Domingo, 30 de Setembro de 2007

Voar a pique

O Santo António veio quente, e seco, este ano.

- Se o calor continuar, isto vai ser de arromba, pá!!

O calor molhava os corpos e a vontade da sesta já teimava contra vontades pouco férreas .

Mas para eles, não havia calor, ou sesta que os desviasse dos seus trabalhos. Havia que puxar dos galões, e mostrar aos outros bairros quem era de facto o melhor!!!

O grupo reunia-se invariavelmente no casão da Ti Ana, havia ali espaço para guardar tudo o que precisavam, rolos de papel, grades de gasosas, tesouras, fios, caixotes, lâmpadas pintadas a guache, e corações cheios de orgulho.

A Ti Ana, tinha acabado de fritar as favas secas, e o cheiro pegajoso e salgado deixava no ar promessas de bailaricos e balões de papel colorido.

Agora entravam eles em acção,  improvisavam saquinhos de plástico, selados com facas de cozinha aquecidas, debaixo do olhar atento da sua guardiã. O Zé Luís assoprava os dedos, entre uma queimadela e outra, que na ânsia de ver o tempo andar, nenhum deles tinha achado necessário esperar que as favas fritas arrefecessem. As mãos iam ficando brilhantes da gordura,  e os peitos iam ficando inflamados pela excitação.

Todos os anos rituais se repetiam, votava-sa uma comissão, calcorreava-se toda a vila a pedir às portas, contavam-se moedas e sonhava-se com um S.João que durasse muito pra lá da meia-noite.

Este ano era o ano deles, os mais novos estavam ainda nos 12, mas o Zé Luís , a Záu e o Faco , metiam respeito do alto dos seus 14 anos. 

É já amanhã a grande noite, todos sabiam que não poderiam dormir, todos tinham a certeza que pulariam a noite com um salto doloroso e demorado, como a espera no corredor do hospital, para levar a vacina.

A Bia , roía as unhas compulsivamente, e tinha os olhos escancarados, pregados num qualquer ponto imaginário. Via a fogueira, a maior fogueira que já se vira ali no bairro. Será que as feixinhas de lenha que tinha ido pedir à padaria seriam suficientes ?

O Faco deu-lhe um valente encontrão - Acorda!!!! Achas que não há nada pra fazer!?- A Záu , largou os dedos, retribuiu o empurrão, ripostando que estava a contar as feixinhas !

A Lela , a maior de todas, pelo efeito do pão com manteiga e açúcar que demolia nos lanches matinais, pediu calma, alertou para a falta de tempo, e entre um saquinho e outro, lá ia  surripiando favas fritas salgadas, que os seus dentes trituravam em permanente encantamento.

Ao meio do bairro, havia um pequeno cruzamento, e no centro, crescia todos os 23 de Junho, um longo mastro, empinado., que se agigantava até ao céu, engalanado por dezenas de bandeirolas de papel de seda, que, quando chovia, engelhavam o mastro e a cor, mas nunca a festa! Este ano, o calor estava de pedra e cal, e não havia que temer intempéries de espécie alguma.

Do mastro, corriam para os quatro cantos cruzados, braços estendidos de lâmpadas coloridas e balões de papel frisado.

Magotes de gente começavam a chegar-se à música desafinada do gira-discos emprestado pelo Manel Pisco. O Manel era mais velho, já tinha tirado as sortes, estava à espera de ser chamado para ir à tropa. Andava tão contente, que já não se podia aturar a conversa dele, que a crer na rapidez da língua , no fim da recruta já seria general.

As lâmpadas pintalgadas acendiam a noite, o cheiro das bifanas na frigideira aguava apetites, as crianças ostentavam pequenas garrafas de gasosa como troféus, havia danças de roda à volta do mastro iluminado, e carícias furtivas escondiam-se nas esquinas escurecidas pelas sombras desertas.

A vizinhança arrastava para as portas cadeiras, banquinhos, copos de limonada com folhas de hortelã e pratos de fatias paridas, feitas de pão de ontem com ovos dourados e polvilhadas por mãos generosas com açúcar e canela.

A noite embebedava-se de vozes e luzes, e deixava-se ali ficar numa cadência morna de Verão acabado de chegar de longe. A noite estava em paz com o tempo, com as estrelas e com os homens.

...

Este Junho, estava mais agreste. Zé Luís sentou-se num portado, e olhou a decadência das casas. Aqui morava a Ti Estrudes ...ali em frente, naquela casa antes branca de pé encarnado de óxido de ferro, e agora de um castanho antigo, esbatido e escamado pela vontade dos dias, era a Senhô Maria Rita. Além, na esquina...era a casa do Manel Pisco, estava fechada a sete trancas desde que tinham ido pró estrangeiro...os galões de General tinham ido esperança abaixo, afogados em fome e raiva.

Já não havia ali alma de miúdo que içasse um mastro, ou ateasse uma fogueira.

...

A fogueira crescia como a noite, em labaredas de desejo, e a lenha cedia ao fogo com um deleite prolongado pelo fumo que se espalhava pelo ar e enchia de coragem o peito da miudagem .

O Zé Luís foi o primeiro a saltar, estava em picos para o fazer, e nem deixou as labaredas acalmarem do fogo. Saltou com quanta força tinha, e sentiu o calor trespassar-lhe os ossos.

- Consegui! - Pensou num grito lancinante e calado - consegui!

As pestanas desaparecidas, as pontas dos cabelos chamuscadas, os fundilhos das calças calcinados, e um cheiro a coiratos no ar,  provaram o gesto épico do grande salto...agora era um homem! Puxou o peito pra cima, o mais que pode, e nessa noite, não houve mais ninguém a fazer-lhe sombra...podia não chegar a General como o outro, mas hoje ele era o Rei da Fogueira!

...

Sorriu, e os dentes estragados mostraram um reinado queimado pelos fogos vãos de vidas errantes.

Voltara ali porquê?

Tinha os dias marcados pelo compasso do próximo copo, e o regresso a casa só tinha servido para pôr mais urgência na urgência que o consumia.

Voltara ali porquê?

Se calhar para voltar a sentir o calor das lâmpadas pintadas.

Para saber que ainda se lembrava da vida, quando voava a pique.

 

 

sinto-me:
Original Zumbido por meldevespas às 00:17
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10 comentários:
De R.I.P.per a 30 de Setembro de 2007 às 00:51
Epá...n li :s

Tenho andado ocupadissississimo :(

Logo cá volto a passar e elogiar o texto...sim...pq tu és por demais previsivel :)
De meldevespas a 30 de Setembro de 2007 às 12:17
Tá bem.....fico à espera da tua visita OUVISTE!!!
Beijo e obrigado
De telmy a 30 de Setembro de 2007 às 16:41
que bela contadora de historias que tu és :') *
De astuto a 30 de Setembro de 2007 às 21:54
Também posso saltar a fogueira? Excelente narrativa. Começa a ser um lugar comum elogiar-te. Parabéns.

Olha, tenho uns premiozitos para ti no meu blogue.

Cumprimentos e boa semana.
De R.I.P.per a 30 de Setembro de 2007 às 22:05
Confessa lá,tu és uma pintora frustrada...só pode.
É q estes textos assemelham-se,deveras,a belas telas :)
De Lua de Sol a 30 de Setembro de 2007 às 22:55
Saltar a fogueira,
Pular a fronteira

Memórias do São João
Guardadas no coração

Com preciosismos do Portugal mais popular,
aqui está outra bela história para se contar...


Beijocas
De weee a 1 de Outubro de 2007 às 11:03
Ah grande Zé Luís :D
Chamuscado mas lá reinou!!

Eu devia ler estas coisas antes de adormecer... já fazias uma versão "sonora" para o pessoal adormecer mais aconchegado!
De LeO a 1 de Outubro de 2007 às 23:28
Gostei, como gosto de todos, e como sei que vou gostar do(s) próximo(s).
Ora bolas p'ra ti e para a tua escrita perfeita :x :D
De joão palmela a 2 de Outubro de 2007 às 16:07
Amiga Carmo!
Não consigo deixar de ficar surpreendido, apesar de já saber o que venho encontrar aqui, Qualidade do maior Gabarito.
Como sempre, e não consigo arranjar melhor definição para expressar tal sentimento, fico com Pele de Galinha. A Beleza dos seus textos, onde sobressai uma ruralidade de uma autenticidade atroz entrecortada com finos recortes literários, transportam-nos ao passado e à vivencia dessa mesma ruralidade numa viagem de prazer infindável. Pouco mais consigo dizer sobre este Maravilhoso Conto, a não ser que me sinto bastante Grato por ter podido acordar hoje e com isso usufruir de uma leitura tão Gratificante.
Adeus um Abraço do Amigo,
João Palmela
De meldevespas a 2 de Outubro de 2007 às 16:25
As suas palavras é que são sempre muito generosas!
Fico sinceramente feliz por gostar!
Obrigada.

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