Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Texturas

 

  

O dia chegou destemido. Entrou em jorros de luz pelos vidros da janela sem se fazer anunciar, como uma visita inesperada.

Os meus olhos cegaram de tanto sol. Senti a noite escorregar pelos lençóis de linho até se diluir no rasto de pó dourado.

 

 

 

Uma profusão de claridade, encheu o ar de partículas brilhantes que te tocavam a pele, e te lambiam as costas nuas.

Foi nesse instante, nesse momento em que o toque se sublima, que duvidei da tua presença.

Serias tu corpo, e carne e sangue? Ou apenas restos de um qualquer cometa espalhados em mim...

 

 

Acho que sorri. Eras tu. Corpo, carne, sangue. Meu.

Cheia de certezas, e ainda ébria de tanta luz, levantei-me.

Senti os pés queimarem. O amor usado na noite, fervia em borbotões derramado pelo soalho.

Apanhei-o com cuidado, e antes que o dia o invejasse, guardei-o a sete chaves, num sítio que só eu sei.

 

 

 

 

Com as mãos em labaredas, enxotei a luz com as cortinas, e deitei-me outra vez.

A penumbra embalou a manhã, e eu abracei-te iluminada.

 

 

 

Pics by Meldevespas

sinto-me:
tags: , ,
Original Zumbido por meldevespas às 14:41
link do post | zumbir | zumbidos (14) | favorito
|
Terça-feira, 9 de Setembro de 2008

Manhãs Eternas

 

 

 

 

As manhãs de Sábado eram as preferidas pelos amantes. Perfeitas para encontros fortuitos na frente do mundo e nas costas de Deus.

A casa da Santinha estava incrustada na Rua do Comércio, o centro nevrálgico da pequena vila, e as manhãs de Sábado enchiam a calçada de passos e vozes. Correrias de crianças, chamamentos de mães, cumprimentos de ocasião.

Os homens discutiam as últimas notícias do desporto, encostados na ombreira da porta da Tabacaria Moderna e havia magotes de mulheres amontoadas nas mesas da Pastelaria Docemel, a beberricar cafés ao ritmo do último mexerico.

O Dr. Nataniel, o advogado mais proeminente da praça, folheava o Semanário Económico sentado num dos bancos de ferro pintados de verde abeto, que ladeavam a rua  para descanso dos passantes. Olhava as notícias sem as ler...As manhãs de Sábado eram as melhores para apreciar o mulherio, pelo rabo do olho. Fixava-se na dança das saias embaladas pelas ancas, fitava os saltos altos qual altar de corpos que imaginava nus e de braços abertos para si. O Dr. Nataniel gostava de sentir o desejo que lhe corroía o corpo todo, a dor aguda que lhe tomava conta das partes intimas e lhe devolvia esperanças vãs de adolescências infames.

A Santinha, entreabria a janela da frente e deixava entrar o buliço da rua. O peito ardia-lhe na antecipação da chegada dele.

Vestiu o robe de chambre de organza rosa velho por cima da pele leitosa, e bebeu o chá, já quase frio, em goles nervosos. Ele raramente se atrasava. Quase 10 horas da manhã,  os sons vindos da rua emolduravam a ansiedade da sala. Dois toques. Um, depois o outro, na porta das traseiras da casa. Era ele!

Abriu uma nesga da porta. Apenas o suficiente para o intruso passar. Deixou-se ficar ali atrás da porta, como uma gata no cio, a retorcer-se da ausência dele.

A porta fechou-se. Ele olhou-a, sorriu, e ela entregou-se ali mesmo, sem bons dias, sem mais nada que não fosse a pressa de apagar o incêndio que ameaçava a sua integridade física e que ceifava vidas no interior das pernas.

Na rua do Comércio, a manhã decorria na costumeira cadência de vai vem, e os gemidos que escorriam da janela entreaberta, imiscuíam-se com as vozes dos transeuntes, e coloriam aquela manhã de Setembro de prazenteiros tons solarengos.

O sino na torre da igreja, chamava para a missa das 11, e uma debandada de pardais assustados precipitava-se sobre as acácias da praça.

A Santinha rezava mistérios a duas vozes. Cumpria promessas feitas ao ouvido, pelo chão frio e rijo da casa. Dava graças pelo caudal de vida que lhe varria os sentidos.

 Aos poucos, o dia foi escoando sons e passos, deixando no ar apenas a urgência do almoço anunciado em cheiros a comida quente.

O sol de Outono, implacável fazia o casario cair em sombras densas sobre a rua do Comércio, agora abandonada à sua sorte de fim de semana, a solidão.

A sombra silenciou também a casa da Santinha. Lá dentro um manto de suor cobria os dois corpos fartos e quietos.

- Sábado de manhã voltas?

- Sempre minha Santinha.

Na rua ouvia-se agora um passo arrastado, e melancólico. Era o João Francisco, o deficiente que vivia na esquina de baixo com a mãe. Vinha da igreja, onde pedia esmola na saída da missa, e varria com a perna morta os últimos vestígios de gente do meio da rua.

Depois ficou o nada. As casas deitaram-se à sesta, e a Santinha fez juras de manhãs eternas enquanto acenava um adeus saciado.

 

 

sinto-me:
tags: , ,
Original Zumbido por meldevespas às 15:35
link do post | zumbir | zumbidos (11) | favorito
|

mais sobre mim

pesquisar

 

Abril 2011

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

posts recentes

Texturas

Manhãs Eternas

arquivos

Abril 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Janeiro 2007

Julho 2006

tags

todas as tags

online

links

Bee Weather

Click for Evora, Portugal Forecast Get your own free Blogoversary button!
Photobucket


MusicPlaylist
Music Playlist at MixPod.com

Vizzzzzzitas

Horazzzzzz

Tente adivinhar palavras relacionadas com a Matemática no Jogo da Forca:


Clique aqui


Custom T-Shirt Generator
blogs SAPO

subscrever feeds