Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Subir ao céu

 

A chuva surpreendera-a a apanhar agriões nas margens do ribeiro.

Abrigava-se debaixo de gotas grossas e pesadas, de mãos dadas com a seara de trigo, que lhe segredava:

- Corre Rosa, foge que o céu vai desabar...

Rosa estava pasmada, e receosa. Num repente a flor do dia tingia-se de metal escuro, e o sorriso dela escorregara para o chão, agora de lama.

O coração batia alto, tanto que os ouvidos lhe doíam com o barulho.

Ou então era o troar dos trovões. A electricidade no ar, eriçava-lhe os sentidos, e o horizonte tinha-se dissipado em cortinas  de água cerradas como muros de betão.

Um dente de leão, despido pelo vento, assobiou-lhe em surdina à sua passagem:

- Corre Rosa, corre que o mundo se acaba, ou te acabas tu...

Rosa, acenou-lhe e continuou. As fontes latejavam de pressa fundida no medo, e acima de tudo, a prudência dizia-lhe que não era bom estar a céu aberto num dia marcado como aquele.

Arengava uma Magnifica enquanto tropeçava nas ervas...ou chamava Sta . Bábara ... - alguém por favor.

Avistou a cameleira antiga, que assinalava a fronteira entre as terras de S. Justa e as terras de ninguém, onde agora se perdia.

Um coelho bravo, a espreitar da sua toca, gritou-lhe numa voz fina e estridente:

- Rosa corre, deixa a cameleira florir em paz! As camélias gostam de luz...foge, que te encandeias!

Deixou o coelho pra trás. Só tinha olhos para a grande árvore, tão antiga como a terra que a acolhia,...era a única árvore num raio de muitos metros...além dela só as estevas do caminho das cabras, ou as ervas daninhas e as flores do campo, que vergavam rendidas com a força dos elementos.

Sentou-se encostada ao tronco seguro da cameleira, tentou lembrar-se de uma oração, uma que afastasse as trovoadas, ou ainda melhor, uma que a levasse a casa...

Uma poupa, voou por cima dos seus cabelos encharcados, guinchando:

- Corre Rosa, as camélias gostam de luz.....

A cameleira iluminou-se com um estrondo que vinha das entranhas antigas da terra, e choveram camélias na erva molhada.

No silêncio da terra queimada, nasceram rosas, e nelas pousaram pássaros de todas as cores.

Imagem by João Palmela

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Original Zumbido por meldevespas às 11:28
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Quinta-feira, 27 de Março de 2008

Espreitar o mundo

- Queres vir espreitar o mundo?...sobe aqui pra cima....chhhh não faças barulho....

 Consegues ver daqui?....consegues ver a calma....sentir o silêncio?

 ...eu sei...também o sinto...é parte de mim! O vento...

 ...e a água...o sol está tão frio!

 ...não...não faças barulho, deixa as amendoeiras nevar, deixa os oregãos temperar o ar...

 

Vês? Não tarda a tarde despede-se, e depois...depois podemos descer...

 

 

Voltas?

 

Fotografias da Leonor, tiradas no Monte do Vale Vaqueiros

 

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Original Zumbido por meldevespas às 23:55
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Vulgar

 

 

1

Não havia memória de um dia, naquela magra vila, em que não tivesse sido pronunciado o seu nome.

Anos e anos de peripécias, envolviam-na numa espécie de halo mítico, que tornava a sua, uma história em tudo igual a tantas outras impressas nas páginas de um qualquer livro de lendas antigas.

O seu nascimento, as escadas íngremes da infância, os amores e desamores da adolescência, a queda na vida adulta. Tudo se conjugava num único verbo, singular e solitário de engrandecimentos de boca em boca, e vazio dentro da casa onde morava, ainda.

Ouvia contar de si, como quem ouve o relato de um filme que acabou de passar na televisão. Via-se sempre no papel da heroína , forte, bela, sobrevivente. Via-se sempre assim por fora dela, por fora de si mesma.

Os pontos acrescentados à teia de eventos, eram tantos e tão espessos , que não havia olhares que resistissem à sua passagem pelos passeios empedrados. As vozes calavam por instantes os seus infortúnios , e a pena que as suas expressões debotavam, feria-a fundo, no corpo tolhido pela força dos elementos. Ou então não. Feria-a no sítio onde antes tinha acalentado um pequeno ego, que cresceu depressa até sufocar de tanto ar, até arder como uma Fénix que se zangou com os homens e se recusou a renascer.

2

Era ela Catarina das Graças. Não era uma velha, também não era nova. Era uma mulher que tinha a idade exacta dos seus dias, e os seus dias eram do tamanho da sua existência, e a sua existência pairava, mais do que era.

Nascera com a morte da mãe. O primeiro grito de uma foi o último da outra. Uma só alma, que abandona um corpo,  porque se enamora de outro.

Cresceu na casa do pai, mas fora do colo dele.

O pai era um homem duro e pouco dado a afectos, que nunca conseguira lavar da boca o sabor amargo do dia em que a filha chegara a este mundo de Deus.

Trabalhava a terra com avidez, e se algum calor sobrara em si, era a ela que o dedicava. A terra era a sua única amante, que o esgotava de toques e o esvaziava de forças. A terra sugava-lhe o suor do corpo e a vida do olhar.

Catarina cresceu na terra, livre como os coelhos, a correr pelos campos, acossada pelas raposas e outros bichos das sombras. Comia flores e mordia ervas frescas, nadava nas ribeiras que corriam depressa nos meses de Primavera, por entre os baixios do terreno, e dormia sestas coberta apenas com o calor do verão ou o frio do Inverno. Era do campo, como outros são da lua. Não sabia outra fala, não percebia outra vida que não fosse essa.

 

3

Entre ventanias e trovoadas, Catarina foi crescendo à margem das gentes, à reveria de regras, ao contrário das leis dos homens, que a cada bater de porta, mais se ausentavam da sua presença no mundo.

completados os 6 anos, entrou na escola, e livros dentro foi trilhando caminhos de descoberta. A carteira de pau, sovada e castigada de tabuadas cantadas em coro, abrigava-lhe os primeiros medos. Medo das pessoas que agora lhe apertavam os seus dias, medo das horas contadas com esforço no relógio por cima do quadro preto, medo daquelas paredes pálidas e opacas que  eram o limite do seu campo.

O seu campo tinha ficado lá fora, solto, livre e verde, farto de terra e água e passos de bichos.

Sonhava acordada, e abalada, acordava de sonhos que não o eram.

Um dia de sol morno, logo depois do almoço engolido à pressa debaixo do telheiro da escola primária, cerrou os dentes e calou-se. Abriu os olhos para o mundo com que lhe queriam entulhar a alma, e como uma escolha que se faz por querer, calou-se.

Não é certo o tempo que durou tal situação. Uns falam de dias, outros de meses, os mais audazes arriscam anos.

Enquanto o silêncio não se quebrava por dentro, o burburinho de vozes e sons crescia como cogumelos no tronco de árvores na estação das chuvas.

Havia dedos apontados, murmúrios que eram quase sussurros, segredos expostos, e prosas inventadas com pormenores arrancados pela raiz à laia de dentes inúteis.

Aquela criatura, pouco maior que um cão vadio,  ia assim, tomando conta do ar, das casas e de todos os poros da vila.

 

(continua...brevemente)

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