Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Acto de Fé

I

Álvaro Guedes era um homem como há poucos. Para ele, a vida era uma coisa séria, que devia ser encarada sem descontracção e com formalidade.

E era tal e qual assim que Álvaro a levava. Todos os dias, se levantava da cama às 6 da manhã em ponto. Saltava ao primeiro toque do relógio despertador, herdado do avô, e ao qual todas as noites, impreterivelmente às 22,30, dava corda religiosamente.

Calçava os chinelos de lã, aos quadrados castanhos e cinzentos, que exactamente às 10,45 da noite anterior como de todas as que a precederam, colocava em posição, no sitio justo por onde sairia da cama pela manhã.

Tomava um duche. Rápido e frio. Sim frio, porque, dizia, a água fria, afasta porcarias e pensamentos pecaminosos das nossas cabeças!

Dizia-o todos os dias, a quem o quisesse ouvir!

A sua devoção à candura da alma, era tão profunda como a sua inflexibilidade sobre o dever de virgindade do corpo.

- O nosso corpo é um templo! - dizia extasiado pelas suas próprias palavras -  um templo do Senhor!!!! E quem somos nós para o profanar?  Somos humildes servos!!! Temos que limpar e alimentar o nosso corpo! Respeitá-lo! E isso basta ao Senhor!!! - uma veia arroxeada crescia no pescoço e alongava-se até à testa, denotando a excitação crescente com que acentuava a sua voz. Podia-se até dizer, que se algum prazer retirava da vida, era sem dúvida a fogosidade quase carnal com que defendia a pureza da dualidade corpo/alma.

Álvaro Guedes tinha 45 anos. Era empregado numa repartição estatal,  conhecido pela sua perseverança, pela sua rectidão, pela sua fé, pela sua vida espartana.

II

Saia do banho e vestia o fato cinzento. Tinha dois. Ambos cinzentos. Completos, e de boa qualidade - Se forem de um bom tyrilene  duram uma vida! E os luxos sobram-nos todos!

Camisa branca, tinha três camisas brancas, impecavelmente engomada. Meias cinzentas de algodão egípcio, e uns sapatos castanhos, de atacadores,  que tinha estreado há já 15 anos, numa excursão a Santiago de Compostela . Aliás a única  extravagância da sua vida, que ainda hoje, apelidava de esbanjamento sujo - Se ao menos tivessem ido em profissão de fé! , mas não!!!! Já não há crentes neste mundo! Todo o caminho cantaram brejeirices, e quando chegaram perderam-se nas lojas a comprar caramelos!!!

 A mesa do pequeno almoço, estava posta como sempre, uma toalha de linho, ainda do enxoval da mãe, duas chávenas de louça antiga, um bule cheio de água quente com cascas de limão, e duas fatias de pão de ontem.

Sentou-se, e olhou para o relógio na parede da cozinha, por cima do velho frigorifico. Marcava as 6:30.  Amália, a irmã de Álvaro, aquecera a água para o chá, acordada pelo barulho estridente do despertador, e voltara logo depois para os lençóis ainda quentes.

Tomava o pequeno almoço sozinho . Como quase todos os dias. Álvaro não era homem de se importar com coisas tão terrenas como ausências ou solidão.

Com a mesma cerimónia de quem se benze na missa de Sexta-Feira Santa, sentou-se à mesa, abençoou a parca refeição, e demorando-se nos gestos, encheu a chávena e barrou com pouca manteiga o pão endurecido. Comeu em silêncio, acompanhado pelo vazio da casa e pelo frio das suas mãos.

III

Amália tinha 50 anos, e vivia naquela casa desde o dia em que a mãe aos gritos a derramara no mundo. Fora um parto difícil , e logo  nas primeiras horas, a recém nascida mostrara ao mundo as suas diferenças .

Como se quisesse prolongar as dores da mãe, Amália, gritou duas semanas seguidas, sem parar. A mãe julgou de enlouquecer, e o pai deitou-se numa cama de aguardente, que lhe queimava as entranhas e o embalava em viagens por terras mudas, de gente sorridente e calada, onde não havia gritos ou choros ou vozes.

O tempo correu, umas vezes mais depressa do que outras, mas a estranheza de carácter de Amália continuou intacta, até ao dia do veredicto final. O diagnóstico médico prendeu-a para sempre a uma esquizofrenia, que fazia dela um ser sem pátria, ou casa, ou família , ou mundo.

Limpava a casa dos dois, duas vezes por dia, fazia almoço, passava a ferro, engomava colarinhos, engraxava sapatos, bordava toalhas, via novelas, mas na realidade nunca ninguém sabia onde ela estava.

IV

Tirou o guardanapo do colo, limpou a boca, dobrou-o com uma destreza matemática, e sem fazer barulho levantou-se, e saiu para a rua.

Cinco minutos antes das sete da manhã, estava já à porta da igreja de Sta . Justa, onde todas as manhãs ouvia a missa em latim, pela voz do decrépito Padre Miguel, que só a muito custo se mantinha de pé para terminar a homilia.

Tomava a hóstia consagrada com um enlevo orgástico,  molhava a ponta dos dedos com água benta, e pela quarta vez desde que tinha saído da cama, benzia-se e saía.

Caminhava a pé até ao serviço. Sempre, todos os dias deste há quase 18 anos. Era um bom emprego, seguro, um ordenado certo ao fim do mês. Tinha sido o seu Padrinho, um conceituado Doutor daquela praça, que lhe tinha arranjado o lugar, e ele, estava-lhe agradecido para a eternidade.

O caminho era mais ou menos o tempo de um Mistério, que ele rezava com fervor, ao mesmo tempo que dava os bons dias a com quem se cruzava.

V

Em 45 anos de vida, passara muitas horas em hospitais e consultórios médicos, primeiro por causa dos pais, depois por causa da irmã.

Ele até hoje, jamais precisara da intervenção da medicina, bastava-lha a mão de Deus, dizia - Muito mais poderosa! É a falta de fé que põe os homens doentes!

Todos o conheciam, e sabiam que se algum assunto lhe acendia o coração e aquecia a voz, era a fé dos homens...ou a falta dela.

Sabia bem, que os mais jovens lá da repartição, lhe chamavam, beato, rato de sacristia, e ás vezes coisas muito piores; mas ele confiava como sempre na justiça Divina, que no seu espírito, comparava sempre a uma espada afiada pronta a cair sobre uma cabeça pecadora.

- Não há nada que se pague melhor do que a semente da lingua! - sentenciava em pensamento, tentando contrariar o sabor doce da vingança que Deus perpétuaria em seu nome.

VI

Ia a casa para almoçar. Só assim podia ficar descansado. Vigiava Amália de perto, sondava a sua disposição diária, e depois de um almoço a dois, numa mudez mais dura que o pão de ontem, regressava ao serviço.

Lançava-se com afinco ao pouco que tinha que fazer, numa repartição pública igual a tantas outras, apinhada de gente com muito pouco para fazer.

Para Álvaro, não havia futilidades a discutir, ou procedimentos a adiar. Trabalhava em cima da linha, cumprindo horários estipulados por ninguém.

Ao bater das cinco da tarde no relógio da torre, começava a arrumar com minúcia. lápis, canetas e papeis.

Sempre sem se dar por ele, levantava-se, chegava com delicadeza a cadeira para a secretária, e saía. Nunca era o primeiro a sair. Não tinha pressa nenhuma.

VII

O caminho de retorno a casa, era sempre mais pesado a esta hora.

Ás vezes relaxava um pouco, desacelerava o passo, e permitia-se olhar os outros, ver como viviam, como falavam, como sorriam.

Mas o devaneio era momentaneo, e o escárnio da leveza de sentimentos dos outros, o quase nojo com que encarava a forma escancarada com que riam alto, como se rissem de Deus, depressa voltavam a carregar o seu semblante de uma inexpressiva incompreensão.

Punha a chave à porta, limpava os pés no tapete da emtrada, e como hábito, levantando a voz, avisava a irmã da sua chegada.

VIII

O jantar decorria no mesmo tom. O acompanhamento era outra vez a mudez das palavras que não se trocavam, e a sobremesa era o silêncio consentido entre os dois.

Ia cedo para o quarto. Nunca depois das nove da noite.

Tinha que rezar o terço, e preparar tudo para a amanhã seguinte.

Ajoelhava-se no marmore frio,  e agulhas de gelo penetravam nos ossos, infringido-lhe uma dor aguda que ele recebia com um sorriso e de olhos cerrados.

Terminada a oração, fechava o oratório e colocava-o com reverência dentro da gaveta da comoda, depois dirigia-se à porta do quarto, mecâncicamente, fechava-a e dava duas voltas à chave. Aquele era o seu reduto. A sua privacidade.

IX

Abriu o garda-fatos de mogno envernizado, despojo da mobilia de núpcias dos pais, e retirou de lá a caixa de cartão forrada a papel de seda azul claro, que guardava desde não se lembrava quando, naquele recôndido lugar, longe dos olhos da irmã, longe dos olhos de Deus...

Abriu-a como quem desfolha um malmequer, devagar, mas ao mesmo tempo com uma ansiedade, que bem conhecia, e que tanto lhe custava amansar.

Ficou ali de olhos vidrados, embevecidos com a luz que vinha de dentro da caixa. As cores berrantes explodiam-lhe o sangue nas suas veias, as texturas de sedas, e crepes, e rendas queimavam-lhe a sua existência, quase não ousava tocar em tais reliquias.

Despiu-se, com a usual paciência e sem pressas. olhou outra vez a caixa, espreitou para dentro e demorou o olhar, os lábio entreabertos, como se quisesse fazer ecoar o prazer que os seus olhos sentiam.

Escolheu umas de um vermelho carmim arrendadas e leves, tão leves como uma oração, tão quentes como a fé que lhe enchia os dias.

Tremeu de raiva pela comparação, e gemeu impotente perante o pecado consumado.

Vestiu-as, depois o pijama, e de regresso à vida, meteu-se na cama, e puxou os lençóis até ao pescoço.

X

Apagou a luz do candeeiro de mesinha de cabeceira, e no escuro, mais só do que nunca, deixou a sua mão viajar. Tocou-as. As calcinhas de renda vermelhas, cobriam-lhe o corpo morto antes sequer de ter vivido.

Sorriu ao sentir o conforto luxuriante do cetim, e adormeceu num acto de fé sem precedentes.

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Original Zumbido por meldevespas às 11:32
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