Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Na lama

 

A trovoada estava já longe, mas o troar enchia ainda a tarde. Um rosnar cavo em direcção à noite. A terra toda exalava calor e humidade. Ali à beira rio derramava a angustia de um dia difícil. Sentia a camisa colada às costas numa mistura de água e suor. Estava sentado no lamaçal que a chuva grossa deixara pra trás. Enterrou os dedos na terra molhada e cerrou os olhos num gemido. Perdera a conta às horas. Há quanto tempo estarei aqui. Deixou os dedos semeados na lama. Como se estivesse entre as pernas de uma mulher. Sentiu-a trémula entre os dedos. Quente e saciada.

Pensou na mulher, e uma agulha afiada bordou-lhe no peito uma dor imensa. Pensou nela preparada para o receber, deitada na cama desalinhada, intensa e sem pudores, de olhos vermelhos e boca aguada. Doeu tanto que se abraçou pra segurar a vida nele.

Não podia voltar. Também não queria voltar. Mais um pouco e seria noite cerrada. Sem estrelas, sem luz que não fosse a trovoada a debandar em clarões fugazes, e o fogo que lhe consumia os dedos.

Não ia chorar. Isso nem pensar. Ainda tinha nos tímpanos o estrondear dos batentes da porta da rua, a madrugar o dia. Levantara-se de um salto. A mulher ficara na cama. Sentada, de olhos esbugalhados, pela expectativa de uma qualquer desgraça, o lençol puxado até ao queixo perfeito.

Correu até à porta abriu-a e lá fora só encontrou o vazio. Saiu, andou até ao meio da rua, olhou para cima, depois para baixo, esperou um pouco e voltou para dentro. Foi então que viu. Pendurado no postigo de ferro forjado, estava um valente par de chifres a rir-se dele. Um par de chifres ousados, em pontas, a desafiá-lo. Encurtou o passo, mirou os intrusos, sem lhe tocar nunca. Foi primeiro um formigueiro, subiu-lhe pelas pernas e em menos de um segundo já era uma fogueira ateada. Agora era só dor.

Ela tinha ficado à espera que ele voltasse. Ele não voltou. Os cornos engalanavam a porta da rua, e o sol já alto dava rastilho aos risos dos passantes. Ela tinha fechado a porta com raiva, e tinha vomitado o medo em tremores convulsivos. 

Ele deitou-se na lama e decidiu ficar. Os cornos pesam a um homem,  pensou. Depois começou a rir, de si, da lua acanhada, riu-se em gargalhadas fortes e sonoras, e só por uma noite espantou o bicho que lhe nascia dentro.

 

 

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Quarta-feira, 18 de Março de 2009

Espera-me, que eu não volto

 

 

 

O motor do tractor emoldurava-lhe a indiferença. Aquele rosnar cavo e profundo, ressoava no vazio do campo pontilhando a monotonia das horas.

Joaquim António, manobrava a máquina apenas com uma mão, recostado no banco plástico e rijo, forrado com um pano de cotim coçado.

A outra mão estava esquecida nas costas do banco. O braço pendurado com a mesma displicência com que conduzia sete dias na semana aquela máquina pachorrenta e estúpida.

Sentia-se estúpido ele também, naquele vaivém, arrastado pela grade de ferro pesada, que arava a terra seca e a sua culpa ainda em carne viva, com igual intensidade.

Desde que aquilo se dera, não mais tinha encontrado paz. O cheiro forte da terra, costumava ser um bálsamo para todas as dores ou maleitas. A ressaca das segundas-feiras de manhã, o sol vigoroso e cruel dos verões varonis, as chuvas agoniantes e potenciadoras de ansiedades e apertos no peito... tudo, o cheiro visceral da terra tinha sido sempre fonte de paz e acalmia. Por isso não se via a fazer outra coisa que não fosse aquilo. A escola aborrecia-o de morte, quatro paredes a cingir-lhe o corpo, quatro corpos hirtos a encolhrem-lhe a vida, que corria lá do lado de fora, livre, sem grilhões, sem algozes.

Ele não era diferente agora do que era antes. Era o mesmo rapaz, respondiam as pessoas à pergunta - "Achas que mudei? Responde com a verdade! - repetida vezes demais nestes últimos dois anos.

Mas ele sentia-se diferente. Claro que era o mesmo Joaquim António que estava todas as manhãs reflectido no espelho da casa de banho. Mas ainda assim, a imagem devolvida pelo espelho provocaca-lhe um calafrio suado que o invadia sem misericóridia.

Já não havia mistérios naquele sentimento...não agora. Chamava-se culpa, e doía como um corte infecto infestado de bichos, uma dor lancinante, sem reservas, sem perdão, sem apelo.

Caíra de amores por ela, toda a gente sabia ali pelos arredores, que ele arrastava o mundo por ela, e ela um dia viu-o.

Amaram-se em segredo pelos recantos, desafiaram regras, atreveram-se por caminhos ainda por descobrir, juntos apagaram estrelas e acenderam constelações inteiras.

Mas Laura tomava conta da vida de Joaquim com a voracidade de uma erva daninha, e ele sentiu-se outra vez na escola, sentado direito numa cadeira de pau, com a cartilha aberta na letra errada, e a visão do vento a soprar segredos às árvores do recreio. Sentia outra vez os braços atados, a letargia imposta pela porta fechada, a inquietação a germinar em rebentos primaveris no seu peito em pousio.

A rebelião pressentia-se a cada dia de amores jurados e gemidos entornados no leito apertado do abraço dela.

- Vou pra França... o meu primo Germano, tem lá um serviço bom à minha espera. É na terra, nas vinhas, tu sabes que é só o que eu sei fazer... Queres vir também!? Não! Isso é impossível! Aquilo é só homens, é lá sitio pra uma rapariga como tu! Tira isso da ideia! Agora vou eu, e depois, conforme as coisas correrem, mando-te buscar.... ouve, não chores, eu volto, claro que volto... ela não acreditou. Ele também não.

Fez a mala. Dois pares de calças de algodão, a camisa dos dias de festa, a outra toda passajada pelas mãos deformadas da avó Miquelina, e os botins de pele curtida que o pai encomendara ao Chico das Botas há anos atrás.

A culpa era assim como uma doença, um mal daqueles sem cura, que se pegam à pele da gente, e em menos de nada já nos correm no sangue num galope certo.

Desligou a chave da ignição, o ronco do tractor cessou finalmente, e devolveu o silêncio àquelas paragens. Joaquim António, saltou para o chão, limpou a testa com a boina de gabardina axadrezada, e caminhou sem pressas os dois quilómetros que o separavam de casa.

Nunca mais pegara na bicicleta a pedais. Agora seguia a pé. Chegava sempre mais cansado. O cansaço era redentor.

No dia seguinte, o dia amanheceu antes da hora, havia um alarido no ar que puxava quem passava num remoinho crescente, e as vozes em surdina subiram o tom, e os gritos perfuraram tímpanos e sonhos, e uma multidão de gestos urgentes e olhares esbugalhados precipitava-se para o termo da vila.

Ali, debaixo da nogueira antiga, ao lado do Poço das Virtudes, jaziam lado a lado as sapatilhas de lona vermelha de Laura.

 

 

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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Requiem

 

 

"- Não é fácil errar por esta terra... "- disse o homem só, em voz alta e limpa. Estava de pé, em cima de uma pedra de granito, e tinha o olhar fitado num ponto inatingível,  no horizonte de trigo moreno.

"- Primeiro é a paixão....avassaladora..., a entrega, sem reservas, sem guardar nem um bocadinho que seja de nós para outra jornada.

O sol mima a pele, aquece palavras frias e ateia lenha molhada.

A chuva acalma a sede, lava o espírito e liberta o ser que escondias de vergonha dentro do teu corpo...

E o vento? O vento espalha-te na carne sementes de amanhãs, e tu deixas, sereno, quieto...aberto...

Depois quando vais à procura de ti...já não és... "

O homem só, passou a mão pelos cabelos longos, e uma nuvem de insectos caleidoscópicos fugiu em debandada pelo tempo parado.

"- Se eu soubesse escrever, desenhava tudo o que estou a sentir em letras redondas, num papel branco, para que todos pudessem fugir do chamamento opressor,  disfarçado em canto dócil de musas aquáticas.

Primeiro são as estrelas que te cobrem o frio nas noites em que o Verão de despede às pressas e a seguir a lua encena todos os sonhos que te nascem das mãos e vais deixando caídos nas veredas lavradas pelos teus olhos salgados..."

Sozinho, o homem falava como quem prega a palavra de um qualquer Deus pagão. O que saía da sua boca, eram sons apaixonados, gritos libertadores que apaziguavam a dor de um amor desprovido de limites.

As mãos nodosas como galhos de árvores velhas, descansavam uma na outra,  apoiadas num cajado encorcovado, de nogueira. As unhas escuras cresciam à deriva como ervas daninhas, e perdiam-se por entre os dedos compridos e finos.

"- Não é fácil viver por esta terra...quando já deste tudo, quanto não te resta mais que braçadas de vazio atrás de braçadas de vazio, és cuspido como um caroço de azeitona. Mas aí....não há nada mais a fazer...desaprendeste de outra coisa que não seja dar-te inteiro, e podes até fugir, correr sem olhar para trás....não tens mais certezas que o regresso, o regresso em dores insuportáveis, em dádivas incondicionais...

Já não és tu. As raízes estão fundas, espalharam-se como veias que pulsam a cada batida do teu coração, e não há palmo de chão virgem."

A solidão conferia ao homem um matiz pálido de pérola embaciada pelos anos. Nos ombros conformados, uma força maior que ele, impelia-o para o sim eterno e etéreo como ele.

".... não é fácil morrer por esta terra.....esperares acomodado o voo da foice que te vai cortar os ossos, dilacerar o fio umbilical que te une ao sol.....ainda."

O homem sozinho calou-se, cansado do eco que se emaranhava nos longos cabelos espinhados e num suspiro resignado diluiu-se na terra, adubando dias vindouros.

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Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Subir ao céu

 

A chuva surpreendera-a a apanhar agriões nas margens do ribeiro.

Abrigava-se debaixo de gotas grossas e pesadas, de mãos dadas com a seara de trigo, que lhe segredava:

- Corre Rosa, foge que o céu vai desabar...

Rosa estava pasmada, e receosa. Num repente a flor do dia tingia-se de metal escuro, e o sorriso dela escorregara para o chão, agora de lama.

O coração batia alto, tanto que os ouvidos lhe doíam com o barulho.

Ou então era o troar dos trovões. A electricidade no ar, eriçava-lhe os sentidos, e o horizonte tinha-se dissipado em cortinas  de água cerradas como muros de betão.

Um dente de leão, despido pelo vento, assobiou-lhe em surdina à sua passagem:

- Corre Rosa, corre que o mundo se acaba, ou te acabas tu...

Rosa, acenou-lhe e continuou. As fontes latejavam de pressa fundida no medo, e acima de tudo, a prudência dizia-lhe que não era bom estar a céu aberto num dia marcado como aquele.

Arengava uma Magnifica enquanto tropeçava nas ervas...ou chamava Sta . Bábara ... - alguém por favor.

Avistou a cameleira antiga, que assinalava a fronteira entre as terras de S. Justa e as terras de ninguém, onde agora se perdia.

Um coelho bravo, a espreitar da sua toca, gritou-lhe numa voz fina e estridente:

- Rosa corre, deixa a cameleira florir em paz! As camélias gostam de luz...foge, que te encandeias!

Deixou o coelho pra trás. Só tinha olhos para a grande árvore, tão antiga como a terra que a acolhia,...era a única árvore num raio de muitos metros...além dela só as estevas do caminho das cabras, ou as ervas daninhas e as flores do campo, que vergavam rendidas com a força dos elementos.

Sentou-se encostada ao tronco seguro da cameleira, tentou lembrar-se de uma oração, uma que afastasse as trovoadas, ou ainda melhor, uma que a levasse a casa...

Uma poupa, voou por cima dos seus cabelos encharcados, guinchando:

- Corre Rosa, as camélias gostam de luz.....

A cameleira iluminou-se com um estrondo que vinha das entranhas antigas da terra, e choveram camélias na erva molhada.

No silêncio da terra queimada, nasceram rosas, e nelas pousaram pássaros de todas as cores.

Imagem by João Palmela

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Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Sabes desenhar uma flor?

 

 

- Sabes desenhar uma flor ?

-..N..não, só sei fazer uma fisga.....

A pergunta tinha sido feita sem levantar os olhos do bloco de folhas brancas.

A resposta tinha sido dada num reflexo de estupefacção : ela tinha falado com ele!!!

Desde essa tarde de principio de Maio, muitos dias de Inverno tinham passado por ele.

Tinha feito fisgas, tinha espigado com força, tinha caçado pardais, tinha guardado porcos,... tinha guardado sonhos.

Abriu as mãos e olhou-as. O arado tinha-as lavrado fundo, havia sulcos de rega e crostas de seca por toda a superfície . Os dedos terminavam abruptamente, grossos como tocos de madeira, as unhas curtas e roídas estavam pespontadas a terra e suor. Abriu as mãos e olhou-as...os seus caminhos eram diferentes como a noite e o dia são.

Nunca se cruzavam...nem passavam perto.

Ela estava sentada num banquinho daqueles dos pic-nic , a desenhar um campo de margaridas. Um bloco de folhas brancas no colo, e uma caixa de lápis de cor pousada no chão mesmo ali ao lado.

- Sabes desenhar uma flor?.....

Até demais ela sabia.....

Ele não sabia desenhar uma flor . Ele nem sabia pegar no lápis.

- Não. só sei fazer uma fisga...

Deitou-lhe um olhar de soslaio. Uma fisga. Um objecto bárbaro e insignificante, perto do desenho sublime de uma flor .

Um dia tinha avistado o brilho dos cabelos dela. Passou num automóvel. Era Verão e traziam os vidros abertos. Era sempre Verão para ela.

Ele ficou semeado na terra a ver o carro desaparecer na curva lá adiante. E o brilho dos cabelos dela.

Eram da cor das searas em Junho. Os cabelos dela.

Estava sentado, encostado ao tronco antigo do sobreiro. Pousado ali mesmo ao lado, um caderno de folhas brancas. No seu colo, um lápis de carvão. E os olhos nas mão abertas.

Sorriu. Sorriu da sua teimosia. Passaram tantas sementeiras.

Puxou o caderno, e pegou no lápis.

 

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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

Pertencer

Sentia cada músculo das suas pernas. A subida era íngreme, e pedalar debaixo daquela chuva miudinha e pesada era ainda mais difícil .

Tinha enfiado o impermeável azul escuro, com  riscas amarelo fluorescente, e saíra para a rua sem se preocupar nem um segundo, com o facto das calças do fato de treino irem ficar ensopadas nos primeiros 50 metros da etapa.

Saía sempre à mesma hora, um pouco antes das 7 da manhã.

Ver o sol nascer à sua frente, era um espectáculo que se recusava perder.

Hoje a manhã estava arisca para andar de bicicleta. Soprava um vento forte, e a chuva parecia milhares de agulhas a baterem-lhe na cara. Mal conseguia manter os olhos abertos, mas ao mesmo tempo sentia-se mais viva que nunca.

Àquela hora havia ainda pouco movimento neste tipo de estradas, secundárias. Um tractor aqui e ali, a assinalar a sua marcha lenta com a luz do pirilampo, a carrinha do padeiro, que já ia na segunda volta a distribuir pelas aldeias da vizinhança, o autocarro que levava as crianças das redondezas até às escolas da vila, e pouco mais.

Tinha escolhido, uma aldeia perdida no sul do país, para fugir a uma vida de correrias, de metas por objectivos, de solidão consentida pela religião do dinheiro e da carreira.

Pareciam palavras vãs, mas pelo menos para ela tinham sido motivos mais que válidos para a fuga.

Fuga. Podia chamar-lhe assim. Aliás não podia ser de outra forma.

O apartamento mobilado, a quota no escritório, o companheiro de cama. Partira sem aviso.

O que era ontem, hoje deixara de ser.

Tinha finalmente apanhado a curva da encosta. Agora  tinha uns bons 2 km de recta, poderia dar descanso à pernas. O dia estava a clarear, e a chuva a enfraquecer. O vento porém soprava cada vez mais impiedoso.

A temperatura descera bastante durante a noite, apesar da chuva. Tinha as pontas dos dedos geladas, e por momentos odiou-se por ser tão distraída e não ter levado umas luvas.

Tirou as mãos do guiador, esfregou-as uma na outra e colocou-as em concha junto à boca, de modo a soprar-lhe uma baforada de ar quente.

Caramba! Estava mesmo um gelo. Sentia os pulmões picarem, e o coração bater a um ritmo acelerado. Tudo aquilo era a vida dela, a vida nela, a vida que ela na cidade grande não tinha conseguido descobrir dentro do seu ser.

Começavam a ver-se pequenas abertas no céu. Aqui e ali, rasgos de um azul eléctrico apareciam do nada e prateavam os riscos deixados pelos aviões.

Junto aos troncos das árvores permanecia ainda uma névoa ténue e húmida , que mesmo à luz do dia desenhava contornos esquivos e indecifráveis por entre os ramos.

Pedalava com quanta força tinha, para afastar da cabeça as contas que de vez em quando ainda deitava à vida. Sentia a pele da cara a arder. Os lábios, era certo , iriam estalar, ao mínimo gesto.

Nunca se lembrava de passar o creme. Era um creme caro. Tinha-o trazido da outra vida. Sabia que era por isso que relutava em usa-lo.

Levantou a mão para acenar a um pastor que conhecia dos seus passeios matinais, e abriu um sorriso e um amistoso bom dia. Sentiu de imediato o sabor quente e doce do seu próprio sangue. Já sabia! Devia ter posto o batom do cieiro, ou a porcaria do creme. O lábio estalou, e agora ardia mais ainda.

Era sempre efusiva e simpática para os habitantes dali. Já todos a conheciam,  e não se podia queixar de ser mal aceite, nem nada parecido.

Mas também não a olhavam como um dos seus pares . Era uma forasteira. Com usos e costumes muito diferentes das gentes dali.

Aquilo da bicicleta....Os calções curtos pra correr... Os olhos pintados...

Por vezes mais que uma forasteira, olhavam-na como uma alienígena . Isso divertia-a, mas também a incomodava. Sentia-se num limbo. Não era da cidade. Mas também não era dali. Não se encaixava em lugar nenhum. Questionava-se se não seria um pouco assim, com toda a gente?

Sabia bem que não.

 Aquelas pessoas eram daquele lugar. Tinham raízes ali, e olhavam de viés e com estranheza as suas atitudes.

O vento estava incansável, mas o sol aparecia a tempos, a descoberto das nuvens de um cinza chumbo carregado, que ameaçavam o dilúvio ainda antes da hora de almoço. Estava um daqueles dias de muitas caras, como algumas pessoas, chorava e sorria, conforme a vontade do vento, e lá ia consumindo as horas e as forças dela na pedaleira.

Tinha chegado à estrada nacional. Agora era fazer o caminho de regresso, mais 8 kms , e com sorte antes da chuva estava abrigada em casa.

Pelo menos hoje não tinha nada que fazer. Não havia compromissos, horas marcadas, pessoas à espera, decisões pendentes. Nada. Só a casa vazia à sua espera.

O dinheiro estava a dar as últimas, e tinha que ser célere em arranjar uma ocupação rentável naquele fim de mundo. Engraçado como sempre que falava de trabalho, não conseguia evitar referir-se ao seu refugio no campo, como "o fim do mundo"...

Se tinha saudades do que tinha ficado lá atrás? Soltou um suspiro e empenhou-se em pedalar, como se o tempo se estivesse a extinguir agora, neste mesmo instante.

Na berma da estrada, as vinhas, com as suas hastes  vermelhas, ainda despidas de parra, despertavam para a vida, para um novo ano de caudais abundantes. As amoreiras, na curva do monte, essas estavam tal como ela... sorriu, e num gemido sentiu o lábio estalar de novo. Estavam nuas. Vivas, é certo , mas num abandono e solidão de fazer doer o coração. Até os ninhos, lá no alto, no meio dos ramos estavam vazios. Ela também estava vazia.

Uma pega fez um voo rasante mesmo à sua frente. Um rato, ou outro bicharoco qualquer, de certeza !

O sol já mal se via, e as nuvens tinham tomado conta dos céus. Um autentico motim. Ainda faltavam mais de 2km , e já estava arrependida da extravagância deste passeio. Sentiu falta do escritório, com aquecimento central, e colaboradores à sua disposição o dia todo. O cheiro do café quente, a chuva a bater nos vidros duplos das janelas, as árvores lá fora a vergarem-se à força do vento!

Pedalou sem descansar. Não se permitiu olhar nada que não fosse o fim da estrada. Ainda não tinha tido o desprazer de apanhar com uma tempestade daquele calibre em cima de si! E não ia ser hoje!

Tinha recomeçado a chover. Mas não era aquela chuva miudinha da madrugada. Eram gotas grossas e cheias, vindas propositadamente para a castigar. Que raio lhe tinha passado pela cabeça para sair num dia assim! O vento era de tal ordem, que tinha agora dificuldade em equilibrar-se em cima da bicicleta.

Na boca misturava-se o sabor da chuva insonsa com o doce do sangue húmido nos lábios gretados.

Gotas de suor escorriam-lhe nas fontes, ou seria só chuva?

E o que era aquele sabor salgado?

Não! Não podia estar a chorar agora! Ela raramente chorava.

Pedalou, enraivada com o momento de fraqueza. Não tardou a ver o telhado avermelhado da casinha que tinha alugado. Era ainda fora da aldeia, tinha preferido assim. Prezava muito a sua privacidade. Tinha tido casos, paixões, desvarios, mas jamais tinha baixado a guarda.

Ela era una. Um circulo. Um forte.

Jogou a bicicleta contra a parede debaixo do alpendre e largou o impermeável, no chão.

Meteu a chave na porta, e entrou, deixando poças de água à sua entrada.

Descalçou os ténis e mandou-os porta fora.

Despiu-se pela sala, a caminho da casa de banho. Tomou um banho quente e rápido, vestiu um pijama, e foi para a cozinha.

Preparou um chá, e enquanto esperava a água ferver, perdeu-se na chuva que continuava a fustigar o dia.

Estava sozinha . O silêncio dentro de casa era tão grande, que teve vontade de tapar os ouvidos. Mas não o fez, claro! Era uma estupidez, pensou, abanando a cabeça.

Sentou-se, sem nunca tirar os olhos lá de fora.

Talvez fosse a chuva, ou o frio, ou o chá quente, mas deu consigo a pensar como seria ser de alguém? 

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Original Zumbido por meldevespas às 20:58
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Sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008

de que cor é o céu?

Fechou as mãos na erva e deixou-se ficar ali, deitada. Completamente à mercê do sol de inverno.

A seu lado jazia o avental branco de cambraia, e os sapatos envernizados de botão.

Tinha soltado os cabelos. Sentia-se livre naquela cama verde e ainda orvalhada da manhã fria.

Lá dentro não tardariam a dar pela sua falta.

O almoço acabara de ser servido, e as raparigas da copa fariam o resto do serviço.

Era dia de festa, e o casarão estava cheio até ao telhado. Tinham chegado familiares de longe, amigos dos tempos de quartel do patrão, e até a antiga professora primária da senhora.

Fechou os olhos e uma vez mais sentiu as ervas tenras a ceder à pressão dos seus dedos.

Sorriu. Era puro deleite o que sentia. Fechou os olhos, sem pressas e deixou o sol entrar-lhe pelos poros cansados do buliço dos dias.

Chegara a Tia Maria Rita - soltou uma gargalhada - Oh meu Deus! como as cadeiras se encolhem perante a visão da opulência das nádegas da Tia Maria Rita!!!

E o avô Tomás?!! - deixava o riso correr livre - o avô Tomás peidava-se à mesa, e tossia ao mesmo tempo, para disfarçar! - era um prato o raio do velho! Não conseguia apagar a cara de espanto das rapariguinhas de serviço à mesa, quando à descarada o avô lhe enfiava a mão pelas saias acima.

Esperguiçou-se , e cada musculo seu acordou para a luxúria das ervas tenras. Abriu os olhos com esforço, e fechou-os logo em seguida. O sol estava baixo, como sempre, nestas tardes curtas de inverno.

Mentalmente imaginava a disposição da mesa. 34 lugares sentados! É obra! Tantas e tantas vezes tinha preparado a mesma mesa. A toalha escolhida sempre com muita antecedência pela senhora, que no próprio dia se arrependia e escolhia outra qualquer.

Os pratos de Vista Alegre, tão finos que dava medo olhar, quanto mais mexer! Os copos de cristal que segredavam melodias esquecidas, mal lhes tocavam. Era um prazer para os sentidos, um dia de festa no casarão!

A Tia Avó da Senhora, solteirona, septuagenária , devia estar sentada à direita do dono da casa, era uma exigência do próprio, para bem parecer à velha podre de rica e sem herdeiros que não a sua esposa.

Não pode conter outra gargalhada - a esta hora a D. Ana Maria Pimentel, era assim que se chamava a Tia Avó, já devia ter bebido dois ou três martinis bianco , e já teria agraciado toda a audiência com outros tantos sonoros arrotos!

O dinheiro na carteira daquelas pessoas era um salvo conduto para o disparate e para a falta de educação.

Respirou fundo. O ar estava impregnado de cheiros. Tinham servido uma canja de galinha gorda, e o aroma da hortelã a cair na panela saia pela janela da cozinha e invadia até as narinas mais incautas.

E depois havia o rosmaninho. No quintalão, ao redor de toda a parede do pombal, mimava-se um canteiro de rosmaninho branco. Era perto dali e aquela mescla de odores despertava-lhe sentimentos guardados em ténues baús.

Por detrás do pombal havia uma tangerineira, antiga e curvada, carregava-se de frutos avermelhados no principio do ano.

A folhagem tinha muitas vezes encobrido os seus encontros com o Senhor da casa...ele levava-a para aquele lugar, e sem perguntar de que cor era o céu ou o inferno, tomava-a, e ela dava-se à urgência de um amor feito a correr, e que deixava sempre um travo amargo na boca. Amargo como veneno.

Lá dentro talvez tenham já dado pela sua falta. Ou não.

Estremeceu. O sol estava a cair depressa na tarde, e ela não era dali. Já não.

Levantou-se. Deixou o avental e os sapatos de verniz  sozinhos na erva quebrada e voltou ao seu lugar.

Lá dentro ninguém tinha dado pela sua falta.

Os dias tinham passado, contados pelos seus dedos, em mais do que uma volta, e ela já não era dali.

Abalou como quem paira.

Ficou na terra um travo amargo como veneno. O veneno que lhe tinha adoçado o sono, muitos dias entes daquele.

 

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Segunda-feira, 31 de Dezembro de 2007

Monsaraz é um navio

Tudo o que a vista alcança...

 

 

 

 

 

 

....e tudo o que a alma inflama!

 

Fotografias : Leonor Fernandes 

sinto-me: da terra
música: Cante Alentejano
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Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007

Vulgar

 

 

1

Não havia memória de um dia, naquela magra vila, em que não tivesse sido pronunciado o seu nome.

Anos e anos de peripécias, envolviam-na numa espécie de halo mítico, que tornava a sua, uma história em tudo igual a tantas outras impressas nas páginas de um qualquer livro de lendas antigas.

O seu nascimento, as escadas íngremes da infância, os amores e desamores da adolescência, a queda na vida adulta. Tudo se conjugava num único verbo, singular e solitário de engrandecimentos de boca em boca, e vazio dentro da casa onde morava, ainda.

Ouvia contar de si, como quem ouve o relato de um filme que acabou de passar na televisão. Via-se sempre no papel da heroína , forte, bela, sobrevivente. Via-se sempre assim por fora dela, por fora de si mesma.

Os pontos acrescentados à teia de eventos, eram tantos e tão espessos , que não havia olhares que resistissem à sua passagem pelos passeios empedrados. As vozes calavam por instantes os seus infortúnios , e a pena que as suas expressões debotavam, feria-a fundo, no corpo tolhido pela força dos elementos. Ou então não. Feria-a no sítio onde antes tinha acalentado um pequeno ego, que cresceu depressa até sufocar de tanto ar, até arder como uma Fénix que se zangou com os homens e se recusou a renascer.

2

Era ela Catarina das Graças. Não era uma velha, também não era nova. Era uma mulher que tinha a idade exacta dos seus dias, e os seus dias eram do tamanho da sua existência, e a sua existência pairava, mais do que era.

Nascera com a morte da mãe. O primeiro grito de uma foi o último da outra. Uma só alma, que abandona um corpo,  porque se enamora de outro.

Cresceu na casa do pai, mas fora do colo dele.

O pai era um homem duro e pouco dado a afectos, que nunca conseguira lavar da boca o sabor amargo do dia em que a filha chegara a este mundo de Deus.

Trabalhava a terra com avidez, e se algum calor sobrara em si, era a ela que o dedicava. A terra era a sua única amante, que o esgotava de toques e o esvaziava de forças. A terra sugava-lhe o suor do corpo e a vida do olhar.

Catarina cresceu na terra, livre como os coelhos, a correr pelos campos, acossada pelas raposas e outros bichos das sombras. Comia flores e mordia ervas frescas, nadava nas ribeiras que corriam depressa nos meses de Primavera, por entre os baixios do terreno, e dormia sestas coberta apenas com o calor do verão ou o frio do Inverno. Era do campo, como outros são da lua. Não sabia outra fala, não percebia outra vida que não fosse essa.

 

3

Entre ventanias e trovoadas, Catarina foi crescendo à margem das gentes, à reveria de regras, ao contrário das leis dos homens, que a cada bater de porta, mais se ausentavam da sua presença no mundo.

completados os 6 anos, entrou na escola, e livros dentro foi trilhando caminhos de descoberta. A carteira de pau, sovada e castigada de tabuadas cantadas em coro, abrigava-lhe os primeiros medos. Medo das pessoas que agora lhe apertavam os seus dias, medo das horas contadas com esforço no relógio por cima do quadro preto, medo daquelas paredes pálidas e opacas que  eram o limite do seu campo.

O seu campo tinha ficado lá fora, solto, livre e verde, farto de terra e água e passos de bichos.

Sonhava acordada, e abalada, acordava de sonhos que não o eram.

Um dia de sol morno, logo depois do almoço engolido à pressa debaixo do telheiro da escola primária, cerrou os dentes e calou-se. Abriu os olhos para o mundo com que lhe queriam entulhar a alma, e como uma escolha que se faz por querer, calou-se.

Não é certo o tempo que durou tal situação. Uns falam de dias, outros de meses, os mais audazes arriscam anos.

Enquanto o silêncio não se quebrava por dentro, o burburinho de vozes e sons crescia como cogumelos no tronco de árvores na estação das chuvas.

Havia dedos apontados, murmúrios que eram quase sussurros, segredos expostos, e prosas inventadas com pormenores arrancados pela raiz à laia de dentes inúteis.

Aquela criatura, pouco maior que um cão vadio,  ia assim, tomando conta do ar, das casas e de todos os poros da vila.

 

(continua...brevemente)

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Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

A Terra e a Romã

 

O homem passou como todos os dias passava. O ar da manhã estava carregado de cheiros e texturas que lhe dilatavam as narinas e lhe acariciavam a pele. E ele deteve-se, parou a sua monótona marcha matinal, e pela primeira vez viu-a. Já tinha olhado para ela vezes sem conta, era impossível não o fazer, mas não, nunca a tinha visto assim.

Ela ali estava, posta a seus pés, estendida em gestos lânguidos e preguiçosos , cansada de dias grandes e noites quentes, esgotada das provocações primaveris consumadas nas tardes de Verão.

Estava mesmo ali, como sempre tinha estado, a Terra.

Tinha estampado na cara um sorriso trocista de desejos explorados, e olhou-o como quem colhe uma romã a rebentar na pele, de sucos doces e carne madura. Demoradamente como um convite.

A Terra. Ela ali estava,  vermelha e doce, deitada em toda a sua volta, húmida e tenra, movendo-se com o ritmo de passos perdidos, e brisas de Outono atrevido .

O homem, não conseguiu tirar os olhos, ficou parado, estanque, num burburinho de sensações a explodirem-lhe o peito, um rastilho de pólvora a correr-lhe nas veias e a transportá-lo para leitos voluptuosos  atapetados a  folhas secas de veludo.

Ela encarava-o, sem medo ou temor, segura e serena, cheia e plena, grávida de chuvas abundantes e sementes que o vento quis violar e ela negou com artes de sábia guerreira.

Tudo à sua volta era vida, tudo gravitava em torno do seu eixo, numa fertilidade mal contida de  folhas e frutos e raízes .

O homem contemplou-a já apaixonado, já rendido ao seu poder,  e compreendeu o sentido dos ponteiros do relógio da torre, abraçou a vontade de viver que lhe crescia na ponta dos dedos, e precipitou-se em direcção a casa numa correria cega e apressada.

Abriu a porta, e os seu olhos perderam-se pela casa, numa busca de loucura pressentida.

A mulher estranhou-o ali, perguntou-lhe ao que vinha, mas os olhos do homem responderam antes que a boca se abrisse.

Correram juntos como animais em campo aberto, e quando os seus olhos se acharam na ânsia do encontro, deitaram-se nela e apaziguaram o corpo com sumos de romã, e saciaram a sede com bagos maduros.

Por baixo deles a Terra sorria num gemido cúmplice , e girava devagarinho, prolongando os dias.

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