Terça-feira, 6 de Abril de 2010

No limite

 

 

Imagem em DeviantArt

 

 

Quase podia jurar ter ouvido bater na porta do quintal. Se não fosse o adiantado da hora, aquele gato vadio tinha-a ludibriado na certa. Em casa já todos dormiam. O dia de trabalho tinha acabado os corpos, e ali nada mais havia do que corpos. No quarto pequeno dormia a filha mais velha, com a criança. Esta semana o homem com quem se deitava a tempos, não tinha aparecido, por isso a criança podia ficar na cama com a mãe. O homem mandava dinheiro. Era pontual e constante. Ele podia não parecer, mas o vale de correio chegava todos os dias 10 de cada mês, à ordem de Olívia Pinto. Dinheiro nunca era demais. A criança, de seis meses tinha uma cor bacenta desde o dia que chegara ao mundo. Uma tez amarelada, profunda como uma despedida. Custava muita farmácia, uma cria daquelas. Unguentos, e vapores, soluções salinas, xaropes, pomadas... Maldito gato! Não era mulher de temores, mas estes animais, assim, no meio da noite, a escalar telhados, a largar miados de angustias passadas, davam-lhe arrepios na base do pescoço, e traziam-lhe presságios de antigamente. Tinha gravada na pele, fundo, em carne viva, a noite em que despejara no mundo o filho do meio. Dizia o povo "filho do meio, filho do coração". Até hoje nunca o sentira assim. Era seu, defendia-o com as unhas de fora, e os dentes e as forças todas do seu corpo miúdo se assim fosse preciso, mas o coração...isso era outra coisa. Aquele rapaz, meio rapaz. Aquele ser mal acabado, de órbitas perdidas e boca aberta. Eternamente aberta, como um fim do mundo ali mesmo à porta, um abismo de dor para uma mãe olhar. Escolhera não olhar. Vestia-o, asseava-o, alimentava-o, como fazia com os animais do quintal. A horas, sempre. Mas senti-lo no coração... não tinha sido capaz de tanto. O pai desse filho, passara-lhe pelo corpo com a rapidez de uma trovoada em Agosto. Tirara-lhe o juízo mesmo no meio da seara no mês da monda, e nas urgências que estas coisas dos corpos destilam, deixara-se emprenhar, outra vez. Era o terceiro filho, era o terceiro pai. Nascera calado, roxo como a Páscoa do Senhor. O Dr. Basílio, que morava no largo, cantara a desgraça como o galo de madrugada, " Júlia, o rapaz está vivo, mas era melhor que não estivesse." e deu-lhe aquele despojo de mais uma guerra para os braços. Olhou o médico, teve raiva dele. A criança roxa, continuava calada, os olhos escancarados e a boca descaída num esgar, com um fio de baba que fiou num fuso durante toda a sua vida depois dessa noite. Trinta anos. Quando se lembrava ainda tinha dores na boca do corpo, como se estivesse outra vez a parir aquela criatura. Como se o trouxesse ao mundo de cada vez que se lembrava. Também ele dormia já, calmo, quieto, no divã do quartinho dos arrumos. Dormia e sonhava uns sonhos vazios como a cabeça dele, pensava ela engolindo um gemido de ressentimento. Se calhar é mais feliz que todos aqui dentro destas paredes frias. Tem o cérebro do tamanho de um feijão seco, ri-se de tudo e de nada, e come que nem uma besta, o desgraçado! Olhou a porta entreaberta do quarto, nada, só aquela respiração pesada, estava gordo o anormal. Odiava-o, odiava-se por não o conseguir amar. Como se pode amar um ser assim! Os outros filhos não eram modelos de inteligência, ela sabia-o bem. A mais velha era uma oferecida, que só pensava em abrir as pernas. Cerrou os olhos e meneou a cabeça, também já fui assim. O segundo, também rapaz, desaparecera no mundo. Devia estar agora com trinta e dois, trinta e três anos. Quem sabe se estaria vivo ou morto. Aos 15 anos tivera a ousadia de lhe levantar a mão, a ela, à mãe que o pusera nesta vida. Disse-lhe que saísse e não mais voltasse. Pela primeira vez na vida ele obedeceu. A quarta era uma rapariga mansa. Acanhada, fechada dentro de um corpo bafiento e cheio de banhas. Tinha uns olhos azuis claros, sempre marejados de água, e um rancor por todos os seres viventes, que extravasava em rezas e mezinhas nos encontros de uma seita religiosa de origem suspeita, todos os Sábados antes do pôr-do-sol. Estava perto dos trinta e nunca lhe conhecera homem. Também, não havia vivalma que quisesse deitar-se com aquele monte de esterco, pensou enojada. A mais novita tinha em doçura o que sobejava à gorda em amargura. Era burra que nem uma porta, não tinha ilusões, mas em compensação era bonita, fresca, descarada. Sabia todos os caminhos da vida apesar da pouca idade. Já a tinha tido depois dos quarenta, quando do corpo restavam cinzas e o fogo tinha consumido todas as vontades. Os outros filhos esgatanhavam-se em casa por uma côdea de pão, e aquele homem, caixeiro viajante, vendedor de panos e louças, tinha a carteira cheia de dinheiro, e era generoso com a hospitalidade dos prazeres que ela lhe proporcionava. Um dia deixou de aparecer. Pelo correio chegou um embrulho. Uma toalha de linho, com umas pontas de renda envelhecidas pelo tempo, uma nota de cem escudos bem dobrada e um bocado de papel com a palavra "obrigado". Nesse dia engoliu uma caixa de comprimidos e acordou no hospital a vomitar. Queria ter ficado a dormir para sempre. Doíam-lhe os músculos todos do corpo. Era Abril, e não tardava começava o restolhar das andorinhas lá fora. O pai da mais velha, o único que lhe oferecera guarida e papel assinado, fora também ele o primeiro da sua vida. Eram pouco mais que duas crianças. Apaixonaram-se. Soltou uma gargalhada tímida, perante este pensamento. Apaixonaram-se. Três anos depois, com os dois filhos ainda de colo, encontrou-a no meio da seara, com outro homem a arfar em cima dela. À noite, em casa, chamou-lhe puta enquanto a atirava à parede presa pelos cabelos. Quando por fim ele dormiu, agarrou nas crianças, e fugiu dali sem olhar para trás. Não era mulher de temores. Nem Deus, nem o Demónio a assustavam, quanto mais um homem, um simples homem. Mal sabia ele que esta não fora a primeira traição, que o rapazote ranhoso a quem chamava filho, era o resultado de meia hora de cio com o irmão dele que viera passar os Santos lá a casa. Não se arrependia. Nunca se arrependera. Os cornos ficam bem a um homem bruto. Tantos anos depois ainda se vangloriava disso, ainda o conseguia odiar, aquele bastardo que lhe tinha batido um dia, uma vez. Ia amanhecer. Não pregara olho. Primeiro o gato, depois as horas e a vida e as lembranças todas agarradas a ela como pragas. Ia amanhecer, e tinha que voltar para o trabalho. Tinha o corpo dorido de viver, e ainda que quisesse não podia parar. A casa começava a mexer-se. A criança chorava baixinho, a mãe enfiava-lhe a mama na boca para o calar só mais uns minutos. A gorda ladainhava em surdina, de modo a incomodar toda a gente, a mais nova dormia com um sorriso na boca, a janela do quarto aberta de par em par, denunciava a saída brusca do amante. Ela levantou-se da cadeira para responder ao chamado do rapaz no quarto dos arrumos. "Mãeee", entrou e olhou-o, sorria para ela de braços abertos. Teve tanta vontade de o amar. Mas estava cansada. Passara a noite em claro, passara a vida em claro. "Anda, levanta-te vou-te fazer o pequeno almoço".

 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 14:51
link do post | zumbir | favorito
|
17 comentários:
De joão a 6 de Abril de 2010 às 16:35
De certa forma, embora não tão prosaicamente, muitas vidas se desenvolvem assim entre enganos, desamores, ressentimentos. É incrível como todos conseguimos chegar ao limite e a dificuldade que temos em amar.
De meldevespas a 7 de Abril de 2010 às 00:10
Verdade...é mais dificil amar que odiar.
Obrigada por me leres João.
(apesar de ficar sem saber a tua opinião sobre o texto, não é? ah poizé!)
Beijinhos e volta sempre
De joão a 7 de Abril de 2010 às 00:38
Que opinião? Se está bom? Se gosto? Claro que sim, mas acho que isso já nem é preciso dizer.

(claro que é)

Está muito bom, dos melhores lá pela fábrica, como aliás já disseram por aqui e até podiam dizer por lá... talvez eu o faça por lá, mas amanhã, que agora é tarde.
De Mary Brown a 6 de Abril de 2010 às 20:17
Mel esta história traduz bem a realidade das chamadas mulheres oferecidas. O retrato está exemplar, a vida delas é mesmo assim: dura e crua. Choca uma vida assim mas, existem tantas. Beijinhos
De meldevespas a 7 de Abril de 2010 às 00:12
Oh se existem Mary B., eu não invento nada. Apenas observo, absorvo e tento re-inventar.
Um beijo grande
De Poetic Girl a 7 de Abril de 2010 às 12:52
Um retrato deveras fiel do que é descrito... gostei muito mais uma vez... nem sei que dizer... bjs
De meldevespas a 7 de Abril de 2010 às 16:19
Muito obrigado Bela, volta sempre.
Beijinho
De Su a 7 de Abril de 2010 às 14:14
OK... consegui perceber o abismo nessa história.
Mas olha... desafio-te a escreveres uma história repleta unicamente de coisas boas, sentimentos bons... sem amarguras, arrenpendimentos e solidão.

Adoro a tua escrita e tenho curiosidade de ler uma história tua assim ;)
De meldevespas a 7 de Abril de 2010 às 16:28
Pois é Su... tens toda a razão rapariga. Mas sabes? Andei por aqui à procura nestes quatro anos de blogue, e não encontro quase nada que não tenha amarguras, desilusões, etcs. Acho que está colado à minha escrita. Inclusive, a minha filha mais velha brinca muito comigo por causa disso mesmo, mas nada a fazer.
Quem sabe um dia eheh
Beijos
De mz a 7 de Abril de 2010 às 20:31
Adorei esta tua história, Mel!
Toda a descrição e as palavras que usaste...
É uma história fria, dura mas ao mesmo tempo com uma escrita deliciosa.
Adorei a forma como conseguiste descrever o abismo entre uma mãe e o amor ausente por um filho.

Fantástico!
bjs
De meldevespas a 7 de Abril de 2010 às 21:09
Obrigada MZ! A diferença muitas vezes cria um abismo entre as pessoas, esse abismo pode ser só a dor de não conseguir amar a diferença.
Beijos
De manevas a 12 de Abril de 2010 às 16:08
Gostava imenso de destacar algumas expressões que me fascinaram. Sabes que gosto de pormenores. É uma delícia a criatividade, o jogo, o brincar com as palavras, o fazer que digam mais do que elas próprias são capazes. Fascinante.
Vim aqui muitas vezes, mas não tinha tempo para ler tudo com sosssego. Só agora foi possível. Obrigado.
De meldevespas a 13 de Abril de 2010 às 09:44
Obrigada eu!
Eu também me perco pelo pormenor, de tal forma que acabo quase sempre por escrever textos mais longos do que, no caso de um blogue, seria desejável, mas enfim...
Beijinho, e volte sempre
De telma a 13 de Abril de 2010 às 03:11
sabes, carminho agora não comento tanto mas esta vida dos blogs já nao é o que era :p mas leio-te à mesma. e é impressionante como cada palavra, cada frase, cada metafora é capaz de me encher o coração.
beijinho.*
De meldevespas a 13 de Abril de 2010 às 09:46
Verdade Telminha! Mas sabes, eu já tenho outra idade, e outra calma (eheheh) e isso permite-me ir de vêz em quando deixando aqui alguma coisa. E tu, vem quando quiseres, que a casa é tua, e gosto muito de te ver.
Beijo grande
De Gingerbread Girl a 26 de Abril de 2010 às 13:47
Grande rameira pá!
E no fim... o que lhes sobra? Umas toalhas de linho e uns trocos... e uma porrada de filhos, claro.
Há muitas mulheres dessas por aqui... e as suas histórias acabam todas inevitavelmente da mesma maneira.

Muito bonito Carminho, como sempre.

bjinho bjão*
De meldevespas a 26 de Abril de 2010 às 14:45
Neste meios mais pequenos, podemos demorar-nos mais a observar, a tomar notas, a escrever em cima de estórias que a vida já se encarregou de escrever. apesar de tudo, provavelmente as verdadeiras tenderão sempre a ser ainda menos poéticas que a minha visão delas.
Obrigada, beijo grande

zumbir

mais sobre mim

pesquisar

 

Abril 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

posts recentes

Constelaçoes

O Sorriso do Parvo

Porque sim

O Cheiro da Chuva

Estória para adormecer .....

Na lama

Memórias de Vento

A solo

Sem fim

Estória para adormecer......

arquivos

Abril 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Janeiro 2007

Julho 2006

tags

todas as tags

online

links

Bee Weather

Click for Evora, Portugal Forecast Get your own free Blogoversary button!
Photobucket


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

Vizzzzzzitas

Horazzzzzz

Tente adivinhar palavras relacionadas com a Matemática no Jogo da Forca:


Clique aqui


Custom T-Shirt Generator
blogs SAPO

subscrever feeds