Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Requiem

 

 

"- Não é fácil errar por esta terra... "- disse o homem só, em voz alta e limpa. Estava de pé, em cima de uma pedra de granito, e tinha o olhar fitado num ponto inatingível,  no horizonte de trigo moreno.

"- Primeiro é a paixão....avassaladora..., a entrega, sem reservas, sem guardar nem um bocadinho que seja de nós para outra jornada.

O sol mima a pele, aquece palavras frias e ateia lenha molhada.

A chuva acalma a sede, lava o espírito e liberta o ser que escondias de vergonha dentro do teu corpo...

E o vento? O vento espalha-te na carne sementes de amanhãs, e tu deixas, sereno, quieto...aberto...

Depois quando vais à procura de ti...já não és... "

O homem só, passou a mão pelos cabelos longos, e uma nuvem de insectos caleidoscópicos fugiu em debandada pelo tempo parado.

"- Se eu soubesse escrever, desenhava tudo o que estou a sentir em letras redondas, num papel branco, para que todos pudessem fugir do chamamento opressor,  disfarçado em canto dócil de musas aquáticas.

Primeiro são as estrelas que te cobrem o frio nas noites em que o Verão de despede às pressas e a seguir a lua encena todos os sonhos que te nascem das mãos e vais deixando caídos nas veredas lavradas pelos teus olhos salgados..."

Sozinho, o homem falava como quem prega a palavra de um qualquer Deus pagão. O que saía da sua boca, eram sons apaixonados, gritos libertadores que apaziguavam a dor de um amor desprovido de limites.

As mãos nodosas como galhos de árvores velhas, descansavam uma na outra,  apoiadas num cajado encorcovado, de nogueira. As unhas escuras cresciam à deriva como ervas daninhas, e perdiam-se por entre os dedos compridos e finos.

"- Não é fácil viver por esta terra...quando já deste tudo, quanto não te resta mais que braçadas de vazio atrás de braçadas de vazio, és cuspido como um caroço de azeitona. Mas aí....não há nada mais a fazer...desaprendeste de outra coisa que não seja dar-te inteiro, e podes até fugir, correr sem olhar para trás....não tens mais certezas que o regresso, o regresso em dores insuportáveis, em dádivas incondicionais...

Já não és tu. As raízes estão fundas, espalharam-se como veias que pulsam a cada batida do teu coração, e não há palmo de chão virgem."

A solidão conferia ao homem um matiz pálido de pérola embaciada pelos anos. Nos ombros conformados, uma força maior que ele, impelia-o para o sim eterno e etéreo como ele.

".... não é fácil morrer por esta terra.....esperares acomodado o voo da foice que te vai cortar os ossos, dilacerar o fio umbilical que te une ao sol.....ainda."

O homem sozinho calou-se, cansado do eco que se emaranhava nos longos cabelos espinhados e num suspiro resignado diluiu-se na terra, adubando dias vindouros.

sinto-me:
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Original Zumbido por meldevespas às 17:59
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