Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

O Destino das Ondas

 

Ficava ali de olhos esbugalhados, paralisado pela angustia de ter que tantas coisas para fazer.

Do fundo do mar, chegava um ruído surdo que lhe magoava os sentidos e o impelia a cerrar os dentes com quantas forças tinha. Era aquele barulho que fazem os seres enquanto se afogam em sal, um barulho calmo e inquietante, que pronuncia um silêncio sem fim à vista.

E aquele vinil riscado das ondas, uma a seguir à outra, e depois mais outra, todas a suicidarem-se em terra. Perdia sempre uns minutos, a pensar nos desatinos das ondas, queriam morrer porquê? Era cansaço, amor, demência? Morriam degoladas com facas de espuma, e o que restava delas voltava ao mar  para assombrar calmarias e aguçar tempestades.

O mar tinha aquela mania de o manter alerta, tinha aquela cruel tentação de lhe meter medo. Mas ali, não havia mar.

Ali, só havia terra, terra vermelha a perder de vista, torrões de açúcar mascavado que cediam debaixo dos pés dos homens, que os castigavam de manhã à noite.

Aquele pó sépia, acre e doce, secava-lhe a boca e insinuava-se pelas narinas, polvilhando-lhe o cérebro de uma canela mulata.

O pó inebriante trazia-lhe sempre a imagem dela. Era o cheiro da canela que lhe abrasava os olhos, e lhe punha pimenta no corpo.

A terra seca, magoava-o sempre por dentro. O pó perdia-lhe sempre o olhar, e cegava-lhe as mãos. Mas ali não havia terra seca, nem pó, nem nada.

Ali só havia a sua angustia, de não saber o que fazer primeiro.

Tinha baralhado as horas do relógio de parede, o calendário amarrotado pela ansiedade, jazia a um canto da sala, a vida girava a uma velocidade que já não era a sua, e ele continuava, ali, estanque, sentado numa cadeira de pinho velho, no meio daquela sala, sem saber o que fazer primeiro. Os olhos esbugalhados, a boca cheia de pó, o desejo afogado em canela, e os pés encharcados em água salgada.

Pensou no destino das ondas, e gostou dele.

Levantou-se pela primeira vez em séculos, e foi buscar uma faca de espuma.

 

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Original Zumbido por meldevespas às 12:27
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6 comentários:
De joão palmela a 27 de Setembro de 2007 às 16:01
Amiga Carmo Fernandes!
Mais uma vez fiquei com pele de galinha, você arrasa, pois numa situação onde não há nada a não ser angustia. consegue levar-nos a viajar pelos mares e campos da sua imaginação, e é isso que é belo e estonteante e que nos deixa a ler e reler vezes sem conta de embevecidos que estamos.
De novo lhe digo, Deus lhe pague pelos Belos Momentos que nos proporciona.
Um Abraço Amigo,
João Palmela
De Lua de Sol a 27 de Setembro de 2007 às 17:42
Para não variar Mel, até no fel colocas mel! Adorei a angústia polvilhada com especiarias exóticas... Com espuma. Cortante. Já estava à espera de mais... Ainda bem que chegou. Muito bonito.
Beijocas

P.S. - Assim já vejo o que escrevo, eheh! Obrigado.
De Andi a 27 de Setembro de 2007 às 19:53
Texto fenomenal. Adoro a maneira como foi escrito, é de uma envolvência e sensibilidade tais que quando chegou ao fim só queria que tivesse mais um bocadinho.
De astuto a 27 de Setembro de 2007 às 23:14
A espuma é cortante, sem dúvida. É a forma mais lírica de se falar da violência das ondas. Gostei.

Cumprimentos.

Excelente novo visual do blogue.
De R.I.P.per a 28 de Setembro de 2007 às 02:18
Q cena marada pá,deixei-m levar pelas palavras pá...o q é metaforicamente fixe pq o texto fala de ondas :D
De weee a 28 de Setembro de 2007 às 14:02
Por momentos vi-me na praia, sentada na areia aquecida pelo sol, a enaltecer a beleza do mar que tentava chegar-me aos pés.

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