Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

A menina que não acenava

 

  • A noite apanhou-a trancada num medo antigo.
  • O vento falava com as madeiras cansadas das janelas da casa, e as respostas mais não eram que lamentos sentidos.
  • O Outono andava a rondar-lhe a cama, e os clarões dos relâmpagos que fotografavam as sombras dentro do quarto, eram mais que um presságio.
  • Trovões inundaram-lhe os ouvidos e encheram-lhe as mãos de um suor inquieto.
  • Havia muito tempo que não se sentia tão sozinha . As noites assim, de fim de Verão, tinham tido nela sempre esse mesmo efeito, o sentimento de ausência...dos outros e dela mesma.

Permitia-se sempre ter medo nessas noites. Podia meter-se debaixo dos lençóis , rezar fervorosamente, fechar portas e janelas, trancar-se por fora, e ver-se assim, como todos os seres vivos à face da terra, com aquela  ânsia que lhe acelerava o sangue, e,  que por aqueles dias, era a única sensação que lhe dizia que ainda estava viva.

Vivia numa solidão de cinema mudo, tudo o que via, eram lembranças que desfilavam para ela, sempre que as evocava. Desfilavam acenos e sorrisos de despedida, sem palavras, só acenos e sorrisos.

Habituara-se a viver assim. Não poderia viver com outro alguém que não fosse o vazio das paredes da sua casa, e os figurantes que acenavam nas suas memórias.

Lembrava-se sempre da sua 1ª Comunhão...não sabia bem porquê, mas essa sequência passava vezes sem conta à sua frente. Via uma e outra vez, aquela menina pequena e séria demais para os 9 anos, o cabelo preso num rabo-de-cavalo sisudo; a fatiota branca até aos pés atada na cintura por um cordão de seda amarelada pelos dias; e as mãos postas em oração, com um rosário de prata pendurado...

Um enorme altar de crianças risonhas, acenava-lhe um até breve, mas aquela menina, nunca!

Ficava ali, quieta, a olhá-la, e olhava-a com a mesma impavidez e desinteresse de sempre.

Ás vezes reconhecia-se naquela criatura ridicula e infeliz, e chorava com pena dela.

Outras vezes, via-se ainda mais pequena, sentada ao colo da avó, apertada num ramo de cheiros de hortelã e erva luisa, que vinha do cabelo cinzento entrançado num poupo.

A avó era sempre uma memória que a deixava feliz. Acenava-lhe e sorria-lhe, segurando nos braços aquela criança amedrontada. Nessas alturas, quase podia ainda sentir as mãos dela nos seus cabelos, e ouvir as suas palavras sábias, dizendo-lhe que "não era bom, falar no cheiro da terra depois de uma trovoada".

Porquê? Nunca tinha tido a resposta, mas apesar disso, e apesar de os pulmões se encheram daquele cheiro estonteante a terra molhada depois de uma trovoada, e apesar de o seu peito quase explodir de extase, ela nunca o disse, nunca falou desse cheiro. Com medo de quê, não sabia, nunca soube.

Os relâmpagos apagaram-se por fim,  e a noite pode cair abraçada àquela chuva, até de manhã.

O vento agora só já sussurava, e as janelas rendiam-se.

 

Havia já muito tempo que não se sentia tão sozinha .

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 21:57
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8 comentários:
De Lua de Sol a 13 de Setembro de 2007 às 00:45
O que escreves é sempre tocante. Tens o talento não só de escrever bem mas de tocar na alma. Fabuloso.
Beijocas
De Paulo a 13 de Setembro de 2007 às 11:19
Eu já te disse que o que tu escreve é lindo? Já?! Hmmmm.... pronto, então desta vez digo que és linda a escrever :)
De weee a 13 de Setembro de 2007 às 12:20
Estou a reconhecer a história de algum lado... :)

Linda, como sempre!!
De telmyy a 13 de Setembro de 2007 às 17:36
Outro dos fantásticos textos que escreves ^^

' Vivia numa solidão de cinema mudo, tudo o que via, eram lembranças que desfilavam para ela, sempre que as evocava. Desfilavam acenos e sorrisos de despedida, sem palavras, só acenos e sorrisos. '
as vezes sinto-me assim :x

bejinho *
De astuto a 13 de Setembro de 2007 às 23:38
Trovões, medo e infância. Uma menina. A avó.
Até aposto que és tu a menina!

Texto lindo, mesmo!

Cumprimentos.
De Francisco Mendes a 14 de Setembro de 2007 às 08:44
Tão expressivo quanto as feições do Cinema mudo.
De joão palmela a 17 de Setembro de 2007 às 15:24
Amiga Carmo ,
Mais um belíssimo Texto, que como diz a nossa Amiga Sara toca-nos na alma.
Eu diria mais e para usar uma linguagem próxima dos seus textos , Tocam na Alma e criam pele de galinha!
Adeus, um Abraço Amigo,
João Palmela
De R.I.P.per a 25 de Setembro de 2007 às 03:19
Este nivel d simplicidade custa a alcançar :)

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