Domingo, 15 de Novembro de 2009

Da ausência

 

 

 

O menino sentado numa pequena rocha, olhava encantado os movimentos soltos do lápis de carvão sobre a tela. A mulher de costas diante dele, fazia magia com as mãos e um lápis, pensou. O menino estava quieto. Os gestos da mulher exerciam nele quase um estado de hipnose. Era pequeno demais para perceber a raiva contida no bico do lápis de carvão, para entender as mágoas caladas nos riscos negros pesados que iam ganhando forma na aridez da tela em branco. Encolheu-se um pouco. Era quase inverno, e àquela hora da manhã, apesar do sol se agigantar no céu, soprava uma brisa fininha, que entrava sem pedir licença pelas costas acima. Esfregou as mãos uma na outra, e meteu-as entre as pernas para as aquecer. Uma árvore de contornos fantasmagóricos, um homem solitário encostado a ela, uma chuva grossa e certa... Os riscos ansiosos ouviam-se com clareza a arranhar o papel sem contemplações. A mulher parou por um momento. Desviou-se um pouco, o suficiente para ter uma visão total e completa da sua obra. Franziu o sobrolho, arqueou o canto dos lábios. A expressão era tão fria como o desenho. Fechada. podia mesmo dizer-se triste. Depois, logo a seguir, outra vez de lápis em riste, atirou-se para o silêncio do desenho, para a tarde encoberta que aos poucos ia transbordando para fora da tela, tisnando o dia de preto e branco. O menino inquietou-se. Estava a ficar frio. Agora, já rendido, o sol  envergonhava-se por detrás de umas nuvens escuras, e ainda não era nem meio dia. Olhou o céu, e temeu pelo desenho. Se chover, o homem a árvore e a chuva grossa, vão ficar ensopados, pensou aflito.

Foi então que um sopro quente encheu o vale. O menino cobriu os olhos com as mãos em concha, e caiu de joelhos na terra húmida. Sentiu o mundo parar um segundo, e depois retomar o entardecer. Baixou as mãos, outra vez geladas. A tela jazia à sua frente. Branca. Quase imaculada, não fosse uma chuva miudinha insistente, em pequenos e delicados riscos de carvão. A árvore sombreava cá fora, arrefecendo ainda mais o meio dia, e por entre os ramos o menino pode ainda vislumbrar a mulher. Planava de mãos dadas com o homem de traços negros. O vestido branco com uma bainha de lama fresca, amparava a brisa como a vela de um barco. O menino teve medo. Levantou-se. Apanhou o lápis do chão, o xaile preto esquecido ao lado do desenho. Esqueceu-se do luto daquele voo. Deixou o frio sentado na rocha. Parou a chuva com um gesto e tornou-se tela em branco.

 

 

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