Terça-feira, 12 de Maio de 2009

A Confissão

 

Tomou-lhe as mãos, com as suas. Pressionou-as ao de leve.

Olhou, sôfrego, aqueles membros macios, e quentes, depois mergulhou o rosto exausto no vale húmido do seu colo. Sentiu o cheiro adocicado a cravo-da-índia e açúcar mascavado que o faziam sempre ter vontade de a abraçar.

Não era altura para isso.

Pedira-lhe que ficasse mais um pouco, que deixasse todos os afazeres, só para o ouvir....no entanto agora hesitava. Enquanto descansava a culpa no leito morno, embalado pelas dúvidas que lhe assaltavam a razão, ponderava na melhor forma de evitar o Inverno nos olhos dela. Respirava fundo, imerso na brandura da sua pele, tentando guardar todos os cheiros e toques e climas daquele solo sagrado.

Pressentia-lhe uma ansiedade em crescendo. Ela estava muda, é certo. Mas havia um odor forte a pimenta do reino, que lhe crescia nas palmas das mãos e antecipava a estação das chuvas.

Ela sentada, rígida, expectante e ainda assim, calorosa e doce.

Ele de joelhos, entregue, fundido nela...

Tinha começado a chover lá fora.

Uma bátega de água, rija e consistente.

Das encostas uma enxurrada exangue escorria até à foz do peito dos dois amantes.

Então ele disse: - Não há nada mais triste do que ler o segredo escondido de outro alguém...deixa-nos num limbo entre culpa de o ter feito e a dor de o saber....

O silêncio, quebrado por breves instantes pela voz dele, voltou a falar mais alto. Sobejaram as palavras ditas num sussurro. Permaneceram no ar, caladas, a perpetuar distancias.

Doíam-lhe os joelhos dobrados no chão de cimento mal afagado - ainda bem - pensou com uma pontada de exaltado prazer. O gozo antecipado da expiação.

- Devias saber que o conhecimento é o berço da dor.

Ele levantou o rosto incrédulo. Ela falara...

Ergueu-se devagar, lambeu as feridas e os restos de silêncio agarrados às suas mãos, e olhou-a acanhado.

Ela esboçou um sorriso maternal, breve e fugaz.

- Agora vai. A chuva lavou a culpa, a tua e a minha...

 

Image by Pablo Picasso "Portrait of A Woman" 

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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Espera-me, que eu não volto

 

 

 

O motor do tractor emoldurava-lhe a indiferença. Aquele rosnar cavo e profundo, ressoava no vazio do campo pontilhando a monotonia das horas.

Joaquim António, manobrava a máquina apenas com uma mão, recostado no banco plástico e rijo, forrado com um pano de cotim coçado.

A outra mão estava esquecida nas costas do banco. O braço pendurado com a mesma displicência com que conduzia sete dias na semana aquela máquina pachorrenta e estúpida.

Sentia-se estúpido ele também, naquele vaivém, arrastado pela grade de ferro pesada, que arava a terra seca e a sua culpa ainda em carne viva, com igual intensidade.

Desde que aquilo se dera, não mais tinha encontrado paz. O cheiro forte da terra, costumava ser um bálsamo para todas as dores ou maleitas. A ressaca das segundas-feiras de manhã, o sol vigoroso e cruel dos verões varonis, as chuvas agoniantes e potenciadoras de ansiedades e apertos no peito... tudo, o cheiro visceral da terra tinha sido sempre fonte de paz e acalmia. Por isso não se via a fazer outra coisa que não fosse aquilo. A escola aborrecia-o de morte, quatro paredes a cingir-lhe o corpo, quatro corpos hirtos a encolhrem-lhe a vida, que corria lá do lado de fora, livre, sem grilhões, sem algozes.

Ele não era diferente agora do que era antes. Era o mesmo rapaz, respondiam as pessoas à pergunta - "Achas que mudei? Responde com a verdade! - repetida vezes demais nestes últimos dois anos.

Mas ele sentia-se diferente. Claro que era o mesmo Joaquim António que estava todas as manhãs reflectido no espelho da casa de banho. Mas ainda assim, a imagem devolvida pelo espelho provocaca-lhe um calafrio suado que o invadia sem misericóridia.

Já não havia mistérios naquele sentimento...não agora. Chamava-se culpa, e doía como um corte infecto infestado de bichos, uma dor lancinante, sem reservas, sem perdão, sem apelo.

Caíra de amores por ela, toda a gente sabia ali pelos arredores, que ele arrastava o mundo por ela, e ela um dia viu-o.

Amaram-se em segredo pelos recantos, desafiaram regras, atreveram-se por caminhos ainda por descobrir, juntos apagaram estrelas e acenderam constelações inteiras.

Mas Laura tomava conta da vida de Joaquim com a voracidade de uma erva daninha, e ele sentiu-se outra vez na escola, sentado direito numa cadeira de pau, com a cartilha aberta na letra errada, e a visão do vento a soprar segredos às árvores do recreio. Sentia outra vez os braços atados, a letargia imposta pela porta fechada, a inquietação a germinar em rebentos primaveris no seu peito em pousio.

A rebelião pressentia-se a cada dia de amores jurados e gemidos entornados no leito apertado do abraço dela.

- Vou pra França... o meu primo Germano, tem lá um serviço bom à minha espera. É na terra, nas vinhas, tu sabes que é só o que eu sei fazer... Queres vir também!? Não! Isso é impossível! Aquilo é só homens, é lá sitio pra uma rapariga como tu! Tira isso da ideia! Agora vou eu, e depois, conforme as coisas correrem, mando-te buscar.... ouve, não chores, eu volto, claro que volto... ela não acreditou. Ele também não.

Fez a mala. Dois pares de calças de algodão, a camisa dos dias de festa, a outra toda passajada pelas mãos deformadas da avó Miquelina, e os botins de pele curtida que o pai encomendara ao Chico das Botas há anos atrás.

A culpa era assim como uma doença, um mal daqueles sem cura, que se pegam à pele da gente, e em menos de nada já nos correm no sangue num galope certo.

Desligou a chave da ignição, o ronco do tractor cessou finalmente, e devolveu o silêncio àquelas paragens. Joaquim António, saltou para o chão, limpou a testa com a boina de gabardina axadrezada, e caminhou sem pressas os dois quilómetros que o separavam de casa.

Nunca mais pegara na bicicleta a pedais. Agora seguia a pé. Chegava sempre mais cansado. O cansaço era redentor.

No dia seguinte, o dia amanheceu antes da hora, havia um alarido no ar que puxava quem passava num remoinho crescente, e as vozes em surdina subiram o tom, e os gritos perfuraram tímpanos e sonhos, e uma multidão de gestos urgentes e olhares esbugalhados precipitava-se para o termo da vila.

Ali, debaixo da nogueira antiga, ao lado do Poço das Virtudes, jaziam lado a lado as sapatilhas de lona vermelha de Laura.

 

 

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