Terça-feira, 3 de Agosto de 2010

Memórias de Vento

 

- Há quanto tempo não moras aqui?

-...não me lembro...mas volto sempre depois da chuva...

- Como uma formiga de asa?

- Sim!!! Isso mesmo, como uma formiga de asa, atrás de nesgas de sol.

- Antes eras diferente.

- Quando?

- Sei lá! Antes. Trazias as mãos e a boca carregadas de pólen, e por onde passavas nasciam flores amarelas, daquelas pequeninas que há no campo.

- Malmequeres do campo.

- Talvez.

- Não sei... só guardo o sabor do vento a uivar nas canas da ribeira. Trazia um torpor tão leve, que adormecia a sonhar com libelinhas de cores garridas em dias de sol.

- Ainda falas como quem diz poesia...pelo menos isso não perdeste.

- Nunca me compreendeste... são só palavras, percebes?

- Cortaram-nas.

- Desculpa!?

- As canas. As canas que ladeavam a ribeira. Vi lá os homens. Ceifaram todo o canavial.

- Que pena...o vento vai estranhar tanto!

- Disparate! O vento é um sopro, não é gente! Quem te ouve falar....

- É um sopro, eu sei. Mas se não é gente, porque é que vive comigo na mesma casa, debaixo do mesmo tecto?

- Lá vens tu com as tuas coisas....

- Não sabes a resposta, não é? ... Eu também não sei. Às vezes enxoto-o com o silêncio, mas ele não se rende, volta com mais força ainda, e esconde-se dentro do meu peito.

- Desconcertas-me...

- Não sei porquê? Basta olhar para ti! Vê-se a léguas!

- Ora....o quê? Diz lá...

- O inverno.

- ....

- Sim. Está nos teus olhos. Olhas para mim com tal frieza, que me faz arrepender...

- Mentes! Não há frio, nem chuva, nem neve no meu olhar!, mas...arrepender de quê?

- De voltar  depois da chuva...

-...como as formigas... para te encostares ao sol e aquecer as asas.

- Não ... Vinha para me aquecer em ti, e enxotar o vento.

- Não percas tempo. Também eu já não moro aqui. Tu sabes...

- Sim, eu sei. A força nunca foi o teu forte.

- E agora o que queres dizer com isso!!!

- Deixa lá...agora já não vale a pena...

- Sabes que detesto meias palavras! Explica-te!

- Está a arrefecer. Deve ser de ti. Vou-me embora. Adeus.

- Não! Espera! Fica mais um bocadinho...tens razão, tens sempre razão...mas o que queres,  sou fraco.

- E eu sou leve. Por isso vivo com o vento. Tenho dias de ser brisa, tenho dias de ser ventania.

- Mas fomos felizes, não fomos?

- Fomos?

- Acho que sim...eu era feliz..

- Vivias a fazer bonecos de neve com algodão doce...por isso eras feliz. Mas sabes? Para fazer bonecos de neve, é preciso neve...

- Isso nem parece teu! Tanta seriedade! Tu que dormias de olhos abertos numa cama de flores amarelas, que cresciam só para ti! Tu que derramavas  pólen, por onde passavas...

- Se dormia de olhos abertos, era só para não te perder de vista...e não eram flores, eram os teus olhos, e não era pólen, era amor...

- Não sei que te diga.

- Não digas nada...vou agora.

- Voltas?

- Não sei...

- Talvez depois da chuva?

-...como a formiga de asa.

 

 

Fotografia de João Palmela

 

 

Texto originalmente postado neste blog em 20 de Outubro de 2007

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 15:36
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26 comentários:
De Poetic Girl a 3 de Agosto de 2010 às 16:23
Que volte então depois da chuva... gostei muito, bjs
De meldevespas a 3 de Agosto de 2010 às 17:11
Obrigada Bela!
Beijinho
De Pinguim a 3 de Agosto de 2010 às 16:25
Uma fábula muito bela que se enquadra perfeitamente no tema.
Beijinho.
De meldevespas a 3 de Agosto de 2010 às 17:12
Uma ausência também é uma viagam, certo?
Obrigada, beijo grande
De Louise a 4 de Agosto de 2010 às 10:08
Meldevespas,

Adorei este conto. Simplesmente delicioso e fantástico na minha opinião.
Tão doce e ao mesmo tempo tão sério.
Muito bom mesmo.
De meldevespas a 5 de Agosto de 2010 às 09:27
Obrigada Louise. As diferenças que nos unem, são tantas vezes elas que nos separam, não é?
Beijo
De Mary Brown a 4 de Agosto de 2010 às 16:22
Linda esta fábula. Nós ficamos a aguardar o teu regresso, com mais uma história mas, vê lá, vem antes da chuva. Beijinhos
De meldevespas a 5 de Agosto de 2010 às 09:28
Se não voltar antes, com a chuva volto de certeza. A chuva é mais eu.
Obrigada Mary, beijo grande
De Tulipa Negra a 4 de Agosto de 2010 às 21:54
Que história linda! Adorei.
Beijinhos
De meldevespas a 5 de Agosto de 2010 às 09:29
Olá Tulipa, prazer em ver-te por aqui.
Obrigada.
Beijinho
De Missy Chatterton a 5 de Agosto de 2010 às 09:26
que bonitooo *-*
De meldevespas a 5 de Agosto de 2010 às 09:30
Obrigada :DDD
Beijo
De joão a 10 de Agosto de 2010 às 20:33
Também acho bonito.
De meldevespas a 11 de Agosto de 2010 às 09:30
Obrigada Joãozinho. Beijo
De isabel moura a 12 de Agosto de 2010 às 01:54
Às vezes o que parece,é! Mas o receio de que não seja, deita tudo a perder!
Às vezes é preciso confiar na nossa intuição. Foram estas as reflexões que o seu conto me suscitou. Faz sentido?

De meldevespas a 13 de Agosto de 2010 às 11:00
Isabel/Eduardina ;DD, faz sentido com certeza!
As nossas indecisões, os nossos medos, os nossos recalcamentos, tudo nos faz ir muitas vezes pra não voltar. Beijo e obrigada
De Eduardina a 12 de Agosto de 2010 às 01:58
Às vezes o que parece,é! Mas o receio de que não seja, deita tudo a perder!
Às vezes é preciso confiar na nossa intuição. Foram estas as reflexões que o seu conto me suscitou. Faz sentido?

De El Matador a 17 de Agosto de 2010 às 16:12
Mais uma bonita fábula. Parabéns.
De meldevespas a 17 de Agosto de 2010 às 16:20
Obrigada mais uma vez.
Beijinho*

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