Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Aprendiz de pássaro

 

Caminhava num passo lento por cima da muralha. Um passo lento e descuidado.

O vento assobiava pelos torreões em ruínas Era um vento insistente, teimoso. Não era um daqueles espojinhos de Verão, quietos, cheios de pó e restos de papéis e paus de gelados. Era um vento de fio afiado em pedra de amolar e chuva antiga.

Chovia há mais de três dias, sem parar. Lourenço repetia o caminho, uma e outra vez, para a frente, para trás....a decorar as pedras velhas, cansadas de chuva, cansadas de vento, cansadas do caminhar fastidioso do rapaz. A cada saraivada de chuva arrojada pelo vento,  cerrava os olhos e os dentes e oferecia-se de braços abertos aos ímpetos do dia que amanhecia em espasmos.

Os cabelos ruivos caiam-lhe sobre a fronte, escorriam como rios em dias de enchentes, pelo colarinho da camisa e desapreciam peito adentro.
A cada trégua do vento, abria um pouco os olhos. A manhã estava  coberta por uma névoa de água, que tornava as árvores sombras, e os rios e os homens e os bichos, tudo era agora uma amálgama de ténues linhas de bruma. Antes de subir, tinha visto de perto o desgosto das terras. Choravam em rios de sangue pela estrada fora. Transbordavam caudais de lágrimas de ocre que deixavam livres pelas bermas. Sem acanhamentos, ou medo de desonra.

Invejava os campos, o seu despudor. Ele estava ali em cima, prestes a acabar com tudo, e ainda assim não conseguia verter uma lágrima que fosse. Sentia na boca o sabor doce da chuva, nada mais.

Outra vez abriu os braços, cerrou os olhos e ensaiou o voo. Um cascalho pequeno, escapou-se da muralha, mesmo por debaixo do seu pé direito. Por um momento perdeu o equilíbrio, sentiu um formigueiro nas pontas dos dedos, um calor brusco na face molhada, e o coração acelerado na garganta. Caiu para trás e ficou ali, a ver o calhau rolar pela encosta, até se perder na película de bruma. Era quase poético chamar encosta àquela escarpa de xisto escorregadio e bruto.

Do que estava à espera afinal? Que ela viesse, desfeita em culpas e carregada de súplicas? Ela não viria. Disso estava bem certo. Se queria voar, teria que o fazer sozinho.

Um voo solitário.

Acariciou o granito, lavado de lamas e ervas e bichos-de-conta.  Alisou a pedra fria. Outra vez aquele formigueiro. Era medo. Tinha a certeza que era medo. As fontes tinham começado a latejar, sentia-se zonzo. A chuva sedava-o. De alguma forma esbatia nele as convicções, as vontades, os rancores.

Ela não viria. Sempre o soubera.

A roupa ensopada pesou-lhe pela primeira vez. Tinha perdido o tino ao tempo que estava ali em cima. Ouvia com clareza os próprios ossos ranger demolhados na humidade lá de fora.

Esquecido da coragem que o içara até ao cimo do castelo decadente, agarrado às pedras ásperas com os dedos em garra, arrastou-se na descida.

Firmou os pés na terra ensopada, e em cambaleios correu na direcção de casa.

Por hoje, pelo menos por hoje,  deixava o voo para os pássaros.

 

 

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Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Estilhaços

 

Eusébio subia a rua sem pressas de chegar. O empedrado da calçada estava molhado, resignado a um dia inteiro de uma chuvinha delicada. Subia a rua de mãos nos bolsos, olhos no chão enquanto ia pontapeando uma pedra que fugia à sua frente.

As calças de cotim remendadas nos joelhos com uma rodela de napa alaranjada, estavam encharcadas até quase aos joelhos, e os sapatos de atacadores pareciam montes de terra andantes. O campo pelado onde se juntavam para jogar à bola depois da escola, estava cheio de atoleiros e lamaçais. Chovera a semana toda, sem tréguas. Subia a rua de olhos no chão, pontapeando o cascalho. Pensava na melhor maneira de abordar o sucedido. "Mãe, desculpa, aconteceu um acidente...", "Mãe...foi sem querer, juro pela minha saúde!". A mãe estava farta de juras, acidentes e sem quereres. O melhor era um directo "mãe, parti o vidro da janela da Irmã Margarida". Já sabia que a seguir era o habitual chorrilho de bofetadas, depois seria arrojado até ao quarto pelas orelhas e por fim a mãe exausta diria mal à vida dela como sempre num pranto rezado vezes e vezes sem conta. Custava-lhe vê-la assim, mas sentia-se preso a uma linha que não se via, apesar de ter a certeza que ali estava. Uma linha que lha atava os pés, as mãos e todo o seu ser a uma espécie de fado, ou sina ou o que quer que lhe chamassem, e que o puxava sempre para o abismo, para aquela parte do mundo em que a luz está sempre apagada e só há tropeções, cacos e feridas abertas.

A Irmã Margarida, de todas as formas, amanhã, logo cedo, havia de estar a bater-lhes à porta a cobrar o vidro e a alma fugaz do gaiato. "Eu bem a aviso D. Deolinda, o rapaz sem Deus não resiste! Nem que seja levado pelos cabelos, mas tem que ir à catequese!".

Pronto, "estava o baile armado", pensava num pontapé forte que fez o cascalho bater no contentor do lixo, com estrondo. A hora de catequese com a Irmã Margarida era uma tortura. O bê à bá do pecado era o "pão pingado", ao ponto de se poder dizer sem sombra de dúvida que mesmo o respirar era um pecado mortal, portanto merecedor da  maior das penitências. Mal sabia ela que o cumulo da penitência era ficar ali uma hora, contada minuto a minuto pelo relógio de parede, a ouvir o tom pernicioso da sua voz.

O melhor era mesmo desembuchar! Acelerou o passo, deixando para trás a pedra aliviada.

- Mãe! Cheguei... - entrou na cozinha. A mesa estava já posta, os três pratos nos lugares marcados. O pai à cabeceira, no comando, a mãe à direita dele, (na verdade a mãe, mais parecia uma formiga, quase não se sentava, atendendo às palavras de ordem do homem da casa: "Um copo de água!", "é só este o pão que há cá em casa!?", "Dá cá o vinho!"), à esquerda ele. O lugar vago, na outra ponta da mesa rectangular, era ocupado de tempos a tempos por uma dor estreita nos olhos da mãe.

- Andei a jogar à bola, no campo da Igreja...com o Basílio e o Cajó...ehp....mmm...parti um vidro da janela da casa da Irmã Margarida, ela diz que vem cá dizer-te, são vinte e cinco tostões. - estancou, sem fôlego, os olhos na nuca da mãe, que continuava de costas para ele, de frente para o fogão a vigiar as batatas que fritavam na frigideira cheia de azeite borbulhante.

- O teu pai, está a chegar, é melhor estares bem caladinho. resolvemos isso amanhã. Hoje joga o Benfica. - a voz da mãe, tremia, num tom esbatido. Era a voz do medo, Eusébio, conhecia-a bem. O desfecho da noite dependia do silêncio dela e do resultado do jogo de futebol, que ia começar na televisão daqui a pouco.

O Cabo Zacarias Resende era benfiquista ferrenho. Cada partida era uma luta renhida, uma disputa taco a taco, no terreno de jogo e na vida dele. Militar desde o berço, Zacarias, desde muito cedo aprendeu na pele o frio do aço, e na vontade a força férrea da obediência. Deixado à mercê da inveja e outros tombos, a violência ganhou raízes no seu peito, criou corpo nas suas mãos, e desabrochou nos seus olhos a cada caminho mais apertado. E para Zacarias todos os caminhos eram apertados. Uma mulher incompetente e amorfa, filhos desmiolados e sem perspectivas de espécie alguma.

O mais velho herdara o nome do avô paterno, nem sequer fora uma opção. Cosme Resende. O mais novo, já com o avô morto e enterrado,  recebera a bênção de Eusébio, o virtuoso jogador que encantava Zacarias e o deixava embasbacado.

A porta da rua bateu seca. Na cozinha, mãe e filho de imediato adoptaram uma posição de sentido. Eusébio podia jurar que ouvira a mãe engolir em seco. Teve pena dela. Tinha sempre. O jogo era difícil, as competições europeias, um clube de topo. Era bom que a sopa estivesse ao gosto do Cabo, caso contrário alguém iria pagar a factura.

Sabia bem como a mãe escondia por baixo da roupa as nódoas negras dos dedos de ferro do pai, os vergões nas pernas desenhados a rajadas de cassetete. Conhecia o olhar caído, o cabelo nos olhos a guardar segredo de carícias pesadas que brotavam no alvo da pele em pontos roxos. Sabia de cor todos os artifícios usados para proteger a reputação do seu homem. Sabia porque também ele estava farto de os usar.

Zacarias era um homem robusto, largo de ombros e de baixa estatura. Do Ultramar trouxera uma perna aleijada, que arrojava pela calçada e anunciava a sua chegada a casa ao fim da tarde. Era o sinal.

Eusébio fugiu para o quintal, tinha que limpar os sapatos antes de tudo, sacudir as calças, ajeitar a camisa, alisar o cabelo. Um pelo fora do lugar, qualquer coisa era o mote para mais uma discussão sobre a inutilidade dele e o desmazelo da mãe.

O jantar decorreu na mesma paz gorada de sempre. O jogo desenrolava-se à frente deles. Zacarias nem olhava o prato, empurrava garfadas de comida para a boca, umas a seguir às outras. O intervalo chegou. O nulo continuava, e o guisado já frio começava a ferver dentro do homem.

- Cabrão do gaiato! Deixa-te estar sentado! O jogo ainda não acabou!, e tu minha cabra, vê se limpas esta merda toda!

Deolinda sentiu o chão fugir. Quando ele ficava assim, agora tantos anos volvidos, mais que o medo era a afronta de ter chegado àquele ponto. O ressentimento com ela própria. Não conseguia deixar de se culpar. O medo dela tinha provocado mais abalos, mais tragédia do que a força bruta dele.

Eusébio encolheu a vontade de ir à casa de banho. Sentou-se direito a olhar para o aparelho de televisão sem no entanto o ver. Nem sequer era do Benfica. O seu coração batia a verde e branco. Mas se o pai desconfiasse, ele estaria morto. Se calhar era até melhor.

A jarra de loiça em cima da televisão foi a primeira a sofrer a derrocada do  único golo da partida. Os estrangeiros marcaram a um minuto do fim, e a cozinha dos Resende vivia a calma que antecipa a tempestade. O silêncio do golo.

O dia amanheceu cinzento, outra vez. Deolinda cirandava pela cozinha. Falava baixinho.

- Cosme, anda prá mesa filho. As torradas já estão prontas, e o leite está quentinho como gostas, anda Cosme, vais ver que ficas bom num instante.

Eusébio olhava-a encostado na ombreira da porta. Era invisível para os olhos perdidos do cirandar da mãe. A irmã Margarida parecia agora outra vida, outro Eusébio. O vidro partido em estilhaços, era uma brincadeira de criança que ria de gosto longe dali.

Cosme o mais velho dos dois irmãos, sempre fora de saúde frágil, um rapaz de alma melindrosa e corpo etéreo desde o nascimento. Tinha mais quatro anos que Eusébio. No dia que completara quinze anos, na calada da noite, tirara o cinto preto de pele da farda do pai e com ele pendurou-se pelo pescoço na porta do quarto. Zacarias, sempre o mais madrugador encontrou pela manhã os despojos daquele filho, a pele transparente, os olhos abertos no vazio, a fivela apertada a arroxear o pescoço fino.

Acordou Deolinda com um abanão - "o paneleiro do teu filho matou-se" - e saiu porta fora. Voltou mais tarde com o cangalheiro, o médico e o padre, e tratou de todos os tramites legais e espirituais como um pai deve fazer.

Eusébio olhava a mãe, o dó que sentia dela dilacerava-lhe o peito. O corpo espigado de rapazola condoía-se da culpa mastigada daquela mulher que era sua mãe, mas que  tinha desaprendido de ser pessoa há muito tempo.

Era Domingo. Zacarias dormia ainda. A farda descansava numa cadeira da sala. Eusébio olhou-a, caminhou até lá, tirou o cinto preto de pele das calças e entrou no quarto do pai.

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Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

A preto e branco

Passos decididos ouviram-se lá fora no corredor.

- Vem aí! Todos em sentido, depressa - era mais que um pedido, ou mesmo uma ordem, era quase uma prece à Nossa Senhora Auxiliadora dos Inocentes com Medo.

O Professor entrou calado. Correu um olhar desconfiado por toda a sala, e por fim, ainda de pé atrás da secretária de madeira polida, começou a abrir a pasta de calfe castanho chocolate.

O Dr. José Vieira Andrade, era tão digno do epiteto de Dr. como os alunos da primária, que agora o olhavam com temor genuíno.

Tinha ido para o Ultramar, província de Benguela, como Professor Regente, ainda verde. Filho único de uma família pobre,  acabara de cumprir os 18 anos quando a despeito do desagrado de mãe e pai, embarcou no paquete Uíje, cheio de sonhos de conquistar o mundo.

Perdeu metade durante a penosa viagem pontilhada a vómitos, tonturas e febres tenazes.

Regressara 30 anos passados, com um espírito colonialista que apesar da revolução, cultivava ainda e sempre com afinco e um particular deleite.

Ali no interior do país, as coisas pouco ou nada tinham mudado, e o Andrade, depressa assimilara uma verdade universal: também ali, naquele cú de Judas, havia pretos....mesmo que fossem brancos.

Os miúdos tinham um medo dele que se pelavam, e todas as manhãs de todos os dias da semana eram passadas entre dores de barriga e diarreias que esverdeavam as caras e encharcavam as mãos de suores gélidos.

A euforia de Abril esfumara-se em três tempos por ali. Os ecos de reforma agrária que soavam mais a sul, pareciam vindos dos confins da terra. Ali, nas serranias, a realidade era bem diferente.

Os filhos do Rogério das manifestações de punho erguido, eram pretos da cor do carvão, e os filhos do Dr. Justo, descendente directo do grande latifundiário Matias da Luz, eram alvos como claras em castelo.

- Todos de pé! O hino, o hino! Tenho que repetir todos os dias a mesma coisa!?

O rebanho levantava-se ordeiramente.

à frente as ovelhas de primeira, olhos vivos, cheio de certezas, cabelos bem lavados, apanhados em totós com grandes laços de cetim brilhante, logo a seguir, as ovelhas mais ou menos; camiseiros de chita, impecáveis, bem passados a ferro, abotoados até a cima e cortes de cabelos espartanos e sérios. Lá atrás, as ovelhas tresmalhadas, calças surradas, passajadas e à meia canela, a denotar a herança de outras gerações; cabeças tosquiadas, em tentativas vãs de eliminar colonias de lêndeas e piolhos nascidos na imundice própria da pobreza...

"Heróis do maaaaar nooobre povooo............" - o som diminuía, à medida que se caminhava na sala, e era pouco mais que um sussurro sujo na última fileira de carteiras.

-Podem sentar-se!

-Tragam os trabalhos de casa!

-O menino Luís para o quadro!

As ordens sucediam-se a um ritmo alucinante, manhã adentro. O Luís, sentava-se numa das carteiras a meio da sala. O pai era o guarda-nocturno do vilarejo, e a mãe era lavadeira. Nenhum dos dois sabia uma letra do tamanho de um camião. - Oh Sr. Dr. Professor, a gente nunca aprendeu, porque a gente não fez mais nada a não ser trabalhar! A gente mesmo que queira não pode ajudar o rapaz! - Dizia o Rameloso, alcunha dada ao pobre diabo do guarda-nocturno que varava as noites em claro. - Ouve lá oh Joaquim, o gaiato é burro que nem uma porta! Arranja-lhe mas é um trabalho na estranja, ou a guardar cabras na serra! Só está aqui a atrasar os outros! - O Joaquim Rameloso, Ferreira de seu nome, lá dava meia volta, de cabeça em baixo, envergonhado, mas nunca derrotado.- (Se os outros aprendem, o meu também há-de aprender, ora essa!) Era o orgulho parvo dos pobres, com vontade, mas sem coluna vertebral.

O Luís levantou-se a medo, tentou não arrastar a cadeira, e encaminhou-se com passos pastosos até ao quadro de ardósia negra.

- Resolva o problema: O Sr. João foi comprar um metro de tecido, pagou com uma nota de cinco escudos, recebeu troco de vinte e cinco tostões. Quanto custou o metro de tecido?

O rapazinho tinha agarrado num pedaço de giz branco, a mão tremia-lhe com tal violência que ele deixou cair o giz duas vezes seguidas, antes mesmo de o professor acabar de ditar o problema.

- Tens mãos de aranha! - Gritou ao mesmo tempo que descascava uma vergastada com o ponteiro no pescoço do passarinho assustado.

Os joelhos batiam um no outro com força. Agarrou o giz, e olhou para o quadro, cego, surdo, mudo, vazio como um balão. " Cinco contos, um metro, tecido, quem? O Sr. João....." não fazia ideia do desfecho daquilo tudo, agora tremiam-lhe também os lábios. O professor tinha-se levantado, e estava a um passo dele. Antes mesmo que conseguisse processar mais alguma coisa, sentiu um puxão de cabelos, seguido de um impulso que o fez espetar uma cabeçada na ardósia dura e fria. Pensou que era o seu fim, conseguia distinguir os risos abafados da fileira de carteiras da frente, sentiu os olhos esbugalhados dos companheiros de trás. Por baixo dos calções de cotim azul, uma risca de liquido amarelo corria até entrar nas meias brancas e por fim em gotas grossas, desenhava uma auréola molhada no estrado de madeira.

A vergonha doía ainda mais que a testa, ou a cabeça, ou o pescoço...

Voltou para o lugar, encolhido enxovalhado, um quase nada no espaço daquela sala de aula.

- Ditado! - Outra vez a voz de comando.

"A Tia Rita bebeu a xícara de chá........" o tom das palavras era monocórdico e metálico.

Feito o ditado, os alunos formavam uma fila indiana em direcção à mesa do Dr. Andrade, todos por ordem, a mesma ordem que imperava dentro das portas daquele pequeno mundo e que era, todos o sabiam, inalterável, imutável, absoluta.

- Muito bem menina Madalena, zero erros, Bom Grande! - o sorriso dirigido à rapariguinha empertigada tinha assomos de subserviência, afinal de contas era a neta do Presidente da Junta de Freguesia, homem de princípios cristãos rígidos que sobrevivera a cravos e palavras de ordem, com a benção dos Santos e uma mão pesada.

- Dois erros Manelinho, da próxima vez tens que ter mais atenção - o filho do veterinário, o Dr. Júlio Horta, era um rapaz miudinho, franzino, com o nariz pingão, e uma asma crónica que não o deixava medrar como as outras crianças. No entanto, era branco, muito branco.

A fila serpenteava da mesa do professor, para as respectivas carteiras de madeira inclinadas.

A menina dos 5 olhos, repousava ainda no tampo envernizado.

- Vinte erros!!!!!! - o olhar raivoso e escarlate ameaçava saltar das órbitas a qualquer momento - vinte erros!!!!!! - Burro! As mãos! Já, as duas mãos!

Viriato Afonso Henriques Pinto era o filho do coveiro. Espigado, muito mais velho que a grande maioria dos seus companheiros, rapaz escanzelado, os ossos a apontar debaixo da pele macilenta, os cantos da boca pejados de frúnculos, os olhos cheios de medo e vazados de esperanças.

Era um dos nove irmãos dos Pintos, o pai vivia com duas mulheres, duas irmãs, gordas e infectas, e já ninguém sabia bem quais eram os filhos de uma e de outra. A promiscuidade era tal, que o Padre Humberto, tinha já pedido a intervenção divina do Bispo da Comarca que pessoalmente tinha retirado as duas meninas mais velhas do barraco onde viviam.

Agora estavam no Convento das Beneditas, perto de Deus e longe da fome do pai.

 Cassiano Pinto, o pai, era atrasado, diziam os vizinhos, tinha uma figurinha, esguia e esquálida, a espinha curvada, da picareta, os olhos esfomeados, e as unhas encardidas de terra santa do cemitério - São todos uns atrasados, os desgraçados! - Dizia a voz crua do povo.

 Toda a gente sabia que o Cassiano, na última feira de S. Mamede, tinha comprado 12 pares de botas a um cigano raiano, que lhe fez um desconto de quantidade. Já lá vai um ano, e na casa dos Pintos, ainda ninguém precisou de calçado. O Viriato, lá vinha com a biqueira das botas amputada, e os dedos de fora uns bons dois centímetros, a arrojar pelo chão.

É que o Cassiano não se importara de todo com os números que as crianças calçavam, e houve que fazer as necessárias adaptações.

Viriato estendeu as mãos, sentiu uma corrente de ar, a anunciar a velocidade do artefacto e logo a seguir uma dor lancinante, primeiro numa mão, depois na outra, uma vez, e mais uma e ....fechou os olhos e deixou de contar. Cerrou os dentes, mas não conseguiu impedir que as lágrimas corressem em fio.

O Andrade finalmente deu-se por satisfeito. Das palmas das mãos do rapazote, brotavam bolhas de sangue como ervas ruins num campo são.

A campaínha do recreio fez-se ouvir, num som forte e purificador.
Ao menos durante aquele quarto de hora, rapazes e raparigas podiam respirar à vontade.

O Viriato, o Ângelo e o Prudêncio, correram para trás do edifício principal, sacaram de uma onça de tabaco de enrolar, fizeram uns cigarros mal-amanhados e sorveram o fumo com a força da meninice e a ânsia da liberdade por cumprir.

Por breves instantes detiveram-se nos cabelos dourados da menina Madalena, que brilhavam ao sol enquanto ela saltava à corda a cantar uma lenga-lenga "Pepita queria ser, enfermeira da marinha ....", como era bonita, tão bonita ....

- Aquele cabrão ainda mas há-de pagar! - rosnou Viriato enquanto mostrava as mãos em chaga aos companheiros incrédulos

- Deixa lá - disse-lhe o Prudêncio assentando-lhe um cachação na nuca - quando tu fores doutor e eu presidente da Junta, espetamos com ele no olho da rua!

- Reza que isso passa - retrucou o Ângelo já engasgado e morto de festa.

Em coro entoavam - Avé Maria cheia de graça, tens a barriga cheia de massa......"

As gargalhadas dos três amigos ecoavam por toda a escola, entre tossidelas e palmadas nas costas.

O recreio era pintado a muitas cores.

 

 

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Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Will You be Here?

 

 

-Olha está a nevar! - disse o rapaz  de olhos de peixe, sentado na pedra do caminho.

- Não é neve...estamos em Maio, que disparate....-retorquiu a rapariga de mãos de pássaro enquanto de afastava no meio de uma debandada de penas brancas - são as penas das canas. Há um canavial ali em baixo, consegue-se ver daqui.

- Penas ...das canas..!?

- Ou plumas, como queiras...., é este sopro morno que o vento tem em Maio, que as está a espalhar pelo mundo, parece neve...mas não é...

O rapaz abriu a boca e deixou sair uma nuvem de bolas de sabão...depois sorriu.

A rapariga estava debruçada na beira do caminho. Batias as asas por cima de um tapete de flores roxas - São Chupa-Mel , queres? - perguntou, enquanto levava a flor assustada à boca - estás ver como se faz? Assim...aqui na base são doces como o mel...- abriu um sorriso, e ofereceu uma ao rapaz.

- Humm , não me parece.....isso é uma flor!! É para alindar, não para comer... - disse desconfiado - não estás cansada?

Ela tinha pousado ao lado dele, as mãos de pássaro tocaram nos dedos secos do rapaz....-precisas de água....estás a secar...

- Tu sabes que ao pé de ti nunca vou secar. - o rapaz dizia-o com a sinceridade de um amor verde e incauto - além disso, repara, o sol está a cair atrás daquele monte...não tarda arrefece, e depois....

-...depois morremos um no outro como todos os dias - completou a rapariga com firmeza, a fugir do olhar perdido derramado pelos olhos de água .

- Amanhã com o primeiro canto do pardal, voltamos, reinventados, inteiros, amantes...

- Achas que amanhã também vai nevar?

 

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Terça-feira, 18 de Setembro de 2007

- Queres dançar comigo?

- Queres dançar comigo?

Repetia a frase dentro de si,  enquanto cravava a sala de passos pesados, e certeiros, avançando decidido para a sua meta.

Já tinha estado lá fora muito tempo. Tinha mentalmente feito este percurso mais de uma dezena de vezes. Costas direitas, queixo empinado, olhar destemido, e : - Queres dançar comigo?

Não tinha a certeza de conseguir falar, quando a hora chegasse.  Sentia o céu da boca numa textura de papel mata-borrão, e a cerveja que tinha literalmente engolido, só tinha piorado o suor que lhe colava nas mãos, e começava agora a repassar-lhe a testa.

Tinha pedido à mãe para lhe engomar a camisa branca, o branco sempre lhe deu um ar asseado, e isso era muito importante, segundo a mãe.

Vestira umas calças de fazenda riscada cinza trovão, impecavelmente vincadas, e apesar das dores quase o matarem, tinha enfiado os pés nuns sapatos castanhos, engraxados pelo Martinho da Praça, mas que tinham sido do Tio Joel, que calçava pelo menos dois números menos que ele.

-Queres dançar comigo?....ou será melhor: - Queres dançar?? Se sou eu a pedir, ela já sabe que é pra dançar comigo, ou não?!......Mas...não sei... gosto mais de :- Queres dançar comigo?, fica mais composto, é assim, e não há mais conversa!

Ajeitou pela última vez as calças, e rezou aos Santinhos todos para que os seus "haveres" de homem, desta vez se portassem à altura do acontecimento.

Corou...corava sempre que revivia aquele bofetão desconcertante. Apertou tanto a Luisinha , que começou a sentir o seu entusiasmo crescer ao ritmo da música. Ela também sentiu....chamou-lhe ordinário e tarado na frente do povo todo, e espetou-lhe um tal estaladão , que ainda hoje, três anos depois, a orelha onde assentaram os dedos da ofendida, lhe arde em lume brando.

Era uma cena para esquecer, mas o cabo dos trabalhos é que ele se lembrava sempre dela, e o medo, encostava-o às paredes das salas de baile, ou aos balcões dos bares, a dançar com raparigas nos braços de outros, colado ao chão, impotente naquele medo de rapaz a fazer-se homem.

Mas desta vez ia ser diferente! As pessoas já quase tinha apagado da memória aquele episódio sórdido e ridículo , e além disso não queria mais saber disso! -  Hoje vou dançar, e vou dançar com aquela rapariga do vestido amarelo, ou eu não me chame Zé Augusto!

Umas meninas a brincar de roda no meio do salão, travaram-lhe o passo,...e a coragem também.

Olhou para a roda, as meninas dançavam, cantavam, riam às gargalhadas, metidas nos seus vestidos de chita, feitos a primor para a ocasião. Laços de seda nos cabelos, pontas desfeitas, caras rosadas..ficou ali a olhá-las, parado num lugar onde não está ninguém, onde não se pensa, não se existe, não se está.

A voz estridente da menina a puxar-lhe o vinco das calças, acordou-o daquele torpor.

- Olhá lá! Estás a olhar prá onde?? Queres outro chapadão ?

A musica do acordeão era agora um coro de gargalhadas. Das meninas da roda, e de todos os pares dançantes. Raparigas olhavam-no com desmedido desdém, rapazes luziam irónicos sorrisos, e mães pulavam prá frente das filhas protegendo-lhes virgindades de areia.

Mas ele, já lá não estava, não podia estar, tapou a cara com as duas mão em concha, e saiu a correr, como um cão vadio com a cauda entre as pernas depois de ser apedrejado.

Nunca mais ouviu o silêncio. A sua vida desde esse dia foi sempre acompanhada por uma banda sonora de gargalhadas, que até ao fim dos seus dias fizeram dueto com o chorar das cordas de um violino, que tocava nos seus ouvidos a pena que tinha de si mesmo.

Não chegou jamais a saber, com que ânsias a rapariga do vestido amarelo esperou ser para ela que ele dirigia os seus passos pesados mas certeiros, naquele baile.

Não chegou jamais a saber com que força batia o coração dela, por ele. O violino tocou sempre mais alto.

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