Segunda-feira, 1 de Março de 2010

Na margem

 

 

No mundo não conhecia mais que três sons. A voz da mãe, o uivo do vento e o choro da noite.

A mãe deixara de existir num sopro, o vento cessou na placidez do monte, e o choro extinguiu-se num remorso.

Ficou o silêncio. Um silêncio cheio de estalidos de passos inquietos no soalho cansado do casebre.

E eram esses passos que agigantavam as ausências.

Um dia viu-a. Ela corria a par da ribeira, e os pés descalços provocavam um restolhar impaciente nas ervas tenras da margem.

Ela era alegre. Cantarolava baixinho e falava com os bichos, e dava gargalhadas e soltava os cabelos na água quando o sol se punha.

Ele vivia de longe. Galgava a noite à pressa, e sorvia a manhã no leito da corrente. Olhava-a do cimo do monte a acalmava o peito com um gesto pagão.

Um dia ela deixou de lá estar. Ficou um cheiro de flor de laranjeira a carregar o ar, e um ondular leve na margem da ribeira.

Nessa noite dormiu devagar, e acordou sobressaltado com um som familiar. Chorava.

 

 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 15:33
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48 comentários:
De Gingerbread GirlP a 1 de Março de 2010 às 15:50
Passou do silêncio, para um cantarolar baixinho, para novamente silêncio e acabou com o choro.

Muito bonito e triste.
Poucos são os que conseguem transmitir a beleza da tristeza como tu.

Um abraço apertadinho**
De meldevespas a 1 de Março de 2010 às 15:57
Não sei se isso é muito bom...acabo demasiadas vezes a escrever sobre isso.
Obrigada, um abraço igualmente apertadinho pra ti tb
De Hyndra a 1 de Março de 2010 às 17:21
Tão suavemente silencioso o teu texto! :-D
De meldevespas a 1 de Março de 2010 às 17:37
Estamos a falar de silêncio não é? Shhiuuuu.
ehehehe
Beijinhos e obrigada
De joão a 1 de Março de 2010 às 17:39
A mim - e antes que a Ginger venha dizer "quem é que te perguntou?" - sem ninguém me perguntar, sentindo-me na liberdade de o fazer, este texto transmitiu-me a inocência da esperança e a dura realidade da desilusão, algo que, de resto, é bem familiar à humanidade.

(E para quê a verificação de palavras? Não dá para retirar?)
De meldevespas a 1 de Março de 2010 às 17:53
Olha Joãozinho, aqui podes responder ao que quiseres (mesmo sem ninguém te perguntar nada, é bem verdade...) e a Ginger baixa a bolinha.
Beijinho e ainda bem que os meus textos te transmitem coisas tão bonitas.
Beijo
Ps: Vou ver se consigo tirar a treta da verificação
De Mary Brown a 1 de Março de 2010 às 19:10
Não há dúvida que o silêncio fazia parte da sua vida. Um silêncio com o qual não convivia muito bem por isso acaba a chorar.
Lindo, simples, claro, breve e envolvente. Um silêncio conquistador.
De meldevespas a 1 de Março de 2010 às 20:26
Conviver com o silêncio é bom, mas...sempre?
Só podia acabar a chorar.
Obrigada minha querida.
Beijinho
De Juana a 1 de Março de 2010 às 20:23
... se chorava, acordou para a vida! O choro é um pronúncio de vida para o ser humano! Gosto muito dos teus textos! Parabéns!
De meldevespas a 1 de Março de 2010 às 20:27
Concordo contigo, o choro é um prenuncio de vida.
Obrigada por gostares.
Beijinhos
De chica a 1 de Março de 2010 às 23:02
lINDA TUA PARTICIPAÇÃO!aDOREI!BEIJOS,TUDOS DE BOM E LINDO MÊS DE MARÇO!CHICA
De meldevespas a 2 de Março de 2010 às 10:02
Oh Chica, obrigada!
Beijinho e um óptimo mês tra ti tb.
De Teresa a 1 de Março de 2010 às 23:09
Mel
Se ele tivesse conseguido desafiar o silêncio... E tivesse chegado à margem e estendido a mão para ela... Talvez não tivesse acabado a chorar.
Todos temos o direito à procura da felicidade.
Bjs
De meldevespas a 2 de Março de 2010 às 10:05
e se? tinha-se acabado o silêncio provavelmente.
Beijinhos e obrigada
De Eva Gonçalves a 1 de Março de 2010 às 23:15
São os ciclos da vida e das emoções... gostei bastante do teu texto, e da forma como o silêncio é recordado... até deixar de o ser novamente. Os silêncios, raramente, são eternos... :) Beijinho
De meldevespas a 2 de Março de 2010 às 10:08
é nessa efemeridade dos silêncios que reside a sua beleza, e /ou a sua tristeza.
Beijo Grandes
De Lala a 2 de Março de 2010 às 00:40
Bem... que ternura de texto!! Não quero estar a repetir o que a Ginger disse, mas a verdade é que depois de o ler no silêncio, consegui identificar a beleza da tristeza!!
Mais uma vez, fantástico!!

Beijinhos***
De Sandra a 2 de Março de 2010 às 01:09
Cada um de nós vê no seu ponto vista está questão do silencio.
Acredito é que não podemos mais nos calr diante das injustiças. o Silencio de todas as faces para as suas interpretações..
Para cada situação, uma maneira de ver as coisas..
Ele existe em todos os nossos sentidos de vida..
Seu trabalho ficou muito. Muito bom..Gostei.
Venha me visitar..Também estou participando. http://sandrarandrade7.blogspot.com

Deixo o convite para ser meu mais novo seguidor, caso gostares daquele blog.Apreoveite para conhecer os demais.
Ficarei muito feliz.Carinhosamente,
Sandra
De meldevespas a 2 de Março de 2010 às 10:13
Sim Sandra, mesmo o silêncio é diferente em cada um de nós, ou faz-se de forma diferente....
Claro que vou visitar-te!
Beijinhos e obrigada
De meldevespas a 2 de Março de 2010 às 10:11
Lala, muito obrigada.
A solidão é sempre bela, nem que seja pelo dramtismo que encerra, e mais ainda se for vista de fora.
Beijinho grande
De Su a 2 de Março de 2010 às 09:36
Oh... estava a gostar tanto e foi tão curto...
Espero que pegues neste pequeno conto e o desenvolvas... gostava de saber mais dela e dele. E gostava muito que se reencontrassem...

Mas e apesar disso, nas parcas palavras que escreveste conseguiste prender-me a atenção e a querer saber mais...
De meldevespas a 2 de Março de 2010 às 10:16
Ela nem deu por ele. Ele podia até ser uma erva na margem...
Aquilo não era coisa que desse certo eheheh
Beijinhos e obrigada
De Nathalie a 5 de Março de 2010 às 23:03
Este é o texto em prosa poética mais bonito que já li nos últimos tempos. Há uma beleza eterna, inexoravelmente tocante nos textos em que a tristeza é um dos sentimentos predominantes.
Tudo isso existe e se alia à música do blogue.

Parabéns
De meldevespas a 7 de Março de 2010 às 01:42
Nathalie, muito muito obrigada pela generosidade das tuas palavras. E tens muita razão, a tristeza é sempre apaixonante, nos livros, nos filmes, nos outros...
Beijinhos
De magna a 8 de Março de 2010 às 14:44
olá parabéns pelo post!
"E eram esses passos que agigantavam as ausências."
as palavras fazem com que nos percamos neste espaço tão profundo!a vida é assim se perder em palavras!
De meldevespas a 8 de Março de 2010 às 14:47
Muitíssimo Obrigada!
Beijinho

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