Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Porque sim

 

 

 

 

Ficava aqui a falar dela, horas a fio. Dela ou do que me lembro dela.

O tempo encarrega-se de retocar as memórias, editar as imagens que fazemos das coisas e das pessoas. Agora, assim, ao longe, tudo me parece mais belo. Notam-se os remendos aqui e ali, numa ou outra passagem, ou em algum momento que se revela na escuridão das noites mal dormidas. A verdade, é que já não há noites mal dormidas, agora que penso nisso, atinge-me em cheio, a seco até, atrevo-me a dizer, a certeza do sono profundo e conciliador que me vem acontecendo.

Horas a fio, se quiser. Fora parte isso da cor, e dos retoques, está tudo claro como o dia de hoje, aqui, e aqui – apontou para a cabeça com o dedo indicador, e depois, pausando as palavras, com a mão aberta tocou o peito.

Era cheia de vidas. Assim, mesmo, no plural! Vidas. Ela era muitas. Ria-se do nada, brandia gargalhadas alto e bom som, escoando nela toda a alegria da terra. - Descansou as palavras num meio sorriso – Parece que estou a vê-la... ria alto, a boca perfeita abria-se sem pudores, e jogava a cabeça para trás num espicaçar constante. Os cabelos negros tomavam conta de toda a moldura da terra, e rasavam os sentidos de perfumes. - Falava entre silêncios e cambiantes poéticos – Ria-se de tudo, e de todos... se era bonita? Era bonita sim. Não que fosse uma estampa, dessas das revistas e do cinema, não, nada disso. Tinha lá os seus trunfos, se calhar era um bocadito...original. É a palavra que melhor a define. Os olhos deveriam ser menos afastados, os lábios mais finos, a silhueta mais delgada... – soltou uma gargalhada – era o que ela carregava dentro dela, ou sei lá onde, era isso que era bonito. Era esse não sei o quê, que ela transportada num esconderijo só dela, que provocava aquela vertigem à sua passagem. Também há quem diga que era...única... não gosto desse epíteto, Única! - Escarneceu - Estaria a condenar as pedras do caminho a nunca mais serem pisadas daquela forma. Não era única, não tinha esse direito.

Eu avisei, horas a fio a desfiá-la, a tecê-la...sem me cansar – atirava um olhar atulhado de vigor de outras épocas – mas antes que perca o fio à meada, sim porque a minha boca e o meu cérebro, andam cada vez mais por estradas desavindas. E isto...isto é a foz e a nascente, o derradeiro lugar. Talvez, não ainda, mas ela é o meu derradeiro lugar.

Dizia eu que ela era muitas a um tempo só. Quando chorava, e se ela chorava Santo Deus.... - As mãos impacientavam-se de sal. Estancou. Mudo – chorava a cântaros, e nos dias de chuva, aqueles dias cinzentos em que a tristeza é um estado de alma, nesses dias vidrados pelas janelas embaciadas, ela deixava de ser e escorria pelas paredes numa humidade de dar dó – uma sombra tombou em ameaça nos olhos fundos – era assim quando chovia, ou quando ouvia outros prantos que não o seu. O contágio era súbito e fatal.

Justiça lhe seja feita, tão depressa desaguava na dor, como renascia em fogos. Ela era também o fogo...como diz? Se ela era tudo? Tudo...mais que tudo.

Punha rubores onde pousava os olhos, e deixava rastos de labaredas por onde passava as mãos. Aquela mulher tinha o corpo em ferida aberta, do lume que o queimava, ardia devagarinho em lugares onde o recato aconselhava esquecimento. Se soubessem – podia quase ver-se o caramelo aquecido pelo desejo, escorregar-lhe pelos cantos da boca, num torpor de lava – se ao menos pudessem ter visto, como ela se entregava, mansa como uma cadela de colo, submissa e terna como um carneiro na Páscoa,.. cavalgava-a por montes e vales, banhados os dois em albufeiras de suor. Cada galope no dorso dela, era um passo para o abismo...ela tinha o abismo nos olhos e na ponta dos dedos com que me tocava inteiro... – as mãos branqueavam, apertadas uma na outra, e os olhos, esses perdiam-se na luz sépia da lembrança.

Porquê? Tardava a pergunta...porquê...Cheguei a perguntar a mim próprio. Nunca tive uma resposta. Melhor, nunca houve uma resposta. O sítio dela era em mim, percebe? Agora pergunto eu, percebe? Em mim...mas não fui compreendido, os abraços desatavam-se, ela deslizava pelo meu amor, fugia-me... não havia saída. Podia existir sem ela, mas nunca fora dela. Entende?

Então lamento...não sei dizer de outra maneira.

Como? Estava a dormir. Ela estava a dormir. Parecia uma criança ainda com a alma transparente. Sentei-me na beira da cama, toquei-lhe o peito destemido, subi pelo colo, até ao pescoço de garça, de graça... - Sorriu triste – detive-me por ali, senti a macieza daquela pele adamascada, apertei um pouco, só um pouco, mas firme. Os seios por fim calaram, ainda altaneiros, no entanto ausentes. Respirei fundo, inspirei as réstias de desafios e por fim, já com ela a correr-me nas veias, levantei-me e sai, em paz, completamente em paz.

 

 

originalmente postado neste blog em 12 de Agosto de 2009

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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Estilhaços

 

Eusébio subia a rua sem pressas de chegar. O empedrado da calçada estava molhado, resignado a um dia inteiro de uma chuvinha delicada. Subia a rua de mãos nos bolsos, olhos no chão enquanto ia pontapeando uma pedra que fugia à sua frente.

As calças de cotim remendadas nos joelhos com uma rodela de napa alaranjada, estavam encharcadas até quase aos joelhos, e os sapatos de atacadores pareciam montes de terra andantes. O campo pelado onde se juntavam para jogar à bola depois da escola, estava cheio de atoleiros e lamaçais. Chovera a semana toda, sem tréguas. Subia a rua de olhos no chão, pontapeando o cascalho. Pensava na melhor maneira de abordar o sucedido. "Mãe, desculpa, aconteceu um acidente...", "Mãe...foi sem querer, juro pela minha saúde!". A mãe estava farta de juras, acidentes e sem quereres. O melhor era um directo "mãe, parti o vidro da janela da Irmã Margarida". Já sabia que a seguir era o habitual chorrilho de bofetadas, depois seria arrojado até ao quarto pelas orelhas e por fim a mãe exausta diria mal à vida dela como sempre num pranto rezado vezes e vezes sem conta. Custava-lhe vê-la assim, mas sentia-se preso a uma linha que não se via, apesar de ter a certeza que ali estava. Uma linha que lha atava os pés, as mãos e todo o seu ser a uma espécie de fado, ou sina ou o que quer que lhe chamassem, e que o puxava sempre para o abismo, para aquela parte do mundo em que a luz está sempre apagada e só há tropeções, cacos e feridas abertas.

A Irmã Margarida, de todas as formas, amanhã, logo cedo, havia de estar a bater-lhes à porta a cobrar o vidro e a alma fugaz do gaiato. "Eu bem a aviso D. Deolinda, o rapaz sem Deus não resiste! Nem que seja levado pelos cabelos, mas tem que ir à catequese!".

Pronto, "estava o baile armado", pensava num pontapé forte que fez o cascalho bater no contentor do lixo, com estrondo. A hora de catequese com a Irmã Margarida era uma tortura. O bê à bá do pecado era o "pão pingado", ao ponto de se poder dizer sem sombra de dúvida que mesmo o respirar era um pecado mortal, portanto merecedor da  maior das penitências. Mal sabia ela que o cumulo da penitência era ficar ali uma hora, contada minuto a minuto pelo relógio de parede, a ouvir o tom pernicioso da sua voz.

O melhor era mesmo desembuchar! Acelerou o passo, deixando para trás a pedra aliviada.

- Mãe! Cheguei... - entrou na cozinha. A mesa estava já posta, os três pratos nos lugares marcados. O pai à cabeceira, no comando, a mãe à direita dele, (na verdade a mãe, mais parecia uma formiga, quase não se sentava, atendendo às palavras de ordem do homem da casa: "Um copo de água!", "é só este o pão que há cá em casa!?", "Dá cá o vinho!"), à esquerda ele. O lugar vago, na outra ponta da mesa rectangular, era ocupado de tempos a tempos por uma dor estreita nos olhos da mãe.

- Andei a jogar à bola, no campo da Igreja...com o Basílio e o Cajó...ehp....mmm...parti um vidro da janela da casa da Irmã Margarida, ela diz que vem cá dizer-te, são vinte e cinco tostões. - estancou, sem fôlego, os olhos na nuca da mãe, que continuava de costas para ele, de frente para o fogão a vigiar as batatas que fritavam na frigideira cheia de azeite borbulhante.

- O teu pai, está a chegar, é melhor estares bem caladinho. resolvemos isso amanhã. Hoje joga o Benfica. - a voz da mãe, tremia, num tom esbatido. Era a voz do medo, Eusébio, conhecia-a bem. O desfecho da noite dependia do silêncio dela e do resultado do jogo de futebol, que ia começar na televisão daqui a pouco.

O Cabo Zacarias Resende era benfiquista ferrenho. Cada partida era uma luta renhida, uma disputa taco a taco, no terreno de jogo e na vida dele. Militar desde o berço, Zacarias, desde muito cedo aprendeu na pele o frio do aço, e na vontade a força férrea da obediência. Deixado à mercê da inveja e outros tombos, a violência ganhou raízes no seu peito, criou corpo nas suas mãos, e desabrochou nos seus olhos a cada caminho mais apertado. E para Zacarias todos os caminhos eram apertados. Uma mulher incompetente e amorfa, filhos desmiolados e sem perspectivas de espécie alguma.

O mais velho herdara o nome do avô paterno, nem sequer fora uma opção. Cosme Resende. O mais novo, já com o avô morto e enterrado,  recebera a bênção de Eusébio, o virtuoso jogador que encantava Zacarias e o deixava embasbacado.

A porta da rua bateu seca. Na cozinha, mãe e filho de imediato adoptaram uma posição de sentido. Eusébio podia jurar que ouvira a mãe engolir em seco. Teve pena dela. Tinha sempre. O jogo era difícil, as competições europeias, um clube de topo. Era bom que a sopa estivesse ao gosto do Cabo, caso contrário alguém iria pagar a factura.

Sabia bem como a mãe escondia por baixo da roupa as nódoas negras dos dedos de ferro do pai, os vergões nas pernas desenhados a rajadas de cassetete. Conhecia o olhar caído, o cabelo nos olhos a guardar segredo de carícias pesadas que brotavam no alvo da pele em pontos roxos. Sabia de cor todos os artifícios usados para proteger a reputação do seu homem. Sabia porque também ele estava farto de os usar.

Zacarias era um homem robusto, largo de ombros e de baixa estatura. Do Ultramar trouxera uma perna aleijada, que arrojava pela calçada e anunciava a sua chegada a casa ao fim da tarde. Era o sinal.

Eusébio fugiu para o quintal, tinha que limpar os sapatos antes de tudo, sacudir as calças, ajeitar a camisa, alisar o cabelo. Um pelo fora do lugar, qualquer coisa era o mote para mais uma discussão sobre a inutilidade dele e o desmazelo da mãe.

O jantar decorreu na mesma paz gorada de sempre. O jogo desenrolava-se à frente deles. Zacarias nem olhava o prato, empurrava garfadas de comida para a boca, umas a seguir às outras. O intervalo chegou. O nulo continuava, e o guisado já frio começava a ferver dentro do homem.

- Cabrão do gaiato! Deixa-te estar sentado! O jogo ainda não acabou!, e tu minha cabra, vê se limpas esta merda toda!

Deolinda sentiu o chão fugir. Quando ele ficava assim, agora tantos anos volvidos, mais que o medo era a afronta de ter chegado àquele ponto. O ressentimento com ela própria. Não conseguia deixar de se culpar. O medo dela tinha provocado mais abalos, mais tragédia do que a força bruta dele.

Eusébio encolheu a vontade de ir à casa de banho. Sentou-se direito a olhar para o aparelho de televisão sem no entanto o ver. Nem sequer era do Benfica. O seu coração batia a verde e branco. Mas se o pai desconfiasse, ele estaria morto. Se calhar era até melhor.

A jarra de loiça em cima da televisão foi a primeira a sofrer a derrocada do  único golo da partida. Os estrangeiros marcaram a um minuto do fim, e a cozinha dos Resende vivia a calma que antecipa a tempestade. O silêncio do golo.

O dia amanheceu cinzento, outra vez. Deolinda cirandava pela cozinha. Falava baixinho.

- Cosme, anda prá mesa filho. As torradas já estão prontas, e o leite está quentinho como gostas, anda Cosme, vais ver que ficas bom num instante.

Eusébio olhava-a encostado na ombreira da porta. Era invisível para os olhos perdidos do cirandar da mãe. A irmã Margarida parecia agora outra vida, outro Eusébio. O vidro partido em estilhaços, era uma brincadeira de criança que ria de gosto longe dali.

Cosme o mais velho dos dois irmãos, sempre fora de saúde frágil, um rapaz de alma melindrosa e corpo etéreo desde o nascimento. Tinha mais quatro anos que Eusébio. No dia que completara quinze anos, na calada da noite, tirara o cinto preto de pele da farda do pai e com ele pendurou-se pelo pescoço na porta do quarto. Zacarias, sempre o mais madrugador encontrou pela manhã os despojos daquele filho, a pele transparente, os olhos abertos no vazio, a fivela apertada a arroxear o pescoço fino.

Acordou Deolinda com um abanão - "o paneleiro do teu filho matou-se" - e saiu porta fora. Voltou mais tarde com o cangalheiro, o médico e o padre, e tratou de todos os tramites legais e espirituais como um pai deve fazer.

Eusébio olhava a mãe, o dó que sentia dela dilacerava-lhe o peito. O corpo espigado de rapazola condoía-se da culpa mastigada daquela mulher que era sua mãe, mas que  tinha desaprendido de ser pessoa há muito tempo.

Era Domingo. Zacarias dormia ainda. A farda descansava numa cadeira da sala. Eusébio olhou-a, caminhou até lá, tirou o cinto preto de pele das calças e entrou no quarto do pai.

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Quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Porque sim

 

 

Ficava aqui a falar dela, horas a fio. Dela ou do que me lembro dela.

O tempo encarrega-se de retocar as memórias, editar as imagens que fazemos das coisas e das pessoas. Agora, assim, ao longe, tudo me parece mais belo. Notam-se os remendos aqui e ali, numa ou outra passagem, ou em algum momento que se revela na escuridão das noites mal dormidas. A verdade, é que já não há noites mal dormidas, agora que penso nisso, atinge-me em cheio, a seco até, atrevo-me a dizer, a certeza do sono profundo e conciliador que me vem acontecendo.

Horas a fio, se quiser. Fora parte isso da cor, e dos retoques, está tudo claro como o dia de hoje, aqui, e aqui - apontou para a cabeça com o dedo indicador, e depois, pausando as palavras, com a mão aberta tocou o peito.

Era cheia de vidas. Assim, mesmo, no plural! Vidas. Ela era muitas. Ria-se do nada, brandia gargalhadas alto e bom som, escoando nela toda a alegria da terra. - descansou as palavras num meio sorriso - Parece que estou a vê-la... ria alto, a boca perfeita abria-se sem pudores, e jogava a cabeça para trás num espicaçar constante. Os cabelos negros tomavam conta de toda a moldura da terra, e rasavam os sentidos de perfumes. - falava entre silêncios e cambiantes poéticos - Ria-se de tudo, e de todos... se era bonita? Era bonita sim. Não que fosse uma estampa, dessas das revistas e do cinema, não, nada disso. Tinha lá os seus trunfos, se calhar era um bocadito...original. É a palavra que melhor a define. Os olhos deveriam ser menos afastados, os lábios mais finos, a silhueta mais delgada... - soltou uma gargalhada - era o que ela carregava dentro dela, ou sei lá onde, era isso que era bonito. Era esse não sei o quê, que ela transportada num esconderijo só dela, que provocava aquela vertigem à sua passagem.

 Também há quem diga que era...única... não gosto desse epíteto, Única! - escarneceuEstaria a condenar as pedras do caminho a nunca mais serem pisadas daquela forma. Não era única, não tinha esse direito.

Eu avisei, horas a fio a desfiá-la, a tecê-la...sem me cansar - atirava um olhar atulhado de vigor de outras épocas - mas antes que perca o fio à meada, sim porque a minha boca e o meu cérebro, andam cada vez mais por estradas desavindas. E isto...isto é a foz e a nascente, o derradeiro lugar. Talvez, não ainda, mas ela é o meu derradeiro lugar.

Dizia eu que ela era muitas a um tempo só. Quando chorava, e se ela chorava Santo Deus.... - as mãos impacientavam-se de sal. Estancou. Mudo -... chorava a cântaros, e nos dias de chuva, aqueles dias cinzentos em que a tristeza é um estado de alma, nesses dias vidrados pelas janelas embaciadas, ela deixava de ser e escorria pelas paredes numa humidade de dar dó - uma sombra tombou em ameaça nos olhos fundos - era assim quando chovia, ou quando ouvia outros prantos que não o seu. O contágio era súbito e fatal.

Justiça lhe seja feita, tão depressa desaguava na dor, como renascia em fogos. Ela era também o fogo...como diz? Se ela era tudo? Tudo...mais que tudo.

Punha rubores onde pousava os olhos, e deixava rastos de labaredas por onde passava as mãos. Aquela mulher tinha o corpo em ferida aberta,  do lume que o queimava, ardia devagarinho em lugares onde o recato aconselhava esquecimento. Se soubessem - podia quase ver-se o caramelo aquecido pelo desejo, escorregar-lhe pelos cantos da boca, num torpor de lava - se ao menos pudessem ter visto, como ela se entregava, mansa como uma cadela de colo, submissa e terna como um carneiro na Páscoa,.. cavalgava-a por montes e vales, banhados os dois em albufeiras de suor. Cada galope no dorso dela, era um passo para o abismo...ela tinha o abismo nos olhos e na ponta dos dedos com que me tocava inteiro... - as mãos branqueavam, apertadas uma na outra, e os olhos, esses perdiam-se na luz sépia da lembrança.

Porquê? Tardava a pergunta...porquê...Cheguei a perguntar a mim próprio. Nunca tive uma resposta, melhor, nunca houve uma resposta.

O sitio dela era em mim, percebe? Agora pergunto eu, percebe? Em mim...mas não fui compreendido, os abraços desatavam-se, ela deslizava pelo meu amor, fugia-me... não havia saída. Podia existir sem ela, mas nunca fora dela. Entende?

Então lamento...não sei dizer de outra maneira.

Como? Estava a dormir. Ela estava a dormir. Parecia uma criança ainda com a alma transparente. Sentei-me na beira da cama, toquei-lhe o peito destemido, subi pelo colo, até ao pescoço de garça, de graça... - sorriu triste - detive-me por ali, senti a macieza daquela pele adamascada, apertei um pouco, só um pouco, mas firme.  Os seios por fim calaram, ainda altaneiros, no entanto ausentes.

Respirei fundo, inspirei as réstias de desafios e por fim, já com ela a correr-me nas veias, levantei-me e saí, em paz, completamente em paz.

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Terça-feira, 4 de Agosto de 2009

O Homem e o Cão

 

O sentido da vida confundia-se com as curvas da estrada. A vida ela própria, fundia-se no macadame em delírio com o sol a pino. Limpou a testa com a manga da camisa desbotada, e com a mão em pala sobre os olhos, levantou a cabeça em direcção ao astro rei, "hoje morre-nos a alma, queimada viva!" murmurou entre dentes enquanto baixava a cabeça e encetava nova etapa.

O cão seguia-o, preso por pouco mais de um metro de sisal grosso, atado à laia de coleira. Uma existência dedicada e servil posta à prova a cada anoitecer no meio das moitas.

O homem vivia de sombras, bebia penumbras com sofreguidão, e alimentava-se de cada noite que caia sobre aquelas paragens, mas era no cume do dia, naquele momento em que o sol é só orgasmos e sabedoria, que ganhava forças e altura.

Pela berma da estrada, mesmo na rebentação das ondas de calor, seguiam a par, o homem e o cão. O homem. Livre, os cabelos e vermelharem o passo, uma juba farta e sem grilhões, o corpo curado em fumeiros de vento, seco e esguio, os olhos cheios de caminhos por fazer, a boca rasa de silêncios, os braços carregados de vozes e rumores. O cão, pisava ao de leve, quase pairava, para não entrar de rompante no espaço fecundado pelo homem. Um olhar medroso, insignificante naquela berma de estrada esmagadora e cruel ao mesmo tempo.

O sol descrevia um arco, esfumando-se em pós de incenso.

As duas criaturas, lado a lado, imolavam o dia, envoltas em gazes de lusco-fusco, e como a luz, extiguiram-se em estrelas e sopros de assombro. 

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Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Amazing....

 

- Foram três dias de assombro...

Falava...as palavras espalhavam-se como água e havia bocas que se abriam de espanto, e olhos paralisados colados na sua voz.

- O vento rugia com tal força, que os alicerces das casas descolavam da terra como dentes podres, e os homens trabalhavam amarrados a estacas de ferro de dez polegadas, e os tímpanos rebentavam e tudo quanto era ser vivente ensurdecia....

As mães ajoelhavam aos pés das camas onde as suas crianças dormiam. Ajoelhavam e velavam o sono inquieto, atemorizadas por alguma rajada insolente que entrasse por baixo da porta e lhes levasse os inocentes.

.....

-Eu vi! Ninguém me contou! Eu vi bem, três crianças pequenas, todas de mãos dadas, que se ergueram no ar como balões e voaram pelos céus , até desaparecerem por detrás de uma nuvem cheia de vento...não mais voltaram...eu bem vi...

......

- Depois foi a chuva, começou de madrugada e alagou tudo o que estava seco, só sobreviveram os que sabiam nadar....ou voar...

Começou de madrugada. Quando o vento de calou. Começou com tiros de canhão, que ecoavam nas casas como se estas estivessem vazias de coisas e de almas.

Fui à janela. Eram ovos do tamanho de punhos de homens grandes. Ovos de gelo que caiam com estrondo, e quando caiam saiam deles uns pintos encharcados  que se derretiam e deixavam no ar um cheiro a gemada com aguardente.

E aqueles pintos derretidos, alagaram tudo o que estava seco...depois abriram-se bicas lá no céu, e fontes derramaram toda a água sobre nós. Safou-se quem nadava.....ou voava....

.....

-No último dia  trovejou. E não houve noite, só dia claro, e um qualquer cegava com os clarões dos relâmpagos. E as árvores do campo tornaram carvão, queimadas da raiz às folhas, e a paisagem ficou pintada em tons de preto e branco... cinzento....e luz.

.....

-Por fim o silêncio...os que ficaram, apanharam os cacos, varreram as casas, escoaram as ruas, fizeram leitos de rio todos de novo, arrumaram as vidas....

Foram três dias de assombro. Eu vi......

.....

Depois calou-se, saiu para a rua, cortou a corda que o prendia à porta, com uma navalha de bolso, e tirou os pés do chão, devagar....deixou no ar um cheiro forte a gemada quente com aguardente.

 

Imagem by Weee (Amazing)

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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Monsaraz é um navio

Tudo o que a vista alcança...

 

 

 

 

 

 

....e tudo o que a alma inflama!

 

Fotografias : Leonor Fernandes 

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Quarta-feira, 4 de Julho de 2007

A alma vale o que vale......

Os 9 km que me separam do "forte", são deveras inspiradores, ou será mais correcto dizer transpiradores ...... pois..na verdade não sei.....

Não sei explicar assim, por letras se é o caminho que me inspira, ou, pelo contrário se é a desolação do olhar que me impele a transpirar a saudade que todos os dias engulo em seco e me faz aqui um nó na garganta, mesmo aqui a meio, de tal modo que acho que se vê no espelho retrovisor. Vê-se mesmo sem eu olhar pra lá.

Até parece!!!!

O grande lago!!! As terras do grande lago!!!!

"vai mudar tudo!!!! A terra, a aragem, a vida da gente, até os olhos vão deixar de estar secos, vai tudo verdejar"

....não se trata exactamente da terra prometida, onde correria Leite e Mel, mas andava lá perto.

E a alma da gente? Alguém, em algum momento se lembrou que este mundo de água ia arrastar pró fundo um bocado da alma da gente?

Onde ficaram as searas queimadas pelos Verões impiedosos? Esses campos cobertos de sol e suor? Onde ficaram os olhos da gente? A paz da aragem das tardes de estio de Agosto? O mar áspero de espigas gordas de pão acabado de fazer?

Está tudo afogado, morto, asfixiado pela água presa que encheu a alma da gente e a levou até ao paredão...

O verde enche agora as mãos dos homens, enche-as de vinhas carregadas da cachos lustrosos que aquecem almas novas.

E as almas não mais cantam, não mais se entregam aos rituais lânguidos dos campos em brasa. Agora o verde é luxuriante, e semeou ganância no coração das gentes.

O verde que é vida, o verde que é ar, é também rios de vinho a correr em direcção aos olhos esbugalhados e insaciáveis dos homens.

Agora as uvas enchem os bolsos, e os corpos engordam de felicidade......mas sem alma...

a alma está lá no fundo do grande lago a desfiar raízes de árvores velhas decepadas ......

 

 

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