Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

A Terra e a Romã

 

O homem passou como todos os dias passava. O ar da manhã estava carregado de cheiros e texturas que lhe dilatavam as narinas e lhe acariciavam a pele. E ele deteve-se, parou a sua monótona marcha matinal, e pela primeira vez viu-a. Já tinha olhado para ela vezes sem conta, era impossível não o fazer, mas não, nunca a tinha visto assim.

Ela ali estava, posta a seus pés, estendida em gestos lânguidos e preguiçosos , cansada de dias grandes e noites quentes, esgotada das provocações primaveris consumadas nas tardes de Verão.

Estava mesmo ali, como sempre tinha estado, a Terra.

Tinha estampado na cara um sorriso trocista de desejos explorados, e olhou-o como quem colhe uma romã a rebentar na pele, de sucos doces e carne madura. Demoradamente como um convite.

A Terra. Ela ali estava,  vermelha e doce, deitada em toda a sua volta, húmida e tenra, movendo-se com o ritmo de passos perdidos, e brisas de Outono atrevido .

O homem, não conseguiu tirar os olhos, ficou parado, estanque, num burburinho de sensações a explodirem-lhe o peito, um rastilho de pólvora a correr-lhe nas veias e a transportá-lo para leitos voluptuosos  atapetados a  folhas secas de veludo.

Ela encarava-o, sem medo ou temor, segura e serena, cheia e plena, grávida de chuvas abundantes e sementes que o vento quis violar e ela negou com artes de sábia guerreira.

Tudo à sua volta era vida, tudo gravitava em torno do seu eixo, numa fertilidade mal contida de  folhas e frutos e raízes .

O homem contemplou-a já apaixonado, já rendido ao seu poder,  e compreendeu o sentido dos ponteiros do relógio da torre, abraçou a vontade de viver que lhe crescia na ponta dos dedos, e precipitou-se em direcção a casa numa correria cega e apressada.

Abriu a porta, e os seu olhos perderam-se pela casa, numa busca de loucura pressentida.

A mulher estranhou-o ali, perguntou-lhe ao que vinha, mas os olhos do homem responderam antes que a boca se abrisse.

Correram juntos como animais em campo aberto, e quando os seus olhos se acharam na ânsia do encontro, deitaram-se nela e apaziguaram o corpo com sumos de romã, e saciaram a sede com bagos maduros.

Por baixo deles a Terra sorria num gemido cúmplice , e girava devagarinho, prolongando os dias.

sinto-me:
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Original Zumbido por meldevespas às 10:54
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8 comentários:
De Francisco Mendes a 3 de Outubro de 2007 às 13:04
Que texto deliciosamente suculento. Parabéns por mais um post nutritivo!
De Lua de Sol a 3 de Outubro de 2007 às 14:44
Muito bonito, repleto de desejos que se vislumbram na Natureza. Poeticamente carnal até...

Beijos
De Leo a 3 de Outubro de 2007 às 17:19
Oooh :)
Tão binitó!:D
[Para variar :| xD]
bêjoos!
De Andi a 3 de Outubro de 2007 às 20:56
Eu até queria escrever algo sobre o quão espantoso é este post. Mas não consigo, as palavras escapam-me...
De weee a 4 de Outubro de 2007 às 12:28
Eu fiquei a babar-me para cima do teclado!!!!
De astuto a 5 de Outubro de 2007 às 02:01
A tua escrita é a escrita da terra. As coisas e as pessoas que relatas são a nossa gente e a nossa terra, o nosso chão.

Gostei!

Cumprimentos.
De joão palmela a 8 de Outubro de 2007 às 18:16
Amiga Carmo!
Por vicissitudes da vida, só agora consegui chegar à fala com os seus textos, pois também é outra coisa que eu encontro neles, a capacidade de dialogarem com o leitor, e mais uma vez fico a contempla-lo como se de um espelho se tratasse onde os personagens se reflectem e transbordam do caixilho.
Este então, mais um belíssimo hino ao Amor.
Que mais dizer senão Agradecer tamanho prazer de ler e reler tal Maravilha.
Adeus uma Boa Semana e um Abraço do Amigo,
João Palmela
De meldevespas a 9 de Outubro de 2007 às 09:35
Eu é que lhe agradeço as suas visitas, e a sua generosidade.
Espero que volte sempre!

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