felizes, com um sorriso de orelha a orelha mesmo com a carteira vazia. Adorei o teu conto e é quando sentimos que perdemos algo que lhe damos a importância que tem. Tu sabes bem exteriorizar estes pequenos nadas, tão importantes, que enchem a nossa vida. Beijinhos
De meldevespas a 7 de Janeiro de 2010 às 10:48
Já me aconteceu, até mais que uma vez esta coisa dos comentários não aparecerem....enfim, coisas das tecnologias, que nos ultrapassam.
Obrigada por teres o trabalho de comentar outra vez, as tuas palavras são sempre um bálsamo para a minha vaidade ehehhe.
Verdade que gosto de falar de pequenos nadas, daquelas coisinhas que às vezes são pequenas mas magoam como uma pedra no sapato.
Obrigada amiga, um beijo grande

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