Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Do amor incondicional....

 

"Pois é... pois é..... caro Ulisses..... queria, e digo-o com sinceridade, ter melhores notícias para si......"

O espaçamento velado com que debitava as palavras, deixava antever a tragédia da circunstância.

Ulisses cerrou os punhos por baixo da mesa, engoliu um travo de ar fechado e acre, e quase a medo, procurou os olhos do seu interlocutor.

".....pois é.... meu caro.....tem que ser corajoso, e pensar sempre que não está sozinho neste mundo... e além disso....."

"Ora por favor!!! - Ulisses estava a perder o chão - deixe-se de rodeios Baltazar!!!! Conheço-o não é de hoje! Se não fosse grave o que tem preso na garganta, não me tinha sequer chamado... sabe bem que coragem é coisa que não me falta..."

"É a sua mulher Ulisses....você...ela...."

" Eu sabia..." - foi mais um rugido que uma frase articulada - " continue!" - e agora era uma ordem dada com uma frieza que gelou as dobradiças da porta entreaberta, e pulverizou uma geada fininha no compartimento acanhado.

Uma tontura derrubou-lhe a vontade,   o filme do fim antecipado alagou de luz as lembranças desbotadas de toda uma existência.

Não tinha sido a mais perfeita das companheiras.

Os 10 anos de casamento tinham sido intercalados por interregnos de incertezas, desamores, outros amores e bastas de todas as espécies.

Era no entanto uma mulher apaixonada... não o podia negar. Jamais voltava as costas ao chamamento dum macho...

Ulisses gostava dela assim mesmo, desculpava-lhe os deslizes, amparava-lhe as quedas, macerava as pequenas vergonhas sozinho, calava injúrias e engolia olhares apiedados.

-É um pobre diabo nas mãos dela - diziam as vozes num coro celestial e eterno, que lhe embalava os sentidos há já quase 10 anos.

Mas Ulisses tinha por ela sentimentos que todos os outros pareciam não entender...

Nunca lhe tinha passado pela cabeça desfazer os santos laços do sacramento que tomara com as duas mão abertas, e tinha sempre presentes as palavras sábias do seu avô, que por altura do primeiro fogo de palha da sua amada, lhe disse: - Conforma-te rapaz...e cala-te bem calado. Vais fazer o quê? Trocá-la por outra? Esta já tu sabes como é.

Ulisses calara. Sempre. O amor doía-lhe tanto.....

E agora?

Já não sabia se queria continuar ali a ouvir o que Baltazar tinha pra lhe dizer.

Sempre preferira a ignorância.

Eram tão novos. Mal ou bem tinham tanto pra viver.

Queria voltar pra casa, abraçá-la e dizer-lhe que a amava e que estaria sempre ali como um muro de betão, forte e audaz a protegê-la de todo o mal.

Levantou-se deixando para trás a cadeira tombada num estrondo. Sentia os ouvidos a zumbir, a boca cheia de terra, e o coração a ganir como um cão sem dono.

"Não! Não quero ouvir...se é sobre ela não quero ouvir! Não importa, mais nada Baltazar, ouviu?! Se ela morre, eu dou um tiro nos miolos em cima do cadáver dela! Por isso cale-se agora! Não quero saber, nunca quis saber nada.... agora muito menos......" - caiu sentado no chão, a cabeça pendurada sobre o peito, o rosto escondido pelas mãos em concha, o choro calado do hábito.

" Ulisses, também não é caso para isso homem de Deus!

 A sua mulher pôs-lhe os cornos! É isso... pronto... agora já disse! "

A geada destilada pelo olhar de Ulisses há poucos minutos, dissipou-se num hálito quente, e o silêncio durou o tempo de se erguer do chão, sempre a fitar, incrédulo, um expectante e assustado Baltazar.

" Então é isso!?" - o outro acenava paternalmente - "Então é isso!!??"

Sempre com a mesma pergunta, Ulisses saiu para a rua a correr como um galgo no cio.

Tinha que a beijar, tinha que a avisar que afinal iam mesmo ser felizes para sempre!

 

imagem by deviantart 

sinto-me:
música: Perfídia - Nat King Cole
Original Zumbido por meldevespas às 18:51
link do post | favorito
De António a 22 de Agosto de 2008 às 12:19
Olá, Carmo!
Eu, macho latino, ter-lhe-ía dado outro título:
"O corno manso"
ah ah ah
Excelente texto com a habitual e admirável escrita que é a tua.

Beijinhos
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