Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007

Constelações

I

António era pastor. Rapaz alto e seco como o sol de Agosto, mas robusto como as rochas onde descansava das noites perdidas.

António era pastor, mas conhecia de cor, todos os carreiros de estrelas que o céu brandia, e todas as constelações de insectos que com ele partilhavam espaços.

As noites eram de descoberta para ele, a escuridão da planície era uma aventura renovada a cada pôr-do-sol. Colava os olhos no infinito dos céus, e baptizava pontinhos que só ele via, com nomes que só ele sabia, que tinham estórias que só ele podia contar.

E contava. Contava estrelas e contava estórias todas as noites. Discursava para um público de cornos e olhos vazios, que ruminava de mansinho o pasto sem fim.

E sonhava com alguém que o ouvisse, e questionasse, com alguém que o pusesse à prova, alguém que olhasse embevecido para as suas estrelas, como ele olhava...

Mas a Tidinha não era assim.

 

II

 

Matilde, Tidinha pelo amor de uma mãe solteira de muitos homens, era bordadeira.

Rapariga bonita, vaidosa. Corava ao sentir queimar nela o olhar dum macho, mas deixava sempre uma réstia de sorriso no caminho, como uma promessa que fica à espera de ser paga.

Tidinha era bordadeira.

Os dedos picados denunciavam a falta de virtuosismo para o assunto,  e o olhar sempre preso entre o sonho e a vida, não se detinha no bastidor por mais que um ponto de cada vez.

Sonhava com o António, os braços do António, o peito do António, as noites fugidas pelo meio, quando o povo todo respirava mais devagar, as noites salgadas do suor do corpo do António a cobrir o seu...

As vontades que lhe subiam pelas pernas acima, quando o via, quando o ouvia falar de coisas que ela nem fazia ideia. não fazia ideia, nem queria fazer. Ela queria o António, ali, no pasto, deitado com ela, a dizer-lhe segredos que a espicaçavam ainda mais....

A Tidinha amava o António.

O Manel também.

 

III

 

O Manel era caixeiro.

Trabalhava na loja da Praça.

Fazia embrulhos como quem borda quimeras. Vendia bons dias, e sorrisos francos a troco de escárnio e desconfiança.

O Manel era delicado como as primeiras chuvas de Outono, andava no mundo ao avesso dos outros, e lia nos livros sobre as estrelas do António. Lia sobre a estrelas e chegava assim, pertinho do calor do outro.

Esperava com o peito em ventanias, os dias que o António vinha à vila e deixava as cabras aos olhos do pai. Nesses dias até o Manel enchia a coragem e bebia uma ou duas cerveja como os homens. E no meio deles, era certo ganhar um toque furtivo. Uma palmada nas costas, um aperto de mão... às vezes até uma palavra que agarrava com as duas mão e guardava dentro para ouvir à noite.

E depois, já cheio do amargo do álcool e dos risos, fica lá fora, encostado à esquina, a ver o António e a Tidinha fugirem para o pasto, a brincar com o fogo dos corpos.

O Manel ficou ali. Ficou só. A olhar as estrelas do António, a decorar-lhe a voz, o corpo a soluçar por perder o que nunca teve.

O Manel vivia como quem morre, e numa dessas noites cheias do vazio que a partida do António deixava nele, desejou ser uma estrela.

 

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Original Zumbido por meldevespas às 15:13
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10 comentários:
De henriqueseis a 31 de Agosto de 2007 às 23:59
Obrigado por teres visitado o meu estaminé.
Divulga, pq o blog é novo e precisa de apoio.
tk´s.

http://men-tira.blogspot.com
De astuto a 1 de Setembro de 2007 às 02:29
Adorei Mesmo, não estou a elogiar por elogiar. As tuas comparações e metáforas são deliciosas. A minha preferida é "fugirem para o pasto, a brincar com o fogo dos corpos."! Muito bom.

Cumprimentos.

PS: a história é "bordadeira"?
De Francisco Mendes a 1 de Setembro de 2007 às 10:24
Cintilarmente belo.

Bom fim-de-semana.
De Lua de Sol a 2 de Setembro de 2007 às 13:31
Temos as palavras na ponta da língua, as frases na ponta da caneta (ou, nos tempos que correm, nas teclas do teclado). Muito bonito. Cheio da magia dos sentimentos, repleto de uma beleza pura. Adorei as descrições. Muito simples, encantador e até sensual.
Beijocas
De R.I.P.per a 3 de Setembro de 2007 às 15:41
Bem...o talento q anda ai à solta pelo alentejo.

Mt bom ;)
De joão palmela a 4 de Setembro de 2007 às 11:50
Finalmente consegui visitar o seu Blog e fico extasiado com a sua prosa, a forma como descreve o Mundo Rural, a a riqueza Literária com que o faz, são simplesmente divinais.
Apenas Obrigada, pelos Magníficos textos com que nos Delicia .
Adeus um Abraço Amigo,
João Palmela
De telmyy a 4 de Setembro de 2007 às 21:37
eu delicio-e a ler os teus textos :')
De telmyy a 6 de Setembro de 2007 às 03:14
http://rapidshare.com/files/53474047/05-linda_martini-estuque.mp3

aqui está a musica do post :p

***
De CARPE DIEM a 14 de Setembro de 2007 às 02:48
Por vezes quando ando por aqui a espreitar , tenho agradáveis surpresas, muito bom, gostei muito, parabéns !
De Nina a 25 de Setembro de 2007 às 18:06
Adorei este texto

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