Domingo, 23 de Setembro de 2007

O tempo estava a mudar.

- Que aborrecido! Tenho que desmanchar esta porcaria toda outra vez.....- puxou a linha esbranquiçada; que de tanto uso, começava a dar mostras de cansaço na cor. Puxou, com a força de um pescador numa maré de fins de Setembro .

Por mais voltas que desse aos miolos, não lhe saia da cabeça que aquela colcha que tecia noite e dia, dia e noite, tivesse que nascer das suas mãos, tivesse que ser parida das suas dores àridas. Os dedos serpenteavam na agulha, e em menos de nada, enleios cresciam, enredos de linhas finas que se emaranhavam diante dos seus olhos e se agigantavam como as nuvens quando o tempo muda.

O tempo estava a mudar. Lá fora o verão travava lutas antigas com o outono, antigas e sempre antecipadamente perdidas. Seria a sua uma dessas lutas?

Puxou a linha com força, e um desespero entrou-lhe pela boca e aguou-lhe os sentidos. Tinha que acabar aquela maldita colcha.

- Faço desfaço, faço desfaço! Já nem sei onde acaba a minha mão e começa a agulha, já nem distingo os meus dedos das linhas enleadas. Tenho esta colcha colada a mim, dos pés à cabeça, como uma sombra que não é minha, e das duas uma: ou acabo com isto, ou dou em maluca!!!

Já tinha tricotado o alpendre, já tinha bordado a varanda, tinha caseado portas e janelas e sentia-se sempre e cada vez mais vazia naquela casa cheia de linhas claras, que esbranquiçavam olhares e afastavam ventos e restos de vidas.

- Faltam duas rosetas destas...só duas e posso-me deitar. Se me esquecer de adormecer, por certo que logo de manhanzinha tenho a coisa acabada...

Com a furia do fim em vista, e o frémito do sono por consumar,  picou-se uma e outra vez, e duas joaninhas vermelhas eclodiram da ponda dos dedos e entornaram-se no leite da colcha por acabar.

- Era só o que me faltava!!! ...Mas não faz mal - disse - toda ela está tecida do meu sangue...se algum estiver assim à vista de todos, que importância tem isso! Ao menos saberão o que doeu...

Tricotou com a desenvoltura de uma criança que sobe a uma árvore só pra roubar os ovos de um ninho, e depois os esborracha fechando a mão. E com a mesma insensatez do sorriso cruel da criança, fez e desfez toda a santa noite.

Os primeiros raios de sol, arrendados pelo alpendre, encontraram por baixo das portas, pontas de novelos que corriam todos em coro para o leito de uma colcha imensa da cor das horas e dos dias.

Acordadas pela luz,  milhares de joaninhas vermelhas, voaram pelas janelas.

Fotografia de João Palmela

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Original Zumbido por meldevespas às 16:16
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