Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Brandura

 

Clarinha olhava a rua, com olhos de chuva em Abril. Debruçada na janela sentia o deserto da calçada no seu peito, e sustinha a respiração ao bater de asas de mais um pombo que passava na direcção do pombal do Domingos. Os pombos eram uns seres estranhos, cinzentos como um fogo apagado, tinham um voo quieto e um arrulhar rouco, segredado. Nunca gostara deles. Encolheu-se, e levou as mãos ao peito apertando a camisa de cambraia. O voo do pombo tinha puxado o fim da tarde, e o sol virou a cara encandeado com o cinzento alado que lhe roçou o último raio da tarde.Clarinha estancou a chuva no olhar e deixou o luar iluminar o chão encerado da sala. Fechou as portadas e esqueceu os pombos, o sol, e o Domingos.

Em cima da mesa, passado a ferro com esmero, descansava um traje de dama antiga. Os olhos de Clarinha olhavam como chuva de Abril, mas era apenas Fevereiro. Um vestido branco de cetim cristal, pesado e brilhante, rematado de folhos amarelos de organdi, e laços esvoaçantes no decote profundo. Um chapelinho de abas curtas, em palha escurecida pela sombra da espera, completava o conjunto. A avó Angélica, tinha deixado tudo direitinho como sempre, mas Clarinha já não tinha vontade de brincar como dantes. A Avó Angélica fazia-lhe bonecos de trapos pra ela sair à rua no dia dos Compadres. Vinham em ranchos, as raparigas, de um lado, os rapazes de outro. Corriam atrás uns dos outros, cantavam ao desafio, e desfiavam quadras de paixões encobertas em gargalhadas e toques furtivos.

Os dias de Fevereiro tinham ficado sem sol, e as matinés do Clube eram agora sombrias e desprovidas de encanto. Clarinha pegou no vestido, colocou-o à sua frente e ensaiou uns passos de dança na sala ampla. Sorria, enquanto trauteava uma valsa alegre, e rodopiava. Os folhos de organdi ondulavam e o vestido brilhava incandescente. Cansada deixou-se cair no chão, o vestido desmaiado ao lado dela, extenuado de voltas e valsas.

Estava escuro. O luar empalidecera de espanto. Talvez de a ver valsar assim, enquanto espreitava pelos vidros da janela de sacada. Puxou os joelhos até ao peito, e deixou-se ficar ali abraçada a si própria. Estava tanto frio. A casa sempre fora fria, mas a Avó tinha o cuidado de fazer lume. Um lume doce, morno. Quantas vezes adormecera com a voz do lume a contar-lhe estórias de princesas mágicas, amores trágicos, fugas épicas e lutas de papel! Logo hoje, que a noite estava tão fria, e o luar tão pálido, logo hoje não havia fogo aceso. O vestido. Lembrou-se. Apanhou-o do chão e cobriu os braços nus com ele. Adormeceu assim, enroscada em cima do soalho encerado.

O dia amanheceu, outra vez opaco. Uma névoa branda, compunha as ruas da vila. No terraço, Domingos treinava os pombos-correios para o próximo concurso, uma cana, com um saco plástico branco atado na ponta, era brandida com suavidade calculada.
Hoje, como todos os dias os seus olhos procuravam o mesmo. A janela de vitrais do casarão do largo. Aquele mausoléu despido de gente e de vida. Esventrado há décadas. Violado de portas e janelas e louças, e tudo o que naquela noite de Fevereiro tinha escapado ao incêndio A janela de vitral, permanecia intacta, teimosa, superior às chamas, superior à morte, a encher de reflexos a rua em dias de sol, a encandear os pombos, que cegos se acabavam em voo picado até ela.

Um carro alegórico anunciava em alta voz, o desfile de carnaval. O dia chorava a lembrar-se de Abril, mas era apenas Fevereiro.

 

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Original Zumbido por meldevespas às 19:46
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14 comentários:
De joão a 9 de Fevereiro de 2010 às 22:22
aqui já não é a simplicidade... mas sim o talento da capacidade descritiva que eu, por exemplo, não tenho. Está muito bem ligado, coerente e... muito bonito.
De meldevespas a 10 de Fevereiro de 2010 às 09:33
Ás vezes gosto de escrever neste tom...digamos ...com um toque de poesia, mas tenho sempre medo que fique demasiado lamechas:\
Fico feliz q tenhas gostado.Muto obrigada e um grande beijinho
De manecas a 10 de Fevereiro de 2010 às 00:37
OLá
Deslumbrante.
A tua forma de escrever e descrever faz sonhar como quem voa.
Gosto disso.
Obrigado
De meldevespas a 10 de Fevereiro de 2010 às 09:35
Ohh muito obrigada, e ler estes comentários logo de manhã também me faz voar eheh
Beijinhos e volte sempre
De Pinguim a 10 de Fevereiro de 2010 às 06:29
Um belo conto sobre o Carnaval...de outrora.
Também para mim, hoje em dia, o Carnaval é um tempo que nada me diz; já não gosto mesmo nada de datas em que programadamente se deve estar feliz...
De meldevespas a 10 de Fevereiro de 2010 às 09:37
Na verdade já nada é como era, não é?
Aqui na minha terra, esta altura era mesmo de "estrondo", e mesmo com a programação de que falas, a malta divertia-se à grande, os bailes e matinés todos os 3 dias, grupos inteiros de máscaras, muit festa, nada disto qe hoje vemos, desfiles de pessoas muito arranjadinhas e ao mesmo tempo com aquele ar de frete.
Beijinhos
De Gingerbread Girl a 10 de Fevereiro de 2010 às 12:42
Este foi, sem sombra de dúvida, o texto teu que eu mais gostei. :|
A minha alma está a abarrotar!


Abraço apertado*
De meldevespas a 10 de Fevereiro de 2010 às 14:41
Mentira!!!!
A sério?...
Olha, ainda bem....eu gosto de almas a abarrotar :DDDD
Beijos e abraços apertados pra ti tb
De Mary Brown a 12 de Fevereiro de 2010 às 12:07
Mel, como diz a Ginger , este foi, daqueles que li, o teu melhor conto. As descrições têm vindo a melhorar tanto que desta vez deixaste-me de boca aberta. Este tom poético é fascinante e obriga-nos a dançar ao som da tua linda melodia. Beijinhos
De Lala a 12 de Fevereiro de 2010 às 16:41
Bem Mel. Está lindo! Belo conto de Carnaval!! Infelizmente a alegria e espontaneidade de outrora não são as mesmas de hoje. Nada voltou a ser feito como antes. Por esta altura, há alguns anos atrás andaria eu numa roda viva e "a braços" com o meu disfarce de carnaval. Hoje... pffff. Se eu não tivesse uma filha nem me lembrava disso.
Também gostei muito da forma como descreveste, sem tornar cansativo, todo o cenário e situações.

Muito bem escrito! Parabéns!

Beijinho**
De meldevespas a 15 de Fevereiro de 2010 às 12:31
Verdade Lala! não fossem as nossas crianças e hoje em dia nem dava pela coisa!
Beijos e muito obrigada.
De meldevespas a 15 de Fevereiro de 2010 às 12:30
Muito obrigada.
Vocês são umas queridas, e mimam-me muito!
Beijos Grandes
De leonor a 15 de Fevereiro de 2010 às 14:48
isso , mata-os todoooos !


( está lindo , as usual mum. *)
De meldevespas a 17 de Fevereiro de 2010 às 10:02
Obrigada ;D
E tu põe-te a páu! OuvisteS?|
^Beijinhos

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