Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

de que cor é o céu?

Fechou as mãos na erva e deixou-se ficar ali, deitada. Completamente à mercê do sol de inverno.

A seu lado jazia o avental branco de cambraia, e os sapatos envernizados de botão.

Tinha soltado os cabelos. Sentia-se livre naquela cama verde e ainda orvalhada da manhã fria.

Lá dentro não tardariam a dar pela sua falta.

O almoço acabara de ser servido, e as raparigas da copa fariam o resto do serviço.

Era dia de festa, e o casarão estava cheio até ao telhado. Tinham chegado familiares de longe, amigos dos tempos de quartel do patrão, e até a antiga professora primária da senhora.

Fechou os olhos e uma vez mais sentiu as ervas tenras a ceder à pressão dos seus dedos.

Sorriu. Era puro deleite o que sentia. Fechou os olhos, sem pressas e deixou o sol entrar-lhe pelos poros cansados do buliço dos dias.

Chegara a Tia Maria Rita - soltou uma gargalhada - Oh meu Deus! como as cadeiras se encolhem perante a visão da opulência das nádegas da Tia Maria Rita!!!

E o avô Tomás?!! - deixava o riso correr livre - o avô Tomás peidava-se à mesa, e tossia ao mesmo tempo, para disfarçar! - era um prato o raio do velho! Não conseguia apagar a cara de espanto das rapariguinhas de serviço à mesa, quando à descarada o avô lhe enfiava a mão pelas saias acima.

Esperguiçou-se , e cada musculo seu acordou para a luxúria das ervas tenras. Abriu os olhos com esforço, e fechou-os logo em seguida. O sol estava baixo, como sempre, nestas tardes curtas de inverno.

Mentalmente imaginava a disposição da mesa. 34 lugares sentados! É obra! Tantas e tantas vezes tinha preparado a mesma mesa. A toalha escolhida sempre com muita antecedência pela senhora, que no próprio dia se arrependia e escolhia outra qualquer.

Os pratos de Vista Alegre, tão finos que dava medo olhar, quanto mais mexer! Os copos de cristal que segredavam melodias esquecidas, mal lhes tocavam. Era um prazer para os sentidos, um dia de festa no casarão!

A Tia Avó da Senhora, solteirona, septuagenária , devia estar sentada à direita do dono da casa, era uma exigência do próprio, para bem parecer à velha podre de rica e sem herdeiros que não a sua esposa.

Não pode conter outra gargalhada - a esta hora a D. Ana Maria Pimentel, era assim que se chamava a Tia Avó, já devia ter bebido dois ou três martinis bianco , e já teria agraciado toda a audiência com outros tantos sonoros arrotos!

O dinheiro na carteira daquelas pessoas era um salvo conduto para o disparate e para a falta de educação.

Respirou fundo. O ar estava impregnado de cheiros. Tinham servido uma canja de galinha gorda, e o aroma da hortelã a cair na panela saia pela janela da cozinha e invadia até as narinas mais incautas.

E depois havia o rosmaninho. No quintalão, ao redor de toda a parede do pombal, mimava-se um canteiro de rosmaninho branco. Era perto dali e aquela mescla de odores despertava-lhe sentimentos guardados em ténues baús.

Por detrás do pombal havia uma tangerineira, antiga e curvada, carregava-se de frutos avermelhados no principio do ano.

A folhagem tinha muitas vezes encobrido os seus encontros com o Senhor da casa...ele levava-a para aquele lugar, e sem perguntar de que cor era o céu ou o inferno, tomava-a, e ela dava-se à urgência de um amor feito a correr, e que deixava sempre um travo amargo na boca. Amargo como veneno.

Lá dentro talvez tenham já dado pela sua falta. Ou não.

Estremeceu. O sol estava a cair depressa na tarde, e ela não era dali. Já não.

Levantou-se. Deixou o avental e os sapatos de verniz  sozinhos na erva quebrada e voltou ao seu lugar.

Lá dentro ninguém tinha dado pela sua falta.

Os dias tinham passado, contados pelos seus dedos, em mais do que uma volta, e ela já não era dali.

Abalou como quem paira.

Ficou na terra um travo amargo como veneno. O veneno que lhe tinha adoçado o sono, muitos dias entes daquele.

 

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Domingo, 30 de Setembro de 2007

Voar a pique

O Santo António veio quente, e seco, este ano.

- Se o calor continuar, isto vai ser de arromba, pá!!

O calor molhava os corpos e a vontade da sesta já teimava contra vontades pouco férreas .

Mas para eles, não havia calor, ou sesta que os desviasse dos seus trabalhos. Havia que puxar dos galões, e mostrar aos outros bairros quem era de facto o melhor!!!

O grupo reunia-se invariavelmente no casão da Ti Ana, havia ali espaço para guardar tudo o que precisavam, rolos de papel, grades de gasosas, tesouras, fios, caixotes, lâmpadas pintadas a guache, e corações cheios de orgulho.

A Ti Ana, tinha acabado de fritar as favas secas, e o cheiro pegajoso e salgado deixava no ar promessas de bailaricos e balões de papel colorido.

Agora entravam eles em acção,  improvisavam saquinhos de plástico, selados com facas de cozinha aquecidas, debaixo do olhar atento da sua guardiã. O Zé Luís assoprava os dedos, entre uma queimadela e outra, que na ânsia de ver o tempo andar, nenhum deles tinha achado necessário esperar que as favas fritas arrefecessem. As mãos iam ficando brilhantes da gordura,  e os peitos iam ficando inflamados pela excitação.

Todos os anos rituais se repetiam, votava-sa uma comissão, calcorreava-se toda a vila a pedir às portas, contavam-se moedas e sonhava-se com um S.João que durasse muito pra lá da meia-noite.

Este ano era o ano deles, os mais novos estavam ainda nos 12, mas o Zé Luís , a Záu e o Faco , metiam respeito do alto dos seus 14 anos. 

É já amanhã a grande noite, todos sabiam que não poderiam dormir, todos tinham a certeza que pulariam a noite com um salto doloroso e demorado, como a espera no corredor do hospital, para levar a vacina.

A Bia , roía as unhas compulsivamente, e tinha os olhos escancarados, pregados num qualquer ponto imaginário. Via a fogueira, a maior fogueira que já se vira ali no bairro. Será que as feixinhas de lenha que tinha ido pedir à padaria seriam suficientes ?

O Faco deu-lhe um valente encontrão - Acorda!!!! Achas que não há nada pra fazer!?- A Záu , largou os dedos, retribuiu o empurrão, ripostando que estava a contar as feixinhas !

A Lela , a maior de todas, pelo efeito do pão com manteiga e açúcar que demolia nos lanches matinais, pediu calma, alertou para a falta de tempo, e entre um saquinho e outro, lá ia  surripiando favas fritas salgadas, que os seus dentes trituravam em permanente encantamento.

Ao meio do bairro, havia um pequeno cruzamento, e no centro, crescia todos os 23 de Junho, um longo mastro, empinado., que se agigantava até ao céu, engalanado por dezenas de bandeirolas de papel de seda, que, quando chovia, engelhavam o mastro e a cor, mas nunca a festa! Este ano, o calor estava de pedra e cal, e não havia que temer intempéries de espécie alguma.

Do mastro, corriam para os quatro cantos cruzados, braços estendidos de lâmpadas coloridas e balões de papel frisado.

Magotes de gente começavam a chegar-se à música desafinada do gira-discos emprestado pelo Manel Pisco. O Manel era mais velho, já tinha tirado as sortes, estava à espera de ser chamado para ir à tropa. Andava tão contente, que já não se podia aturar a conversa dele, que a crer na rapidez da língua , no fim da recruta já seria general.

As lâmpadas pintalgadas acendiam a noite, o cheiro das bifanas na frigideira aguava apetites, as crianças ostentavam pequenas garrafas de gasosa como troféus, havia danças de roda à volta do mastro iluminado, e carícias furtivas escondiam-se nas esquinas escurecidas pelas sombras desertas.

A vizinhança arrastava para as portas cadeiras, banquinhos, copos de limonada com folhas de hortelã e pratos de fatias paridas, feitas de pão de ontem com ovos dourados e polvilhadas por mãos generosas com açúcar e canela.

A noite embebedava-se de vozes e luzes, e deixava-se ali ficar numa cadência morna de Verão acabado de chegar de longe. A noite estava em paz com o tempo, com as estrelas e com os homens.

...

Este Junho, estava mais agreste. Zé Luís sentou-se num portado, e olhou a decadência das casas. Aqui morava a Ti Estrudes ...ali em frente, naquela casa antes branca de pé encarnado de óxido de ferro, e agora de um castanho antigo, esbatido e escamado pela vontade dos dias, era a Senhô Maria Rita. Além, na esquina...era a casa do Manel Pisco, estava fechada a sete trancas desde que tinham ido pró estrangeiro...os galões de General tinham ido esperança abaixo, afogados em fome e raiva.

Já não havia ali alma de miúdo que içasse um mastro, ou ateasse uma fogueira.

...

A fogueira crescia como a noite, em labaredas de desejo, e a lenha cedia ao fogo com um deleite prolongado pelo fumo que se espalhava pelo ar e enchia de coragem o peito da miudagem .

O Zé Luís foi o primeiro a saltar, estava em picos para o fazer, e nem deixou as labaredas acalmarem do fogo. Saltou com quanta força tinha, e sentiu o calor trespassar-lhe os ossos.

- Consegui! - Pensou num grito lancinante e calado - consegui!

As pestanas desaparecidas, as pontas dos cabelos chamuscadas, os fundilhos das calças calcinados, e um cheiro a coiratos no ar,  provaram o gesto épico do grande salto...agora era um homem! Puxou o peito pra cima, o mais que pode, e nessa noite, não houve mais ninguém a fazer-lhe sombra...podia não chegar a General como o outro, mas hoje ele era o Rei da Fogueira!

...

Sorriu, e os dentes estragados mostraram um reinado queimado pelos fogos vãos de vidas errantes.

Voltara ali porquê?

Tinha os dias marcados pelo compasso do próximo copo, e o regresso a casa só tinha servido para pôr mais urgência na urgência que o consumia.

Voltara ali porquê?

Se calhar para voltar a sentir o calor das lâmpadas pintadas.

Para saber que ainda se lembrava da vida, quando voava a pique.

 

 

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