Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Dias a fio

 

 

Por esses dias, a morte andava no ar.

Como remelas em olhos de crianças doentes, pegava-se a tudo sem pudores.

Nas casas desertas não moravam agora mais que recordações vagas de vidas passadas em suspiros breves.

Pelas ruas ecoava um soão soturno e atrevido, que se insinuava pelas frestas de portas e janelas, e irrompia em explosões de pó que se elevavam das chaminés estéreis.

No Beco da Cova, mesmo ao virar da esquina, encravada entre as raízes encarquilhadas de uma mimosa, e as paredes altas do Palacete abandonado dos Fidalguinhos, ficava a casa da Velha Justina.

A Velha contava, se soubesse contar, mais de 100 anos. Movia-se em sinuosos círculos, como uma assombração, do seu eu passado. As costas curvadas, o queixo a poucos centímetros dos joelhos, os dedos das mãos deformados pela descalcificação da alma ausente há muito. Arrastava os pés nodosos e antigos pelo chão  ladrilhado de barro vermelho. O lume na soleira da chaminé, era a única companhia da velha. Os restos dos lenhos secos trazidos pelo Vespertino no princípio do Inverno, estalavam ateando labaredas vivas.

Estranhava a estadia prolongada nesta dimensão. Estranhava a forma como as lembranças se lhe iluminavam. Agora mais que antes, agora mais que nunca. Lembrava-se de coisas sem sentido... e no entanto, esquecia-se de quem era, não poucas vezes.

Lembrava-se dos olhos espertos do marido. Dos modos ladinos que tinha de a namorar, mesmo nos tempos mais duros...e depois, na cegueira do cair da noite, fechava os olhos e via-o no seu melhor fato de tyrilene, comprado ao Paco contrabandista... as mãos postas em descanso sobre o peito. As maçãs do rosto salientes da pele cinzenta . . .os olhos sem ninguém caídos no fundo de duas covas escuras..

Falava, enquanto se movia naquele rodopiar arrastado, sem fim... era mais um murmurejar, um ruído de fundo, uma prece em ladainha, que se renovava a cada rumor de vento. - Pai! Filho! Espírito Santo! qual de vós se esqueceu de mim nesta cova rasa de silêncios ruins! 

Já não chorava. O caudal fértil tinha secado, nada mais restava da bonança de outrora...apenas a pele árida, gretada, quase morta...

Porque andava Ela a imiscuir-se na vida de uns e de outros, e resistia teimosa a todos os seus chamamentos ?

Anda no ar Ti Justina, anda no ar! - dizia num gemido surdo a Maria Adelina.

Anda nada - ripostava a velha da janela do quarto de dormir - se andasse no ar já tinha entrado por estes buracos que tenho em mim, onde entra tudo quanto é dor... menos essa magana, que não tem dó desta sombra eterna.

Maria Adelina benzia-se em ânsias, e fugia às pressas, deixando atrás de si um cheiro a nêsperas azedas caídas da árvore em dias de trovoadas de Agosto.

A vida era uma erva daninha. A morte uma carícia que tardava.

O lume de chão, ardia em estalidos.A velha enchia de água uma cafeteira esmaltada, e encostava-a estrategicamente às brasas matutinas. Juntava o pó de café, e acocorada na cadeira baixa fundilhada a buinho, esperava o fervilhar do liquido. Assistia com pormenor a todos os pequenos movimentos dentro da cafeteira. No momento exacto em que a ebulição começava, e o café ameaçava transbordar, a Velha munida de uma tenaz de ferro fundido, apanhava uma brasa, e deitava-a com saber para dentro do liquido. Depois com o pé, arredava a cafeteira. Ali, era o único lugar do seu dia que lhe despertava um sorriso franco, tímido, mas franco.

Cerrava os olhos pesados, e inspirava com uma força escondida para a ocasião, o aroma forte do café acabado de fazer.

- Bem podias vir agora - conjurava baixinho, enquanto beberricava o liquido escuro - não sei o que ainda esperas...

As mãos envolviam a caneca de loiça pintada. Não havia tremores, só uma tristeza que cobria as paredes da casa, e escorria por baixo da porta até à raiz da mimosa.

O vento passou por ali, manso e calado. Fez ranger portas e batentes, e farto de desígnios vãos, deixou um rasto de Maio por toda a parte.

  

 Imagem by Deviantart

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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Raízes

Eram três raízes fortes.

Frutos de sementes vulgares, mas sãs e escorreitas.

Eram três raízes, que fermentaram no colo de uma mãe viúva de traços firmes e plácidos, e germinaram num dia de Primavera com o nascer de uma manhã qualquer.

Tinham membros malhados como ferro, forjados na tempra de uma fornalha acesa em brasa. Estavam na terra, como a terra estava nelas, Eram da terra numa pertença sem reservas ou limites, eram e isso bastava.

A viúva que as deitou ao mundo, cansava os braços com os filhos dos senhores, e caiam-lhe os seios de tristeza pelo leite derramado na boca de outras crias que não as suas. Tinha olhos de sal, que às vezes não se fechavam, porque não se podiam fechar, e davam-lhe um ar de estátua. Uma estátua numa praceta de segunda que ninguém olha, pela razão simples de que não há ninguém para olhar. A mãe viúva, tinha os nós dos dedos gretados do frio do pão amassado noites dentro para mesas de outras casas. Ela não tinha casa, nem mesas, nem tampouco pão, só três raízes fortes metidas na terra, de pés sujos e duros que sorriam com a alma toda quando a tarde do dia a seguir trazia embrulhadas num pano grosso, as côdeas do pão dessa manhã.

Codeas , maçãs tocadas com nódoas negras que alastravam mais depressa dentro dos bolsos, escondidas dos olhares famintos de raízes fracas e folhas caídas longe do Outono; raspas dos bolos de torresmo assados no forno do pastor, árvore nobre de tronco rugoso e ramos quietos.

Aquietavam o clamor do estomago com restos de nada, e brincavam de mangas arregaçadas e calções cortados pelos joelho e atados à cinta com duas voltas de cordel.

Eram amados na sombra dos filhos ricos que não eram da sua mãe. Espreitavam do alto do muro as mãos gretadas a pentear cabelos de ondas loiras, e fingiam ser eles, quem estava ali à mercê da doçura daquelas mãos de que só conheciam o cheiro.

Mas os seus cabelos eram negros, e atrevidos, espetados e sujos, e as mãos estavam longe. Acariciavam cabeças douradas, faziam-no com carinho e desmedida dor.

As raízes tomaram conta do seu pequeno mundo, e fizeram dele um lugar fertil para se viver.

Cresceram e multiplicaram-se, ficaram mais fortes a cada pedaço partilhado de amor em forma de pão bolorento. Abraçaram palmos e palmos de terra, sempre na busca, sempre a fossar o cheiro a óleo de amendoas doces que a mãe trazia nos dedos àsperos, o cheiro arrancado a aneis louros incandescentes.

 Um dia a mãe viúva fechou os olhos de sal, e não mais os abriu. Nunca mais trouxe côdeas , ou frutas passadas, as mãos mornas, arrefeceram num repente e perderam o cheiro.

E as raízes encolheram-se de dor, calaram gemidos, perderam sorrisos abertos e ganharam um par de olhos de sal para cada uma delas.

As poças de lama, já não eram oceanos sonhados de praias quentes e azuis, e os olhos de sal viam agora apenas poças lamacentas feias, frias e vazias de interesse.

A terra toda encheu-se de raízes novas, e as três raízes fortes sulcavam vales com gretas nos nós dos dedos, e voltavam de rastos com pedaços de pão de ontem e restos de bolos resgatados do lixo das padarias. E havia sorrisos de mangas arregaçadas que esperavam com os olhos cheios de sono, as mãos sedentas de toques e as barrigas cheias de fome.

Aos poucos os olhos de sal que tanto tempo permaneceram abertos, escancarados de fé, e tantas vezes (muitas mais vezes) de desespero, fechavam-se.

Uma a uma, as três raízes fortes foram perdendo o viço, os olhos foram ganhando a paz.

Os olhos de sal e a busca de pão foram passando de raíz em raíz, até hoje.

Os meus olhos salgados já mal se fecham.

Três raízes fortes esperam as minhas mãos.

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Quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

O GATO MORTO

Já disse o poeta (Vinicius de Moraes) que não há nada mais triste do que um gato morto.........

E é verdade......todos os dias desta semana, nos 9 kms que tenho que repetir 4 vezes, naquele ponto da estrada, tal qual um sinal de trânsito derrubado pelo vento da noite, está um gato de olhos mortos. Um gato preto de olhos mortos.

Olhos, e corpo, que a vida foi-se embora sem despedida prévia, ali mesmo na curva depois do caminho de cabras. Já há 3 dias, e aqueles olhos vazios sempre me cumprimentam, sem expressão nenhuma que não seja o do abandono da alma (sim da alma, porque os gatos têm alma, uma alma muito antiga, mais antiga que eu, mais antiga que o mundo inteiro), e eu olho de soslaio, porque me incomoda a ausência neles.

A pelagem baça, as orelhas ainda afitadas e...os olhos sem olhar de espécie alguma, só uns olhos de vidro assoprados.

Tenho medo daqueles olhos. Não têm dor, nem ódio, nem raiva, nem nada. Minto... só têm nada.´

Era um gato preto, de andar felino, elegante, de certeza que olhava para as cabras, para o pastor e até para o cão malhado com aquele olhar superior que têm os gatos pretos vivos.

E agora, depois da velocidade da curva, aquela logo depois do caminho de cabras, ficou lá, a dormir um sono sossegado, sem sobresaltos, um sono da cor da estrada, baça acinzentada como o rato que perseguia quando a curva o alcançou a ele primeiro.

Coitado, perdeu a corrida, e agora dorme de cansado, o gato preto de olhos mortos.

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